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A ONDA DE ATAQUES NAS ESCOLAS BRASILEIRAS

Resumo

Houve recente aumento da violência em instituições de ensino em todo o país. Os incidentes têm muitos fatores por trás, como conteúdo violento nas mídias sociais, vulnerabilidade dos jovens a extremismos, exposição a detalhes de massacres e muito mais. Além disso, especialistas indicam que a pandemia, o consequente fechamento das escolas e a transferência das aulas para o ambiente online por um longo período levaram cada vez mais jovens a ações violentas. Os meios de comunicação tomaram medidas para evitar o “Efeito Contágio” e os governos estão agora tentando encontrar uma solução o mais rápido possível. No entanto, o caminho para este objetivo não parece ser simples, pois nem todas as soluções podem compensar, podendo até prejudicar mais do que ajudar.

A violência nas escolas brasileiras aumenta

No dia 5 de abril, um homem de 25 anos pulou o muro de uma creche com uma machadinha e matou quatro crianças entre 5 e 7 anos, ferindo outras cinco. Em seguida, ele conseguiu fugir e se entregou à polícia. O fato, ocorrido na cidade de Blumenau, em Santa Catarina, na Região Sul do Brasil, não foi o último nem o primeiro, mas fez parte de uma sequência de ataques perpetrados contra instituições de ensino em todo o país.

Um pouco antes, no dia 27 de março, ocorreu outro atentado em uma escola, desta vez em São Paulo. Uma aluna da escola estadual Thomazia Montoro entrou na instituição com uma faca e uma máscara de caveira. Ele matou seu professor e feriu mais três professores e dois alunos. O agressor foi posteriormente detido pelas vítimas e preso pela polícia.

Nos últimos meses, tais eventos proliferaram rapidamente em todo o Brasil, onde a frequência desse tipo de ação aumentou significativamente. Desde 2002, o país teve 22 ataques de extrema violência em escolas, segundo levantamento da pesquisadora Michele Prado, da Universidade Estadual Paulista (USP).

O número, que pode não parecer tão alto, principalmente quando comparado a outras nações, é alarmante no contexto local pela velocidade com que os casos vêm aparecendo. De fevereiro de 2022 a março de 2023, ocorreram 11 ataques, 10 dos quais bem-sucedidos. Se forem considerados os novos incidentes ocorridos em abril, o total de ataques em escolas no Brasil registrados apenas em 2022 e 2023 já supera o total dos 20 anos anteriores.

Outra pesquisa de pesquisadores da Unicamp chegou a resultados semelhantes. Neste caso, foram considerados apenas os casos envolvendo alunos e ex-alunos. O trabalho foi promovido pela professora Telma Vinha, que registrou 22 ataques entre 2002 e 2023, 10 deles nos últimos dois anos.

Outros ataques relatados entre março e abril

  • No dia 28 de março, um estudante de 15 anos foi apreendido após tentar esfaquear os colegas da Escola Municipal Manoel Cícero, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele foi a única pessoa ferida.
  • No dia 10 de abril, um aluno de 14 anos entrou em sua escola, um Centro Educacional Unificado (CEU) em Perus, Zona Norte de São Paulo, SP, portando facas, uma pistola falsa e usando máscara. Ele foi detido pelos funcionários da instituição e não conseguiu fazer mal a ninguém.
  • No dia 10 de abril, um aluno do Instituto Adventista de Manaus (IAM), uma escola particular, esfaqueou e feriu um professor e dois colegas.
  • No dia 11 de abril, em uma escola de Santa Tereza de Goiás, Goiás, um aluno de 13 anos esfaqueou três colegas, sendo posteriormente detido por um zelador.
  • No dia 26 de abril, um homem não identificado portando um facão invadiu uma creche dentro do Centro Municipal de Educação Mario Quintana (CEMEI), em Osasco, região metropolitana de São Paulo. Ele foi rapidamente detido por um motorista de ônibus escolar que estava por perto.

Ameaças e Pânico

Após os ataques perpetrados entre março e abril, muitas ameaças de novos massacres foram feitas, espalhando pânico entre alunos, professores, pais e autoridades. As denúncias registradas por telefones de denúncias de crimes e ferramentas baseadas na web implementadas pelos governos municipal, estadual e federal em todo o país dispararam. Além disso, os alunos e suas famílias, temendo o pior, começaram a faltar às aulas; escolas e até universidades começaram a debater se deveria abrir ou ficar fechado.

