Na edição deste mês, lançamos a segunda de uma série de duas partes que foca nas atividades ilegais no Brasil. Neste texto, vamos aprofundar a relação entre as atividades ilegais, que assolam a economia do país, o crime organizado e o terrorismo. Para encerrar a série, debateremos as propostas que especialistas e instituições elaboraram para combater tal problema.
No mês passado, a primeira parte apresentou as práticas ilegais mais relevantes encontradas no país, seguido de um índice global que mostra a posição do país em relação aos seus pares. Por fim, discutimos algumas das consequências das ilegalidades.
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O CRIME ORGANIZADO
Dentre o conjunto de consequências trazidas pelas atividades ilícitas, o fortalecimento do crime organizado, é provavelmente uma das mais danosas à sociedade. Esses grupos, normalmente focados em outros negócios, como o tráfico de drogas, cometem cada vez mais diversos crimes para ampliar suas fontes de renda.
O roubo de carga é um dos meios secundários preferidos pelos quais as gangues obtêm dinheiro. No Rio de Janeiro, Comando Vermelho (CCV), e em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores organizações criminosas do país, têm equipes dedicadas a seqüestrar caminhões em rodovias federais e estaduais e roubar suas cargas. No Rio, as regiões que mais registram esse tipo de crime, como São Gonçalo, ficam próximas favelas controlado pelo currículo.
Grandes facções, como CV e PCC, também se envolvem com contrabando e comércio de produtos ilegais. Eles começaram a usar rotas de contrabando para o transporte de armas, drogas e munições. No entanto, essa relação evoluiu e se tornou uma forma estratégica de financiar a quadrilha. A lógica que impulsionou esse fenômeno foi a conveniência e o lucro. Para contrabandear produtos, é necessário criar uma rede criminosa. No entanto, uma vez que as rotas estejam devidamente estabelecidas, é fácil usá-las para trazer qualquer coisa que dê lucro. Às vezes, é ainda mais lucrativo do que o tráfico de drogas, que é o caso do cigarro. O fato explica por que não é incomum que a polícia tenha mercadorias contrabandeadas, armas e drogas apreendidas no mesmo carregamento.

A configuração da rede de contrabando exige transporte, o que leva a mais crimes. Os criminosos podem usar aviões, helicópteros e barcos. No entanto, a maior parte da viagem através das fronteiras é feita de caminhão ou carro. Para reduzir custos, as quadrilhas frequentemente recorrem ao roubo ou furto de veículos para obter um meio de transporte.
Outro passo essencial para construir uma rota de contrabando confiável é corromper funcionários do governo, desde forças policiais até políticos. Por exemplo, no início de agosto, uma operação policial prendeu um grupo de Inspetores da Receita Federal que trabalhavam no porto de Itaguaí, Itaguaí, estado do Rio de Janeiro. As investigações indicam que estariam trabalhando para a milícia local, contrabandistas e traficantes de drogas. Os policiais supostamente corruptos compartilhavam com os criminosos informações privilegiadas sobre as operações no terminal de cargas para facilitar o transporte de produtos ilegais.
A expansão dos negócios das organizações criminosas também chega à fase final de muitas atividades ilícitas, que é quando chegam ao consumidor final. Um grande exemplo disso são os narcotraficantes e as milícias cariocas. Em seus bairros, essas gangues também comandam, entre outras coisas, o comércio de produtos ilegais ou extorquir pessoas envolvidas nesse comércio. Há até lugares no Rio onde não é possível vender cigarros legais, porque os grupos impõem, por meio da violência, o monopólio da venda das marcas contrabandeadas.
Outras práticas que geram lucro incluem a instalação de ligações ilegais às redes públicas de energia e água, e serviços clandestinos de TV a cabo e internet, os famosos “gatos”. Segundo a empresa de telecomunicações Oi, há pelo menos 105 áreas no Rio onde as quadrilhas têm o monopólio dos serviços de telecomunicações e onde a empresa não pode ir.
Para fechar o ciclo, o crime organizado precisa transformar o dinheiro ilegal em “legal”. Para isso, o grupos começaram a atuar com lavagem de dinheiro usando contas bancárias nos Estados Unidos e na China. E fazem tudo isso com base na renda do contrabando.

TERRORISMO E ATIVIDADES ILEGAIS
Estudos internacionais mostram que o contrabando pode ajudar a financiar organizações terroristas que atuam na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Facções criminosas e organizações terroristas trabalham juntas na logística e distribuição de produtos ilegais. É paga comissão a grupos terroristas, que facilitam, por meio de conhecimento logístico, o transporte de cargas do Brasil para o Oriente Médio e Europa e vice-versa.
Segundo relatório produzido pela consultora de riscos Venessa Neumann, em Lucros de Sangue (NEUMANN, Vanessa. Lucros de Sangue: Como o consumidor financia o terrorismo. São Paulo, SP. Matrix, 2018), estima-se que a tríplice fronteira gere dezenas de bilhões por ano, e parte disso acaba nas mãos de grupos como o Hezbollah, um grupo islâmico xiita.
ROTAS DO CRIME: UMA FRONTEIRA POROSA
Como mencionado anteriormente, o contrabando e a pirataria são as práticas ilegais mais prejudiciais no país. Em 2020, causaram um prejuízo de R$ 260 bilhões, valor que subiu para R$ 290 bilhões no ano seguinte, segundo levantamento da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF)..
O tamanho do Brasil, a extensão e as condições das fronteiras são fatores que facilitam o trabalho dos contrabandistas. Ao todo, no país, são aproximadamente 27,800 Km de fronteira, dos quais 17,000 Km são compartilhados com dez países que possuem fronteiras terrestres com 11 estados da Federação (27% da extensão do país), cada um deles com suas particularidades . Além disso, segundo o relatório de gestão de 2015 da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), no Brasil há um total de 1,720,607 Km de estradas implantadas, mas apenas 213,229 Km (12.4%) são pavimentados.
O país também recebe cargas ilegais por via marítima e muitos portos são utilizados para esse fim. Produtos irregulares, principalmente da China, chegam por via marítima pelos portos de Paranaguá (PR), Itajaí (SC), Itaguaí (RJ) e Santos (SP). Segundo dados divulgados pela ABCF em 2021, 65% desse tipo de carga vendida no Brasil vem da China, principalmente itens que exigem tecnologia na fabricação, como eletroeletrônicos e autopeças.
Paraguai é a principal porta de entrada por terra para mercadorias irregulares no país. Quando se trata de rodovias, a BR-277, que corta o Brasil transversalmente, e a BR-163, que corta longitudinalmente, são as principais. No entanto, todas as outras nações com as quais o Brasil faz fronteira também são utilizadas. O mapa abaixo resume o cenário:


TRILHA DE DESTRUIÇÃO
Nas 588 cidades da fronteira, a taxa de homicídios revela como o contrabando contribui para a escalada da criminalidade e se torna mais violento, pois está associado ao tráfico de drogas e armas. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), o a taxa de homicídios por 100,000 habitantes nessas regiões é várias vezes a média nacional de 22.3 (2021).
Um exemplo é a cidade de Assis Brasil, no Acre, que, em 2018, registrou uma taxa de 109.6 homicídios por 100,000 mil habitantes. Atualmente, esta cidade é a principal rota de entrada de produtos contrabandeados do Peru e da Bolívia.
Além da violência, o relatório do IDESF indica que essa atividade traz sérios problemas econômicos e sociais, como evasão escolar, baixa autoestima da população, corrupção e subdesenvolvimento econômico.
O Mercado Pago não havia executado campanhas de Performance anteriormente nessas plataformas. Alcançar uma campanha de sucesso exigiria esses problemas costumam ser omitidos, até mesmo pela própria população, que acaba aceitando as condições impostas pelos contrabandistas. Isso ocorre porque, em muitas cidades pequenas no interior do Brasil, a passagem de tais mercadorias é a principal atividade econômica. Além disso, o chefe dos grupos criminosos às vezes pode exercer domínio total, entrando na política local e se promovendo como protetor dos cidadãos.
COMBATE A ILEGALIDADES
Especialistas no tema afirmam que uma política eficiente de combate às ilegalidades pode trazer uma série de benefícios à sociedade, entre eles: mais atividade econômica; criação de mais empregos; diminuição do crime organizado; e melhorias nos serviços públicos. No entanto, para o enfrentamento dessa questão, a tradicional ação repressiva do Estado não é suficiente. Exige um esforço conjunto envolvendo políticos, forças de segurança, associações, empresários e toda a sociedade. Medidas para tornar essas práticas ilegais menos rentáveis; mais arriscado de realizar; e com punições mais severas devem ser implementadas.
A luta começa com uma ação que trata do fornecimento de bens ilegais e reequilíbrio tributário. A alta carga tributária do Brasil encarece os produtos legais, desestimula o investimento e abre as portas do país para a ilegalidade. Impostos sobre mercadorias brasileiras são de até 5 vezes o valor dos cobrados sobre os mesmos itens em outros países, especialmente as que fazem fronteira com o território nacional. Por exemplo, a tributação dos cigarros varia de 70% a 90%, enquanto no Paraguai o máximo é de 18%.
Essas atividades criminosas têm caráter internacional, e também se espalham por todo o território nacional. Assim, para os especialistas do Centro de Estudos do Direito Econômico e Social (Cedes), instituto brasileiro de pesquisa, realizarem qualquer estratégia repressiva efetiva contra eles, é preciso ter um sistema integrado – bancos de dados conectados, realizar operações conjuntas, troca de inteligência – com entidades nacionais, estrangeiras e internacionais engajadas nesse esforço. No entanto, mesmo antes disso, autoridades devem definir as atribuições de cada instituição envolvida nessa luta.
Para que essas etapas sejam concluídas, são necessários investimentos contínuos. Também são necessários recursos para contratar mais pessoal e na adoção de técnicas mais eficientes, como IA, drones e operações de inteligência. Esforços contra novas ameaças também são necessários, como o comércio ilegal online, que floresceu durante a pandemia.
As medidas acima podem reduzir um efeito constantemente presente no Brasil: “o cobertor curto”. Em um país continental como este, enquanto as fronteiras são reforçadas em uma região do país, o contrabando migra para outra região menos protegida, e assim por diante.
O caminho para o combate às atividades ilegais vai além da ação policial. É preciso desenvolver políticas públicas para regiões de fronteira, onde os negócios ilegais movimentam a economia e geram “empregos”. Turismo, navegação, comércio exterior, agricultura, pecuária e extração mineral devem ser explorados. Também envolve conscientizar a sociedade sobre os danos causados pelo contrabando à economia e à vida das pessoas, derrubando uma noção percebida de crimes menos ofensivos que algumas das atividades ilegais têm.Combater o comércio ilegal entre as metas prioritárias do Executivo e do Judiciário e decretar punições mais severas também pode ter grande impacto. Para a equipe do Cedes, punições cada vez mais pesadas para quem está no mundo ilegal, principalmente se for constatado que estão envolvidos com organizações criminosas, deve ser um grande golpe para as práticas ilegais.



