RESUMO
O Brasil está enfrentando um aumento na violência política à medida que as eleições municipais de 2024 se aproximam, com incidentes já ocorrendo. Esses incidentes refletem a polarização e a insegurança contínuas das eleições anteriores. O As eleições de 2022 foram marcadas por violência significativa, incluindo assassinatos e incêndios criminosos cometidos por indivíduos que contestaram os resultados, culminando com a invasão de edifícios governamentais em 8 de janeiro de 2023. A violência política também prejudicou as eleições municipais de 2020, com numerosos ataques, destacando a influência do crime organizado no processo eleitoral do Brasil. Esta tendência crescente de violência política ameaça não só o Brasil, mas também os países vizinhos da América Latina e até mesmo os Estados Unidos..
Aumento da violência política antes das eleições municipais
O Brasil tem experimentado um aumento na violência política relacionada às próximas eleições locais em outubro de 2024. Historicamente, as eleições locais, onde as pessoas escolhem prefeitos e vereadores, são mais violentas do que as eleições presidenciais e para governador.. Os primeiros incidentes relacionados com as eleições municipais de 2024 indicam que os factores que alimentam a violência continuam por resolver. Mesmo antes do início da campanha oficial, já ocorreram ataques, destacando a tensão e a insegurança prevalecentes.
No dia 7 de maio, o ex-policial e vereador Erasmo Morais (Partido Liberal PL) foi brutalmente assassinado com tiros de fuzil na cidade de Crato, no Ceará. Segundo a Polícia Militar, o crime ocorreu próximo à residência do vereador. Testemunhas relataram que dois homens em uma caminhonete branca dispararam e fugiram.
No dia 14 de julho, o policial militar Clayton Gross Batinga, ex-secretário adjunto de Segurança Pública de Belford Roxo, Rio de Janeiro, teve seu carro atingido por pelo menos quatro tiros. Batinga, aliado do prefeito Waguinho (Republicanos) e pré-candidato a vereador, conseguiu sobreviver à tentativa de assassinato.

O crescente a polarização política no Brasil agrava essa violência, criando um ambiente de hostilidade e divisão que alimenta ataques e ameaças contra aqueles que se envolvem na política. Esta escalada de crimes não só coloca em risco a integridade das vítimas, mas também ameaça o próprio processo democrático, que depende de um ambiente seguro para prosperar.
Violência política durante as eleições de 2022 no Brasil
A violência política tem sido uma característica das eleições brasileiras, mas aumentou significativamente durante a campanha de 2022. A corrida presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) foi particularmente marcada pela violência, incluindo homicídios, intimidações e agressões. Embora as eleições anteriores tenham assistido principalmente a disputas locais, muitos incidentes graves em 2022 estiveram directamente relacionados com a disputa presidencial.

No dia 9 de julho, o policial federal Jorge Guaranho matou a tiros o guarda municipal e petista Marcelo Aloizio de Arruda durante festa de aniversário em Foz do Iguaçu, Paraná.. Em 7 de setembro, Rafael Silva de Oliveira foi preso por esfaquear colega de trabalho Benedito Cardoso dos Santos, que apoiou Lula, após discussão política em Mato Grosso. No dia 2 de setembro, o policial militar Vitor da Silva Lopes atirou no conselheiro Davi Augusto de Souza, em Goiânia, provocado pelo discurso de um pastor contra partidos de esquerda. Esses os incidentes refletem tendências mais amplas relatadas pelo Observatório de Violência Política e Eleitoral da Unirio, que registrou 40 mortes por violência política no primeiro semestre de 2022. Antes do primeiro turno das eleições, de 1 de agosto a 2 de outubro de 2022, a violência política aumentou, com 121 episódios documentados, uma média de cerca de dois casos por dia. Os alvos eram principalmente agentes políticos filiados a partidos de esquerda como o PT (Partido dos Trabalhadores) e o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade, Partido Socialismo e Liberdade), de acordo com a 2ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil da Terra de Direitos e Justiça Global.