As Canal Escola Seguro (Canal de Denúncias Escola Segura) – ferramenta para envio de denúncias sobre possíveis ataques implementada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 7 de abril – recebeu um total de 8,513 denúncias via internet entre sua inauguração e 24 de abril. Ondas de rumores estimuladas por grupos extremistas em redes sociais e fóruns estão por trás disso, segundo fontes da mídia. O pico ocorreu nos dias 10, 11 e 12 de abril, quando se registou o maior número de reclamações diárias, respetivamente 1,346; 1,836; e 1,798.

Número de reclamações feitas ao número de emergência do projeto Escola Segura. Logo após a sua criação, na sequência de um ataque a uma creche, registou-se uma grande onda de reclamações. Os resultados são provavelmente consequência de denúncias falsas, mas também do efeito de contágio, que estabelece que um ato de violência estimula outro.

Onda de boatos espalhados online anunciaram ataques em dias diferentes. Muitos foram seguidos por mensagens elogiando personalidades de extrema-direita, como Adolf Hitler. Uma data que gerou muita preocupação foi o dia 20 de abril, aniversário do líder nazista, e data do massacre de Columbine (EUA).. Neste dia, o projeto Escola Segura recebeu 248 links para informar sobre ameaças de ataques, o maior resultado após o período de 10 a 12 de abril.

Após o caso Thomazia Montoro, autoridades paulistas perceberam que o caso poderia inspirar novas ondas de agressões ou pelo menos ameaças. Na data do ataque e nos quatro dias seguintes, a Polícia Civil recebeu 279 denúncias de ameaças ou suspeitas de planos de novos ataques registradas em canais próprios. Este total representa um aumento repentino nos números. Em comparação, de janeiro a 26 de março, foram registradas 82 ameaças do mesmo tipo.

As ameaças de ataque mudaram a rotina das escolas em todo o país. Os professores relataram a fontes da mídia que começaram a encontrar alunos chorando, pais pegando seus filhos na escola antes do horário. Enquanto isso, as unidades suspenderam testes e atividades ao ar livre por medo de serem alvo de ataques. Por exemplo, no dia 20 de abril, os jornais noticiaram que muitas escolas, universidades e creches tiveram uma redução significativa no número de alunos que frequentavam as aulas naquele dia. Alguns decidiram manter as aulas, mas outros tiveram apenas aulas online ou suspenderam todas.

Aparentemente, a onda de ameaças começou a diminuir com o andamento da Operação Escola Segura, lançada em 6 de abril para impedir ataques a instituições de ensino. A resposta das autoridades resultou em 358 buscas e apreensões com 356 prisões de adultos e apreensões de suspeitos menores de idade até 1º de maio, segundo o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino. 1,574 suspeitos também foram conduzidos às delegacias para prestar depoimento. A ação teve abrangência nacional e contou com a participação de policiais de vários estados. Os resultados foram possíveis, em geral, devido ao monitoramento das redes sociais. Este trabalho resultou na remoção ou preservação de conteúdo para investigação de 812 perfis em redes sociais identificados como ameaças às escolas.

Causas que Contribuem para a Violência

Especialistas de diversas áreas ouvidos pela BBC Brasil apontam um conjunto de causas para o aumento do número de ataques em escolas. Alguns dos principais fatores mencionados são: conteúdo nas redes sociais que incentivam a violência; o bullying; exposto a detalhes de massacres e idolatria dos perpetradores; cultura de armas; vulnerabilidade dos jovens a extremismos, Entre outros.

Artefatos nazistas encontrados na casa de um adolescente em Maquiné, no Rio Grande do Sul. Crédito da foto: Polícia Civil.

Para a Socióloga Carolina Ricardo, a mídia social tornou-se parte integrante da sociabilidade dos adolescentes, ao mesmo tempo, eles ampliaram o espectro de potenciais indivíduos e ideias com os quais alguém poderia ter contato, incluindo violentos e extremistas. Eles podem ser compartilhados por meio de textos, fotos e vídeos contendo detalhes de massacres, que às vezes elogiam e celebram seus perpetradores. Isso pode ter um duplo efeito: servir de referência de como realizar um ataque e servir de inspiração, pois glorifica os agressores. Além disso, os conteúdos frequentemente circulam livremente e não encontram nenhum tipo de censura.

Quando as pessoas são vítimas de bullying ou tratadas como párias, os efeitos de entrar em contato com conteúdo extremista podem ser multiplicados. Isto é particularmente verdadeiro para os jovens. Para a psiquiatra Danielle Admoni, a suscetibilidade exacerbada dos adolescentes a ideias extremistas acrescenta outro elemento de risco. Admoni explica que os adolescentes não têm todos os circuitos cerebrais formados nem a experiência que os adultos têm. No entanto, muitas vezes são compelidos a se identificar com um grupo.

