RESUMO
O Complexo de Israel é um conjunto de cinco comunidades na Zona Norte do Rio de Janeiro. Estrategicamente localizado perto das principais rodovias, como Avenida Brasil e Linha Vermelha, a área tornou-se um ponto focal de confrontos violentos entre as autoridades policiais e o crime organizado. O Terceiro Comando Puro (TCP), liderado por Peixão, estabeleceu o controle sobre essas favelas, usando símbolos religiosos como a Estrela de Davi e a bandeira de Israel para marcar seu território. Conflitos armados persistentes e operações policiais na região causam grandes interrupções na mobilidade urbana, fechamento de empresas e aumento da insegurança pública.
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Impacto na Segurança Pública
No dia 12 de fevereiro, uma operação para capturar Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, que controla o conjunto de cinco comunidades conhecido como Complexo de Israel – Zona Norte do Rio – causou pânico generalizado. A operação transformou a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, duas das principais vias expressas da cidade, em uma zona de guerra, e congestionou o trânsito entre as Zonas Central e Sul com o restante da Zona Metropolitana, obrigando os motoristas a buscar alternativas muito mais longas e, às vezes, mais arriscadas.

Criminosos atearam fogo em veículos, pilhas de pneus e barricadas, usando-os como barreiras para resistir às forças de segurança. Quatro pessoas ficaram feridas, e um helicóptero da Polícia Militar precisou fazer um pouso de emergência após ser atingido por tiros. Apesar do grande esforço policial, Peixão conseguiu escapar. Esta operação destaca a dificuldade de desmantelar a rede criminosa de Peixão, mas também a fragilidade da malha rodoviária do Rio.
O Complexo de Israel é um grupo de cinco favelas – Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau – controladas por Peixão, um importante traficante de drogas ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP).. A área abriga cerca de 134,000 pessoas. O reduto da gangue de Peixão depende de uma atividade criminosa significativa, principalmente tráfico de drogas. O Complexo de Israel desempenha um papel central na distribuição de substâncias ilícitas, servindo como um ponto-chave para as rotas de tráfico e alimentando a violência mais ampla da cidade.

A operação falhada destaca a imensos desafios enfrentados pelas forças de segurança do Rio para desmantelar organizações criminosas arraigadas. O uso de barricadas e tiros demonstra capacidade da facção de Peixão de perturbar severamente a mobilidade urbana e a ordem pública. O fechamento de importantes vias expressas como a Avenida Brasil e a Linha Vermelha paralisou a infraestrutura do Rio, afetando milhares de pessoas. Apesar do objetivo da operação ser evitar que a violência de gangues aumentasse, a resposta foi amplamente reativa, confiando na força em vez de estratégias baseadas em inteligência. A ausência de investigações sustentadas, de prisões seletivas de líderes importantes e de perturbações financeiras de organizações criminosas evidenciam fraquezas mais amplas nas políticas de segurança pública do Rio. permitindo que esses grupos se reorganizem e mantenham o controle sobre áreas estratégicas.
Impacto na mobilidade urbana
O processo de as consequências destas falhas de segurança vão além dos desafios da aplicação da lei, afetando diretamente a vida diária de milhares de pessoas. Um dos impactos mais significativos é na mobilidade urbana. Não foi a primeira vez que uma operação policial ou briga de gangues no Complexo de Israel levou ao fechamento de grandes corredores rodoviários do Rio de Janeiro. A presença criminosa na área transformou as principais rotas de transporte em zonas de alto risco, com frequentes intervenções policiais e confrontos violentos, interrompendo o trânsito e colocando em risco os passageiros.
Em outubro de 2024, três pessoas foram mortas em diferentes vias expressas – Avenida Brasil, Linha Vermelha e Rodovia Washington Luiz – próximas às favelas do Complexo de Israel. Na época, o secretário Victor dos Santos classificou o ataque como um ato de terrorismo, afirmando que Peixão teria ordenado que seus comparsas atirassem deliberadamente em rodovias, pressionando a polícia a interromper as operações. Desde então, a violência nessas rotas aumentou, com frequentes bloqueios de estradas construídos em resposta a ações policiais, tiroteios e atividades criminosas.

Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, foram 52 tiroteios em 2024 só perto da Avenida Brasil, além de 14 na Linha Amarela e 7 na Linha Vermelha. Em 2025, a situação persiste, com oito confrontos armados já registados na região. Adicionalmente, entre 2024 e o início de 2025, as vias expressas do Rio testemunharam pelo menos 68 ações policiais, 73 tentativas de assalto, 10 homicídios ou tentativas de homicídio, dois confrontos entre facções criminosas, e um caso de sequestro ou cárcere privado.
As forças de segurança fecharam a Avenida Brasil, um dos corredores comerciais mais importantes da cidade, pelo menos três vezes em fevereiro de 2025 sozinho, impactando severamente o transporte e o comércio. Outros fechamentos ocorreram na Linha Amarela e na Linha Vermelha devido a ataques criminosos, incluindo um incidente trágico onde um Degase agente foi morto durante um assalto. Essas interrupções destacam o impacto severo do crime organizado na mobilidade urbana e na segurança pública do Rio.
O territorial o avanço das gangues está cada vez mais próximo das vias expressas da Região Metropolitana do Rio, cercada em grandes extensões por comunidades protegidas por barreiras montadas por criminosos. A Avenida Brasil, a Linha Amarela, a Linha Vermelha e o trecho Niterói-Manilha da BR-101 tornaram-se corredores com saídas perigosas. Levantamento realizado pelo EXTRA mapeou 37 barricadas fixas.
Os bloqueios são um desafio para a população e autoridades. Só na Avenida Brasil, o jornal EXTRA apurou que os acessos às comunidades que ficam às margens da via expressa têm pelo menos 11 barricadas fixas. Elas estão espalhadas pelas favelas de Cinco Bocas, Acari, Nova Holanda e Parque União, entre outras. Os motoristas também podem se deparar com portões e barreiras, sem mencionar os bloqueios mais comuns: pilhas de lixo, móveis velhos e pneus. A Polícia Militar informou que, em 2024, removeu 7,701 toneladas de barricadas e obstáculos. E em 2025, já serão 732.7 toneladas.
Outras questões de segurança rodoviária
Embora as vias expressas urbanas estejam entre as mais afetadas, rodovias que ligam o Rio de Janeiro a outras regiões também enfrentam desafios crescentes de segurança. Essas rotas, cruciais para a logística e o comércio, tornaram-se pontos críticos de crime e violência.
As rodovias que ligam o Rio de Janeiro a outras regiões, como a BR-040 (Rodovia Washington Luís), BR-101, BR-116 (Rodovia Presidente Dutra), BR-493 (Arco Metropolitano) e RJ-106, enfrentam desafios de segurança semelhantes às vias expressas urbanas, com altos níveis de violência. Essas estradas, essenciais para o transporte de mercadorias e a mobilidade da força de trabalho, são frequentemente afetadas por roubos, tiroteios e crime organizado, o que as torna pontos críticos de insegurança. A presença de facções criminosas e milícias ao longo dessas rotas agrava ainda mais os riscos, dificultando os esforços de aplicação da lei.

Um dos problemas mais urgentes nessas rodovias são os tiroteios frequentes entre criminosos e policiais, muitas vezes levando a bloqueios de estradas e congestionamentos de trânsito. Em agosto de 2024, motoristas na BR-101 encontraram três tiroteios separados perto do Shopping São Gonçalo (RJ) na região do Gradim. Em 8 de agosto, o carro de uma empresária foi atingido por tiros depois que seis criminosos armados bloquearam a estrada e dispararam tiros para o ar. O primeiro tiroteio ocorreu quase no mesmo local em 4 de agosto, e apenas dois dias depois, em 6 de agosto, os motoristas tiveram que pegar a direção errada para escapar de um assalto em massa perto do Piscinão de São Gonçalo.
Além disso, assaltos a motoristas e caminhoneiros são comuns, principalmente em trechos isolados, aumentando os custos operacionais das empresas devido ao aumento das despesas com segurança privada e seguros. O roubo de cargas no Rio de Janeiro é altamente concentrado, com 99% dos incidentes ocorrendo na Região Metropolitana. Mais da metade desses crimes ocorreu em apenas 8 dos 137 Distritos Integrados de Segurança Pública (CISPs) do estado, todos localizados perto de grandes rodovias e zonas industriais. CISP 60 – Campos Elíseos, próximo à BR-040, registra o maior número de furtos (350 casos), respondendo por 10% do total do estado em 2024, apesar de uma ligeira redução em relação ao ano anterior. Esses incidentes, embora focados na carga, muitas vezes podem evoluir para um tiroteio e bloquear o tráfego nas estradas.
Evolução da concentração de casos de roubo de cargas – Fonte: Firjan.