A violência persistiu após as eleições. Apoiadores do ex-presidente Bolsonaro contestaram os resultados com protestos em diversas cidades. Em Brasília, incendiaram sete carros e quatro ônibus e vandalizaram uma delegacia. Houve também uma tentativa de atentado a bomba no Aeroporto Internacional de Brasília envolvendo um caminhão carregado de querosene. Outras interrupções incluíram a destruição de oleodutos em Ariquemes, Rondônia, causando escassez de água, bloqueios de rodovias em São Paulo e ataques a caminhoneiros no Paraná. Esses atos violentos culminou na invasão da Praça dos Três Poderes, no dia 8 de janeiro, onde manifestantes vandalizaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.
Violência Política Durante as Eleições Municipais de 2020 no Brasil
Quando as eleições municipais são marcadas, normalmente surge um ciclo de ameaças e violência contra candidatos, especialmente para cargos de vereador e prefeito.. As eleições municipais de 2020 sublinharam este padrão, revelando um aumento da violência política em comparação com anos anteriores.

Entre 9 e 15 de novembro de 2020, foram notificados 45 incidentes de violência política, incluindo homicídios e agressões, com uma média de seis casos por dia, segundo o relatório “Violência Política e Eleitoral no Brasil” da Terra de Direitos e Justiça Global. De janeiro a setembro de 2020, ocorreram 13 assassinatos e 14 ataques, e de 2 de setembro a 29 de novembro, foram registrados 14 assassinatos e 66 ataques contra candidatos. Isso fez de 2020 o ano mais violento para os candidatos no Brasil, superando os anos anteriores.
A violência política em 2020 também foi visível durante as transmissões ao vivo. No dia 9 de setembro, o candidato a vereador Ricardo Moura (PL) foi baleado em Guarulhos (SP) durante uma live nas redes sociais, e no dia 24 de setembro, Cássio Remis (PSDB), candidato a vereador em Patrocínio (MG), foi morto durante uma transmissão ao vivo. denunciando a Prefeitura. O secretário de Obras Públicas de Patrocínio, Jorge Marra, foi posteriormente preso pelo crime.

Em junho de 2020, uma marcha no centro do Rio de Janeiro contra o governo Bolsonaro tornou-se violenta quando manifestantes atiraram pedras contra policiais e carros na Avenida Presidente Vargas. Também ocorreram protestos contra o governo em vários bairros e uma manifestação de apoio a Bolsonaro em Copacabana. Este evento destaca a crescente tensão política e violência associada aos protestos no Brasil.
Influência do Crime Organizado
Felipe Borba, professor da Unirio, argumenta que embora o número de vítimas da violência eleitoral possa ser relativamente baixo, os seus efeitos na democracia brasileira são profundos. A violência política dissuade potenciais candidatos, perturba os eventos de campanha e facilita a coerção dos eleitores, especialmente por parte das milícias locais.
O processo de A influência das milícias e de outros grupos do crime organizado nas eleições brasileiras, particularmente nas eleições municipais, é preocupante.

