InícioBRASILO IMPACTO DA VIOLÊNCIA NOS NEGÓCIOS NO BRASIL – PARTE 2

O IMPACTO DA VIOLÊNCIA NOS NEGÓCIOS NO BRASIL – PARTE 2

Na edição deste mês, lançamos a segunda de uma série de duas partes que enfoca o impacto da violência nos negócios no Brasil. Nós abordamos o extra despesas e perdas comumente causadas pela violência; O alienação de investimentos e profissionais qualificados; O custos da violência na América Latina e no Cariben e, particularmente, no Brasil – focando no custos sociais, privados e públicos -, e fecha com o importância de revisar políticas e estratégias de segurança e de proteção planejada.

na primeira parte, foi discutido o caso crítico da distribuidora de energia do Rio – Light -, que pediu concordata após prejuízos bilionários impulsionados pelo crime organizado. O caso serviu como exemplo das consequências causadas por o cenário de violência no país que afeta diretamente sua atratividade para os negócios.

Resumo

O custo dos altos índices de criminalidade no Brasil é significativo, as pessoas mudam de comportamento para evitar crimes, famílias e empresas gastam grandes quantias para proteger se contra o crime, empresas reduzem seus investimentos e incorrem em perdas de produtividade e os governos destinam grande parte de seu orçamento à segurança pública. Compreender o impacto direto e indireto do crime pode permitir que empresas e governo tomem medidas mais eficientes e eficazes para combater a violência, ao mesmo tempo em que permite o crescimento da economia.

Despesas Extras e Perdas

Os negócios que não saem e resistem aos problemas trazidos pela criminalidade têm gastos extras com segurança para evitar riscos e mitigar prejuízos. Em 2018, em plena Intervenção Federal no Rio – quando as forças federais reforçaram a segurança pública local –, o jornal O Globo revelou que a Piraquê, grande empresa do setor alimentício, tinha que gastar R$ 1.5 milhão por ano em segurança para proteger ativos em um centro de distribuição em Madureira, na Zona Norte, e em uma fábrica em Queimados, na Baixada Fluminense.

Nas fábricas localizadas em áreas do Rio de Janeiro diretamente afetadas por operações policiais, foram instalados geradores de energia para evitar a interrupção das atividades por falta de energia durante as operações militares, turnos e horários foram adaptados para encerrar jornada de produção mais cedo, executivos usam uniformes de técnicos ou operários, foram decretadas restrição de circulação de frotas e funcionários em vias de alto risco. A escalada da violência altera a rotina das empresas, resultando em custos extras.

Quando as perdas chegam e não há planos de contenção, o impacto na produtividade é relevante. Nos dias mais críticos das investidas criminosas realizadas no Rio Grande do Norte entre 14 e 24 de março deste ano, indústrias do Rio Grande do Norte perderam 40% do faturamento. Prédios públicos, comércios e veículos foram alvo de tiros e incêndios iniciados por quadrilhas. As perdas estimadas variam entre R$ 10.7 milhões e R$ 25 milhões por dia, segundo a Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern). Das 266 empresas entrevistadas, 27% tiveram que interromper os turnos de trabalho ou paralisar totalmente a produção (21%) por pelo menos um dia.

Os maiores problemas enfrentados foram com a logística (distribuição e recebimento dos fornecedores), o estresse dos trabalhadores e a falta de funcionários que não conseguiam chegar ao trabalho por falta de transporte público.

A levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) proporcionou um cenário mais amplo de perdas. O trabalho mostrou que uma em cada três indústrias brasileiras foi vítima de furto, roubo ou vandalismo em 2016. Os prejuízos com esses crimes, somados aos gastos com seguros e segurança privada, consumiram cerca de R$ 27.1 bilhões de receitas.

Fonte: Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Alienação de Investimentos e Talentos

O crime tem prejudicado a imagem do Brasil no cenário internacional, afastando investidores e turistas e desacelerando o desenvolvimento. Além disso, impulsiona os profissionais brasileiros a buscar melhores oportunidades no exterior ou em cidades menores do interior.