A influência de ideias extremistas publicadas na internet foi constatada sem muito esforço pela Polícia. Além dos dados descobertos em computadores e telefones, em muitos ataques, os perpetradores usavam algum tipo de referência nazista, como braçadeiras com a suástica. Outros objetos que eles usavam são máscaras de caveiras ou palhaços. Também havia itens nas casas dos agressores, como bandeiras e o livro escrito por Adolf Hitler, “Mein Kampf".

Embora muitos ataques sejam perpetrados com facas ou outras armas brancas, muitos dos mais mortais envolvem armas de fogo. Por isso, a cultura das armas de fogo e o acesso recentemente facilitado a elas são elementos importantes desse tipo de violência, segundo Carolina Ricardo.

A deep web é feita de conteúdo não indexado. Para acessá-lo, os usuários devem recorrer a navegadores especiais. Fonte: Ranjithsiji.

O grupo de estudos coordenado pelo professor Vinha esclarece que o elemento responsável por recentemente levar cada vez mais jovens à prática de actos de violência foi a pandemia, o consequente encerramento de escolas, e a transferência das aulas para o ambiente online. Com o agravamento dos problemas psicológicos do isolamento, o tempo online dos alunos aumentou, portanto, a chance de entrar em fóruns virtuais que propagam discursos de ódio – nazista, neonazista, racista, misógino –, e a chamada deep web – internet não indexada – cresceu. No entanto, ao mesmo tempo, tais conteúdos estão cada vez mais na superfície digital, ou seja, usando redes legais e difundidas, como Instagram, TikTok, WhatsApp, Twitter, Telegram e Discord.

Mudança nas políticas de mídia

A sequência de ataques levou os meios de comunicação a repensar a forma como produzem conteúdos sobre o tema. Os principais jornais brasileiros decidiram não divulgar os nomes, fotos e vídeos dos criminosos. A decisão é baseada em um efeito estudado nos EUA, o “Efeito Contágio”, segundo o qual os massacres do passado inspiram os do futuro. Essas políticas têm precedentes, por exemplo, casos de suicídio e sequestro geralmente não são relatados.

Pesquisas indicam que a notoriedade dada aos criminosos responsáveis ​​por essas tragédias é um fator motivacional para que outros potenciais atacantes sigam o mesmo caminho, alcançando assim uma espécie de fama que dificilmente teriam na vida. Verificou-se que nos fóruns eles competem para ver quem recebe mais atenção da mídia. Nos Estados Unidos, grupos como “Sem notoriedadeeNão os nomeie”, faz campanha para que os jornais não divulguem detalhes sobre os assassinos.

As autoridades também perceberam o importante papel das redes sociais nesta crise, assim, começaram a preparar um conjunto de regras para regulá-las. O Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou nesta quarta-feira (12/04) portaria para regulamentar a atuação das plataformas de redes sociais em relação à veiculação de conteúdo violento nesses ambientes. O objetivo é estabelecer diretrizes para que as empresas sofram sanções, inclusive suspensão das atividades, caso não atuem no combate à disseminação de conteúdo odioso.

As empresas que resistiram às medidas do governo foram Telegram e Twitter. O primeiro foi multado e suspenso por um período, o segundo, depois de algum tempo, cumpriu as normas estabelecidas.

Solução: Prevenção, não Trauma

No terceiro tópico deste texto, ao abordar as causas que contribuem para a violência nas escolas, uma delas foi intencionalmente deixada de lado, a falta de apoio. As escolas brasileiras não estão acostumadas a lidar com esse fenômeno, e poucas são as que têm planos de resposta. Por exemplo, apenas 6.5% das 137,828 escolas públicas de educação básica do país têm psicólogos e apenas 3.7% têm assistentes sociais, segundo relatório do Congresso feito em 2022.

A sequência de incidentes promovida uma corrida repentina de instituições de ensino públicas e privadas em busca de protocolos e outras ações de saúde mental e prevenção da violência. Alguns foram atrás de programas socioemocionais desenvolvidos por grupos privados. O Congresso anunciou uma medida para contratar psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de ensino, e muitos contrataram profissionais para fazer apresentações sobre como reagir durante um ataque.