Embora a região do Leste Fluminense não esteja entre as áreas mais afetadas, São Gonçalo registrou um aumento significativo nos roubos de cargas, dobrando o número de ocorrências em 2024. Os CISPs de São Gonçalo (72, 73, 74 e 75), próximos à BR-101, registraram 208 casos, sendo que novembro e dezembro sozinhos foram responsáveis por 66% do total do ano.. O aumento no roubo de cargas em 2024 reverteu a tendência de queda vista nos anos anteriores, apresentando desafios ao crescimento econômico. As preocupações com a segurança impactam diretamente as decisões de negócios, pois muitas empresas consideram os custos de segurança e seguro privados, que frequentemente excedem as perdas diretas com roubo.
A atividade criminosa e a agitação social desencadearam uma crise de mobilidade, interrompendo a estabilidade econômica e a vida cotidiana na região. Lidar com essas questões requer intervenções estratégicas para melhorar a segurança pública e garantir um transporte mais tranquilo.
Mitigando interrupções de mobilidade e aumentando a segurança
A crise de segurança que afeta as rodovias e vias expressas do Rio de Janeiro ressalta a necessidade urgente de esforços coordenados para mitigar seu impacto na mobilidade e na segurança pública. A violência persistente no Complexo de Israel, particularmente seus efeitos colaterais em corredores críticos como a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a BR-101, destaca até que ponto o crime organizado pode perturbar a vida urbana e a atividade econômica. Os frequentes tiroteios, bloqueios de estradas e operações policiais em larga escala demonstram os desafios de desmantelar redes criminosas arraigadas e, ao mesmo tempo, garantir que a infraestrutura da cidade permaneça funcional.
Uma empresa que opera nessas circunstâncias deve estar preparada para lidar com os riscos associados. Para abordar essas questões, uma abordagem multifacetada é essencial. Primeiro, classificar as estradas com base nos níveis de risco permitiria que autoridades e empresas priorizassem medidas de segurança onde elas são mais necessárias. CFTV, rastreamento por GPS e monitoramento em tempo real melhoram as respostas de segurança. Em áreas de alto risco, o o uso de veículos blindados deve ser considerado como medida preventiva tanto para indivíduos quanto para empresas que transportam pessoas e cargas valiosas. Além disso, a implementação de Planos de Gestão de Viagens (JMPs) bem estruturados pode ajudar empresas e motoristas a navegar em rotas perigosas com mais segurança, fornecendo estratégias de contingência, rotas alternativas e protocolos de emergência. Igualmente importante é a necessidade de uma cooperação mais forte entre agências de aplicação da lei, autoridades de transporte e governos locais. O compartilhamento aprimorado de inteligência e operações conjuntas podem aprimorar as respostas de segurança, reduzindo a influência de organizações criminosas sobre as principais rodovias. Sem um esforço estratégico e coordenado, o Rio de Janeiro continuará sofrendo com crises de mobilidade que não apenas ameaçam a segurança pública, mas também impõem encargos econômicos significativos. Essas estratégias são cruciais para que o Rio de Janeiro retome o controle sobre suas estradas, aumente a segurança e apoie a recuperação econômica. Sem uma ação urgente, a mobilidade e a segurança pública permanecerão em risco.
Departamento Geral de Ações Sócio Educativas. É um órgão do Governo do Estado do Rio de Janeiro, que executa medidas legais aplicadas a adolescentes em conflito com a lei.



