Resumo
O roubo de combustível em oleodutos no Brasil ressurgiu como um risco multidimensional para a infraestrutura energética crítica. Investigações recentes, incluindo a Operação Haras, revelam redes criminosas cada vez mais sofisticadas que se dedicam a perfurações clandestinas, proteção armada de locais e distribuição interestadual, apoiadas por documentação fraudulenta. Após seis anos de declínio, os incidentes voltaram a aumentar em 2025, com forte concentração geográfica em São Paulo e sinais de expansão ao longo de corredores estratégicos de gasodutos. Além das perdas financeiras, a ligação ilegal compromete a integridade da infraestrutura, aumenta os riscos à saúde, segurança e meio ambiente e ameaça a continuidade operacional de um sistema vital para o abastecimento nacional de combustíveis. Essa tendência demonstra que a interferência em oleodutos evoluiu para um desafio estrutural de segurança que exige respostas tecnológicas, institucionais e de governança sustentadas.
Além disso, a alta dos preços globais do petróleo, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, intensifica significativamente os incentivos econômicos para o furto de combustível no Brasil. Essa volatilidade geopolítica cria um ambiente altamente lucrativo para as sofisticadas redes criminosas já atuantes no país.
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Desenvolvimentos recentes: Operação Haras
Em 22 de janeiro de 2026, a Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) lançaram a Operação Haras do Crime, visando uma organização criminosa estruturada acusada de desviar petróleo bruto por meio de perfurações clandestinas em oleodutos operados pela Transpetro.. A escuta ilegal ocorreu dentro de uma propriedade rural em Guapimirim, na Baixada Fluminense, conhecida como Fazenda Garcia.
As autoridades estimam que Os prejuízos relacionados ao esquema ultrapassam R$ 6 milhões.. Na última atualização, sete pessoas foram presas. Treze mandados de prisão e dezesseis mandados de busca e apreensão foram executados em oito estados — Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Sergipe — demonstrando o alcance interestadual e inter-regional da rede.

A investigação começou em 2024, após uma prisão flagrante relacionada ao roubo de petróleo na mesma propriedade. Posteriormente, as autoridades policiais identificaram o que descreveram como um "ciclo criminoso integrado". Uma operação que normalmente exige conhecimento técnico especializado e familiaridade detalhada com a infraestrutura de dutos, por vezes obtida por meio de indivíduos com experiência prévia no setor. — além da proteção armada do local de extração, da rápida transferência do petróleo bruto para caminhões-tanque e do transporte interestadual, tudo isso com o apoio de notas fiscais falsificadas emitidas por empresas de fachada. As autoridades relataram a identificação de dezenas de empresas receptoras e entidades de fachada usadas para legitimar a circulação do produto.
Embora a propriedade pertença a membros da família Garcia — historicamente associada às redes de contrabando do Rio e a um esquema de jogos de azar ilegais conhecido como “Jogo do Bicho” — Não foram expedidos mandados de prisão contra membros da família, pois os investigadores não encontraram provas de que eles tivessem conhecimento da atividade ilícita. Os atuais locatários do imóvel estão entre os suspeitos.
O caso reflete a sofisticação operacional, a coordenação logística e a estruturação financeira que agora caracterizam o roubo de combustível em oleodutos no Brasil.
Tendências Nacionais e Exposição Estratégica
A Transpetro relatou um aumento recente nos incidentes de derivação ilegal de oleodutos em 2025 — uma prática que coloca em risco direto a segurança pública, a integridade ambiental e a continuidade do fornecimento de combustível.Após seis anos consecutivos de declínio, a empresa registrou 31 roubos ou tentativas de roubo em sua rede de gasodutos, em comparação com 25 casos em 2024., interrompendo uma tendência de queda de quase 90% desde 2018, quando foram registrados 261 incidentes. Além dos prejuízos financeiros, o roubo de oleodutos introduz vulnerabilidades operacionais que podem reverberar por toda a cadeia de abastecimento de combustíveis. Operando aproximadamente 8,500 quilômetros de oleodutos no Brasil, a Transpetro administra a espinha dorsal do sistema nacional de distribuição de combustíveis, o que significa que a retomada da ação criminosa acarreta implicações que vão além das perdas financeiras e afetam diretamente a integridade da infraestrutura, a continuidade operacional e a segurança pública.