As eleições municipais são particularmente vulneráveis devido à proximidade dos candidatos às comunidades locais, onde milícias e facções exercem controlo territorial sobre uma área com uma população suficientemente grande para eleger um representante local., como vereador, ou ter grande impacto na decisão de um cargo importante, como o de prefeito. Os grupos podem financiar campanhas e sabotar adversários através de ameaças, agressões e até assassinatos.. Além disso, podem comprar ou intimidar o eleitorado para garantir votos. Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, nas eleições de 2022, as investigações do A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Rio (MP-RJ) identificaram pelo menos oito candidatos com comprovada ligação com organizações criminosas.
A influência na tomada de decisões políticas pode gerar grandes lucros. De acordo com a investigação da PF, esse mecanismo criminoso está por trás do assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. Ela se opôs à aprovação de uma lei proposta por candidatos que seria apoiada por uma milícia na Zona Oeste do Rio. A lei regularizaria terras de reserva ocupadas ilegalmente por empreendimentos imobiliários construídos pela própria milícia. De forma similar, em São Paulo, as investigações indicaram que o Primeiro Comando da Capital (PCC), quadrilha do tráfico de drogas, prefeituras infiltradas através de conexões com políticos e funcionários públicos vencer licitações e participar da prestação de serviços públicos, facilitando o processo de lavagem de dinheiro.
Ameaça crescente na América
O Brasil não está isolado ao vivenciar a violência política; muitos países vizinhos enfrentam problemas semelhantes, motivados por profundos problemas socioeconómicos, gangues de traficantes influentes, polarização política exacerbada por notícias falsas, violência armada generalizada e políticos populistas. Exemplos notáveis incluem México, Equador, Colômbia e Estados Unidos.
Em 13 de julho, durante um comício eleitoral em Butler, Pensilvânia, o ex-presidente Donald Trump foi alvo de um ataque que sublinhou a polarização e a tensão em curso nos EUA.. Um atirador disparou contra o palco, matando um espectador e ferindo outros dois. Trump sofreu um ferimento leve na orelha. Este incidente, juntamente com o ataque ao Capitólio e outros atos violentos, levou alguns analistas a especular sobre uma potencial nova ruptura na política americana.
No México, a violência política aumentou de forma alarmante. Durante as últimas eleições gerais, 38 candidatos foram assassinados, incluindo um morto pouco antes da eleição. Estes acontecimentos destacam a influência preocupante dos cartéis de drogas na democracia mexicana. Houve também duas mortes de eleitores em centros de votação e a votação foi interrompida num colégio eleitoral em Comeyoapan, Puebla, devido a um tiroteio. Em Jalisco, preocupações de segurança levaram à não instalação de cinco urnas eleitorais.
Os cartéis mexicanos estenderam a sua influência ao Equador, onde deram poder às gangues locais responsáveis pelo assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio em agosto 2023.
A Colômbia enfrentou grave violência eleitoral, impactando significativamente o seu cenário político. Entre março e maio de 2022, a Fundação para a Paz e Reconciliação registou 222 vítimas, incluindo 29 homicídios e 193 ameaças. O Indepaz relatou 42 massacres em 2022 e 1,624 assassinatos de ex-combatentes e líderes comunitários desde os Acordos de Paz. Nomeadamente, o Senador Paulino Riascos foi atacado e as crescentes ameaças contra candidatos progressistas forçaram a suspensão de diversas actividades de campanha. Estes incidentes sublinham o perigo persistente enfrentado por figuras políticas e activistas, ilustrando os desafios profundos à democracia da Colômbia.
Dicas para se proteger da violência durante as eleições no Brasil
A campanha oficial para as Eleições Autárquicas de 2024 começa a 16 de agosto. Porém, os candidatos já estão em modo pré-campanha e podem realizar eventos e se promover, desde que não peçam votos diretamente. As Eleições Municipais de 2024 no Brasil acontecerão em todo o país, exceto no Distrito Federal e no arquipélago de Fernando de Noronha (PE). A primeira volta está marcada para 6 de outubro, enquanto a segunda volta, se necessário, será no dia 27 de outubro em cidades com mais de 200,000 eleitores.
A violência política ameaça candidatos, políticos e o próprio processo democrático; além disso, qualquer pessoa próxima de incidentes violentos pode ser prejudicada ou tornar-se um alvo não intencional. Para mitigar estes riscos, foi preparada uma lista de recomendações importantes para ajudar a reduzir a exposição ao perigo tanto para indivíduos como para bens.
- Mantenha-se informado: Acompanhe as notícias e atualizações locais sobre a violência relacionada às eleições em sua área.
- Evite áreas de alto risco:Fique longe de bairros ou áreas conhecidas pela violência ou atividade de milícias, especialmente em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.
- Use comunicação discreta:Seja cauteloso com sua comunicação sobre atividades e opiniões políticas. Evite discutir temas delicados em público ou em plataformas digitais não seguras.
- Entenda a dinâmica local:Reconheça a influência das milícias locais e facções criminosas em sua área. Esteja ciente de suas atividades e evite interagir ou desafiá-los diretamente.
- Evite associações políticas: Não use a camisa de futebol brasileira ou camisa vermelha, especialmente perto de zonas de protesto, pois podem ser vistas como um sinal de filiação política.
- Evite multidões e manifestações: Fique longe de multidões e manifestações. Se for apanhado numa manifestação, tente afastar-se rapidamente da multidão, procure abrigo num edifício próximo e espere que os manifestantes se dispersem. Evite tirar fotos ou usar o telefone.
- Antecipe a presença de segurança: Espera-se uma maior presença das forças de segurança durante o período eleitoral.