Porém, especialistas alertam que algumas soluções são extremas e podem não valer a pena, devido aos efeitos colaterais diante de uma ameaça que, mesmo sendo terrível, não representa grande parte dos casos de violência no país.. Assim, usá-los como padrão para milhares de escolas pode ter efeitos terríveis, impactando milhões de alunos e funcionários.

Exercícios de tiro ativo é um exemplo do exterior que mostra como uma medida pode ser negativa. Segundo a ONG “Everytown para segurança de armas”, a maior organização de prevenção de violência armada nos EUA, “alunos, educadores e funcionários experimentaram sofrimento e, às vezes, traumas duradouros” como resultado de tais exercícios. Para a ONG, as consequências não são justificáveis; até porque esses treinamentos não têm sua eficácia comprovada e apenas 0.2% das mortes por armas de fogo ao ano ocorrem dentro das escolas.

Em artigo publicado pela Folha de SP, Ivan Marques, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que O Brasil está no mesmo cenário. Na maior nação da América do Sul, esse tipo de violência é bastante raro, por isso não vale a pena seguir táticas que traumatizam e não são comprovadas.

Outras táticas são criticadas por especialistas, principalmente aquelas que “militarizam” as escolas. Eles afirmam que as abordagens que contratam patrulhas armadas, instalam detectores de metal e até permitem que os funcionários carreguem armas para autodefesa são extremas e podem deixar alunos e funcionários desconfortáveis ​​e estressados ​​em um ambiente de aprendizado, onde esse nunca deveria ser o padrão.

A ONG americana defende que a avaliação comportamental de ameaças (BTA) é uma solução melhor, pois não cria tais situações e, além disso, é uma estratégia preventiva, não responsiva, como os drills, muitas vezes baseada em ideias como “ correr, se esconder, lutar”.

A pesquisa “Mass Attacks in Public Spaces: 2016-2020”, do Serviço Secreto dos Estados Unidos e do Departamento de Segurança Interna dos EUA, publicada em janeiro de 2023, informa que o BTA é baseado na coleta e análise de “informações sobre comportamentos e comunicações de diversas fontes em toda a comunidade.” Os profissionais avaliam “cada situação conforme ela surge” e aplicam uma abordagem adequada para gerenciar o risco. “Esse modelo geralmente inclui o envolvimento de familiares e amigos, serviços sociais, profissionais de saúde mental, organizações religiosas e policiais, quando apropriado”. Ao unir todas essas partes interessadas, o modelo busca corroborar “informações de sistemas comunitários formais e informais para determinar se um indivíduo representa um risco de violência”.

Segundo a ONG Everytown, o sistema já está em uso em 9 estados dos EUA, incluindo Washington, Pensilvânia, Maryland, Flórida e Texas. O Diretrizes Abrangentes de Avaliação de Ameaças ao Aluno (CSTAG) é um programa modelo que recomenda uma abordagem para a prevenção da violência que enfatiza a atenção precoce a problemas como bullying, provocações e outras formas de conflito estudantil antes que se transformem em comportamento violento. Estudos revelaram “que as escolas que usaram programas de avaliação de ameaças veem apenas 0.5 a 3.5 por cento dos alunos realizando uma ameaça de violência ou tentando, com nenhuma das ameaças realizadas sendo ameaças graves de matar, atirar ou ferir gravemente alguém”.

Além das medidas já mencionadas, o Governo Federal também implementou as seguintes:

  • Criação de um grupo interministerial para debater o tema e encontrar soluções
  • O grupo apresentará um relatório para apoiar uma política nacional de combate à violência
  • R$ 150 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) para reforçar o patrulhamento escolar
  • Mais 40 policiais serão dedicados a monitorar ameaças online de ataques
  • Fortalecimento do Programa Saúde Escolar
  • Campanha para desencorajar atos de violência
  • Capacitar funcionários da escola para mediar conflitos
  • Criação de protocolo para evitar casos de violência
  • plano de ensino integral

No Brasil, as medidas ainda estão em desenvolvimento e sendo adotadas. No entanto, os esforços parecem ser descoordenados e em muitas direções. Enquanto o Governo Federal tenta regulamentar o ambiente online e reunir conteúdo para criar uma política nacional, algumas prefeituras e estados têm escolhido táticas mais responsivas, como guardas armados patrulhando escolas. Por exemplo, essa medida foi adotada por Minas Gerais e Santa Catarina, e pela cidade de São Bernardo do Campo. Os resultados serão vistos.

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No que diz respeito à avaliação de ameaças comportamentais, a INTERLIRA pode ajudar as escolas na implementação do programa e na investigação de comportamentos preocupantes.

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