O ressurgimento desses incidentes é particularmente preocupante, dados os riscos estruturais associados às perfurações clandestinas em dutos pressurizados. A ligação ilegal cria fragilidades latentes no sistema de gasodutos, aumenta a probabilidade de vazamentos ou explosões e pode resultar em ferimentos pessoais e contaminação ambiental, com custos de remediação a longo prazo.Além da perda imediata de produtos, essa interferência muitas vezes exige paralisações preventivas, inspeções técnicas e coordenação com as autoridades policiais, podendo interromper o fluxo de suprimentos para infraestruturas críticas, como hospitais, aeroportos e portos. Assim sendo, O aumento no número de incidentes sinaliza não apenas uma tendência criminal, mas também um perfil de risco elevado para a rede logística de energia do Brasil..
São Paulo como epicentro primário
O processo de O estado de São Paulo concentra mais de 70% dos casos de furto de dutos registrados em todo o país., reforçando sua posição como o principal epicentro do desvio clandestino de combustível. Incidentes no estado aumentou de 17 em 2024 para 22 em 2025., dando continuidade a uma trajetória de crescimento já observada em 2023. Esse padrão sugere que O aumento de casos não pode ser interpretado como uma atividade isolada ou esporádica, mas sim como um risco estrutural e sistêmico inerente ao ambiente logístico estratégico do estado..

São Paulo reúne diversas condições favoráveis que aumentam a vulnerabilidade. O estado abriga a maior e mais extensa rede de oleodutos do país, com trechos significativos localizados próximos a áreas urbanas densamente povoadas. Além disso, o estado mantém um mercado consumidor robusto e contínuo, capaz de absorver rapidamente o combustível desviado, reduzindo o risco operacional para agentes ilícitos ao diminuir o tempo de armazenamento e facilitar a revenda imediata.Além disso, sua densa infraestrutura rodoviária e logística facilita o transporte clandestino rápido e a distribuição interestadual, permitindo que produtos roubados circulem com relativa eficiência por meio de esquemas de documentação fraudulenta e empresas de fachada.
Embora São Paulo continue sendo o ponto focal, há indícios de expansão geográfica. Minas Gerais registrou um aumento de uma ocorrência em 2024 para seis em 2025, e Goiás registrou um caso durante o mesmo período.Ambos os estados são atravessados pelo Oleoduto São Paulo-Brasília (OSBRA), de importância estratégica e corredor crucial para o fluxo de derivados de petróleo em direção ao centro do Brasil. O direcionamento a ativos ao longo dessa rota pode indicar uma expansão gradual em importantes vias logísticas dentro do sistema nacional de oleodutos.
Em contraste, O Rio de Janeiro demonstrou uma redução substancial nos incidentes registrados, passando de 13 casos em 2020 para uma única ocorrência em 2025.Essa trajetória sugere que esforços contínuos de prevenção e pressão policial podem gerar efeitos de contenção mensuráveis quando aplicados de forma consistente.
Integridade da Infraestrutura
A extração clandestina de combustível representa uma ameaça direta à integridade dos oleodutos e aumenta significativamente a exposição a riscos de saúde, segurança e meio ambiente (SSMA). Perfurações ilegais em dutos pressurizados são geralmente realizadas sem observância de normas de engenharia, procedimentos de reforço estrutural ou medidas de segurança para controle de pressão. Mesmo quando não ocorre ruptura imediata, tais intervenções introduzem fragilidades mecânicas latentes que podem comprometer a confiabilidade do sistema a longo prazo. Esses pontos de tensão não detectados aumentam a probabilidade de danos graves, principalmente em áreas densamente povoadas ou ambientalmente sensíveis, onde as consequências podem se agravar rapidamente..
Esse risco tornou-se evidente em outubro de 2025, quando uma tentativa de furto em um oleoduto da Petrobras provocou um vazamento de gasolina perto da Fazenda Monte Belo, no interior rural do estado de São Paulo. Segundo as autoridades locais, a gasolina jorrou a vários metros de altura, criando um risco substancial de explosão e contaminação ambiental. A área teve de ser completamente isolada até que o vazamento fosse contido no final daquela tarde, ilustrando como mesmo tentativas frustradas de interceptação podem gerar graves riscos à segurança e desafios na resposta a emergências.
Além do perigo imediato, as consequências ambientais podem ser graves e duradouras. Vazamentos de combustível podem contaminar o solo, as águas subterrâneas e corpos d'água próximos, resultando em custos elevados de remediação, possíveis penalidades regulatórias e danos à reputação. Considerando que a Transpetro transporta aproximadamente 650 bilhões de litros de petróleo, derivados e biocombustíveis anualmente por meio de sua rede de oleodutos, as falhas de integridade acarretam implicações sistêmicas. Portanto, a proteção da infraestrutura de oleodutos é fundamental para a resiliência energética nacional, a proteção ambiental e a segurança pública.