Em 2018, a rede varejista de lojas que trabalham com eletrodomésticos e eletroeletrônicos, Magazine Luiza, tinha 800 lojas em todo o país, mas nenhuma no Rio. Os altos índices de criminalidade estiveram entre os principais fatores para a decisão de se manter distante do segundo maior mercado consumidor do país.

Em 2017, o setor de turismo fluminense perdeu R$ 657 milhões entre janeiro e agosto por causa da criminalidade, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A violência foi responsável por 29% da perda total de receita do setor naquele período de oito meses, que chegou a R$ 2.3 bilhões. O turismo é bastante importante para a economia do estado e na época correspondia a 9% da economia local.

O CNC estimou que, a cada 10% de aumento da criminalidade, a receita bruta das empresas que compõem a atividade turística do Estado cai, em média, 1.8%. O estudo também revelou que a violência na cidade também reduziu a geração de empregos.

De acordo com as uma pesquisa do Banco Mundial que reúnem 1.802 gestores de topo de 2008 a 2009, 12.6% deles apontaram a mão de obra com escolaridade inadequada como seu maior entrave no Brasil. A criminalidade contribui muito nesse sentido ao afastar pessoas educadas dos grandes centros ou mesmo do país. Além disso, a crescente virtualização das atividades cotidianas, inclusive do trabalho, estimulada pela pandemia, acelerou esse processo nos últimos anos.

Dados do Itamaraty revelam que houve aumento de 16% no total de brasileiros no exterior entre 2018 e 2019: de 3.6 milhões para 4.2 milhões. Em uma década, o número aumentou 36%. Outro estudo do Datafolha, de maio de 2022, mostrou que 59% dos cariocas e 55% dos paulistas queriam sair das capitais. O principal motivo para as 644 pessoas do Rio e 840 de São Paulo entrevistadas foi o medo da violência.

Os resultados do Censo 2022 parecem confirmar esse movimento, já que Natal, Belém e Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Rio de Janeiro tiveram reduções populacionais nos últimos 12 anos. Dos mais de 12 milhões de habitantes que o Brasil ganhou entre 2010 e 2022, segundo o Censo, 8.3 milhões (67.5%) estavam em cidades médias, com 100 a 499 mil habitantes.

Custos na América Latina e no Brasil – Governamentais, Sociais e Privados

Mesmo um pouco antigo, um amplo levantamento promovido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2017, com dados de 2014, deu um grande panorama dos custos trazidos pela violência para a América Latina e Caribe (ALC) e o local do Brasil dentro de sua região.

Fonte: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Estimativas gerais revelam que o crime custa, em média, aos países da ALC, 3% do PIB, um custo médio de cerca de US$ 300 per capita. Estes custos repartem-se da seguinte forma: 42% nas despesas públicas (com o sistema judicial, polícia e administração prisional); 37% em gastos privados (despesas de residências e empresas); e 21% sobre os custos sociais do crime (custos de vitimização em termos de perda de qualidade de vida por homicídios e outros crimes violentos e renda não gerada pela população carcerária).

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, 832.295 presos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023. De 2010 a 2014, segundo o BID, o país gastou 0,06% de seu PIB com o sistema prisional. Além disso, a perda de arrecadação por encarceramento é de 0.14% do PIB, portanto, a perda total é de 0.20%. Dados do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que em 2017 o país gastou R$ 15.8 bilhões para custear os sistemas prisionais. Crédito da foto: Agência Brasil/Moretovisky.

Essas estimativas são conservadoras para permitir a comparabilidade entre os países. Eles não incluem custos de programas de prevenção, despesas médicas devido à violência ou o impacto do crime em outros resultados, como preços de imóveis. Mesmo assim, o custo do crime na região é o dobro do custo médio dos países desenvolvidos.

O Brasil é um dos países que apresenta, em termos de valores nominais, os maiores custos do crime. Em 2014, o custo da violência foi de US$ 103,269 milhões em paridade de poder de compra (PPC) para o país. O valor representa 53% do custo total do crime na ALC. Em termos relativos, o crime custa um valor, em média, equivalente a 3.14% do PIB brasileiro, índice um pouco superior à média da região. Estudos anteriores também estimaram os custos do crime no Brasil em 5.1%. Nessas estimativas, o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Daniel Cerqueira também incluiu os custos associados ao sistema de saúde.

Fonte: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O Brasil se destaca pelos altos gastos com segurança privada, o que pode ser entendido como um indicativo do sentimento da população em relação ao serviço de segurança prestado pelo governo. Em 2014, 48% do custo total do crime recaiu sobre os gastos privados com segurança, sendo muito superior à média da ALC (43%). A despesa pública é a segunda maior componente (36% dos custos do crime). Os custos sociais do Brasil (16%) representam uma parcela comparável à da ALC e do Cone Sul (17.5% e 15.2%, respectivamente).

Fonte: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A Importância do Custo-Benefício: Revisão de Políticas/Estratégias e Proteção Planejada

O dinheiro privado gasto em proteção extra representa o desvio de capital para áreas que geralmente não são o core business. O dinheiro do Estado gasto em segurança representa recursos fundamentais dados a uma área em detrimento de outra. Isso significa, por exemplo, que, em vez de gastar mais para resolver os problemas de infraestrutura do país e oferecer melhores condições para investimentos, o governo deve gastar bilhões em segurança para conter as quadrilhas.

Portanto, se esses custos com proteção pudessem ser removidos ou reduzidos, corporações, cidadãos e governos ganhariam. No entanto, como o crime não vai desaparecer magicamente, segurança sempre vai precisar de atenção e recursos. Portanto, o ponto é como gastá-lo corretamente: soluções eficazes e eficientes.

Esse fato foi trazido pela pesquisa do BID, que apontou que é necessário estudar não apenas os custos, mas também a relação custo-benefício das estratégias de prevenção e controle do crime. Os pesquisadores afirmaram que, como alguns estados e regiões brasileiras experimentaram uma melhora nos gastos com segurança em porcentagens menores de seu PIB, ficou clara a importância de rever essas intervenções para extrair lições aprendidas para aplicação em outros lugares.

Com base nos princípios acima, o governo e a iniciativa privada devem agir, cada um em seu escopo específico. Quanto mais tarde, de acordo com especialistas, deve rever políticas e estratégias – particularmente aquelas de alto custo: a “Guerra às Drogas”, encarceramento em massa, buscam melhorar a certeza da punição ao invés da severidade.

De alguma forma, isso já está sendo feito por algumas forças. Por exemplo, a Polícia Federal (PF) entendeu a importância de rastrear as ligações entre as quadrilhas do crime organizado e o capital que lavam, que parece causar um impacto muito mais significativo do que pequenas convulsões pontuais.

A Polícia Federal vem tentando atingir com mais força os grupos do crime organizado, visando os bens de alto valor da quadrilha, como carros de luxo, imóveis e outros métodos usados ​​para lavagem de dinheiro. Recentemente, em São Paulo, foram apreendidos 51 carros de luxo que seriam do PCC. Vários deles valem mais de R$ 2 milhões. Crédito da foto: O supermat.

Por sua vez, empresas que estão no país; ou quem quiser vir, deve entender as particularidades do Brasil e como seus negócios podem ser afetados. Procurar consultorias como a INTERLIRA é o primeiro passo para desenvolver conteúdo de inteligência para que a empresa possa amadurecer decisões de investimentos, desenvolver procedimentos operacionais padrão (SOP), políticas de viagens, planos de continuidade etc.

Finalmente, a coordenação entre as duas partes poderia ser melhorada. As empresas privadas e o governo devem dialogar constantemente e ver como contribuir para o bem-estar geral da sociedade. Nesse sentido, um erro comum é a falha da empresa em negociar compensações com o governo ao planejar novos empreendimentos. Por exemplo, áreas rurais e isoladas costumam lucrar com investimentos em infraestrutura e segurança pública, o que pode reduzir custos para um projeto futuro, mas as empresas só percebem isso depois que o investimento é feito e há pouca vontade política das autoridades locais para desenvolver a área. Aqui, a consultoria especializada em riscos também pode auxiliar as empresas a se relacionarem com as autoridades para organizar a proteção de seus investimentos.

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