Convergência do Crime Organizado e Riscos de Governança
Investigações recentes, incluindo a Operação Haras, demonstram que o roubo de combustível por oleoduto no Brasil é cada vez mais caracterizado por uma coordenação criminosa estruturada, em vez de atos oportunistas isolados. O modelo operacional descrito pelas autoridades — que envolve perfuração clandestina, proteção armada dos locais de coleta de dados, transferência rápida para caminhões-tanque e distribuição interestadual com o auxílio de notas fiscais falsificadas — indica uma cadeia ilícita verticalmente integrada. A utilização de empresas de fachada e documentação fraudulenta para legitimar a circulação de produtos roubados reflete um nível de estruturação financeira consistente com a dinâmica do crime organizado.
Essa convergência introduz riscos de governança e conformidade que vão além dos danos à infraestrutura física. A inserção de combustível roubado nos canais formais de distribuição pode envolver evasão fiscal, lavagem de dinheiro e manipulação de documentação regulamentar. A escala e a complexidade técnica das operações também levantam preocupações quanto ao potencial acesso a conhecimento operacional ou logístico detalhado, seja por meio de redes informais de informação ou facilitação corrupta.

Essa dinâmica aumenta a exposição ao escrutínio legal, reputacional e regulatório tanto para operadores quanto para participantes do mercado. Quando o roubo de combustível se cruza com crimes financeiros e redes logísticas interestaduais, o perfil da ameaça se expande da interrupção operacional para a vulnerabilidade institucional. Mitigar esse risco exige não apenas monitoramento tecnológico, mas também maior diligência prévia em relação a contratados, transportadores e contrapartes, bem como coordenação constante com promotores públicos e agências de aplicação da lei para desmantelar o amplo ecossistema criminoso que sustenta a interceptação ilegal de dutos.
Continuidade Operacional e Interrupção da Cadeia de Suprimentos
Os sistemas de dutos constituem infraestrutura crítica para a cadeia de suprimento de combustíveis do Brasil, garantindo o transporte eficiente e em larga escala de derivados de petróleo entre as regiões. Quando se detecta ou suspeita de ligação ilegal, os operadores frequentemente implementam paralisações preventivas para conter possíveis danos e realizar inspeções técnicas. Embora necessárias do ponto de vista da segurança, essas medidas podem interromper temporariamente o fluxo de produtos e criar gargalos logísticos.
Interrupções nas operações de oleodutos podem exigir o desvio de volumes para modais de transporte alternativos, principalmente o transporte rodoviário. Essa mudança não só aumenta os custos de transporte, como também expõe a carga de combustível a maiores riscos de roubo e acidentes. O efeito cumulativo pode reverberar por toda a cadeia de suprimentos, afetando terminais de distribuição, postos de combustível e, em última instância, os consumidores. Em casos extremos, interrupções prolongadas podem impactar o abastecimento de infraestruturas críticas, incluindo aeroportos, hospitais e portos.
Para lidar com esses riscos, a Transpetro articulou uma estratégia integrada de prevenção baseada em monitoramento tecnológico, cooperação institucional e engajamento comunitário. Sistemas avançados de vigilância, apoiados por inteligência artificial, permitem a detecção em tempo real de variações suspeitas de pressão ou atividades não autorizadas, monitoradas 24 horas por dia por centros de controle centralizados no Rio de Janeiro. Parcerias com autoridades de segurança pública e promotores fortalecem a capacidade investigativa, enquanto iniciativas de alcance comunitário — incluindo canais de denúncia anônima e programas educativos — visam reduzir a tolerância local à escuta ilegal. Juntas, essas medidas têm como objetivo mitigar interrupções operacionais e fortalecer a capacidade de resposta em nível sistêmico.
História em desenvolvimento
O processo de O recente início da guerra no Irã e a escalada dos conflitos no Oriente Médio desencadearam um aumento acentuado nos preços globais da energia.Com os contratos futuros do petróleo Brent subindo mais de 8%, para mais de US$ 82 por barril no início de março de 2026, essa instabilidade geopolítica paralisou o trânsito pelo Estreito de Ormuz — um ponto de estrangulamento para 20% do fornecimento global de petróleo — aumentando as preocupações de que os preços possam em breve ultrapassar US$ 100 por barril. Historicamente, períodos de preços elevados dos combustíveis e volatilidade econômica têm servido como um poderoso catalisador para a atividade criminosa no Brasil, visto que a venda irregular de combustíveis se torna um negócio cada vez mais lucrativo para o crime organizado. Com o mercado interno já enfrentando um ressurgimento de interferências em oleodutos, a pressão adicional da disparada dos preços internacionais do petróleo cria um incentivo econômico maior para o roubo, podendo acelerar a expansão de sofisticadas redes criminosas e comprometer ainda mais a integridade da infraestrutura energética estratégica do Brasil.



