RESUMO
Plataformas online e comunidades digitais privadas se tornaram ferramentas centrais para planejar, promover e celebrar atos violentos. De tiroteios em escolas a ataques motivados por ódio, muitos crimes agora se originam ou ganham força em espaços digitais. No Brasil e no exterior, grupos extremistas usam plataformas como o Discord para se organizar secretamente, recrutar seguidores e espalhar ideologias prejudiciais. O aumento de ameaças online, discurso de ódio e glorificação da violência representam desafios urgentes para governos, sociedade em geral e empresas de tecnologia.
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Conheça
Entre 2021 e 2025, as ameaças online direcionadas a escolas no Brasil aumentaram 360%, transformando plataformas digitais em poderosos catalisadores de violência. O que antes exigia proximidade física ou planejamento isolado agora se desenvolve por meio de mídias sociais, aplicativos de mensagens e fóruns, onde discurso de ódio e incitação são rapidamente disseminados. Essas plataformas não são apenas canais para ameaças, elas se tornaram arenas onde a violência é transmitida, celebrada e monetizada.
Essa transformação gerou um aumento de alertas além das escolas. Em São Paulo, por exemplo, as autoridades reforçaram a segurança após uma onda de ataques a ônibus públicos atingir a capital, sua região metropolitana e o litoral. Embora 180 denúncias tenham sido registradas, relatos sugerem que mais de 300 alertas foram recebidos e verificados, muitos deles vinculados a "desafios" virais online. Cerca de 60% ocorreram na zona sul, principalmente em grandes avenidas como Cupecê e Washington Luís, próximas ao Aeroporto de Congonhas.

A internet está se tornando um vetor de propagação de riscos no mundo real. Indivíduos e grupos extremistas exploram seu anonimato e conseguem recrutar, radicalizar e organizar ataques físicos. A convergência entre ódio digital e violência física exige atenção urgente. Essas ameaças não conhecem fronteiras nem alvos fixos — espaços públicos, escolas, sistemas de trânsito, shows — todos são vulneráveis e exigem mais recursos para verificação.
Ameaças nas Escolas
As ameaças às escolas brasileiras aumentaram significativamente nos últimos anos, gerando preocupação nacional. Um caso notável ocorreu em 17 de dezembro de 2024, quando um estudante de 19 anos abriu fogo dentro de uma escola pública em Natal, ferindo um colega. O agressor foi preso no local, e o incidente evidenciou a crescente vulnerabilidade das instituições de ensino.
Segundo o estudo Ataques de Violência Extrema em Escolas no Brasil, das pesquisadoras Telma Vinhas e Cléo Garcia, 64% dos 42 ataques registrados desde 2001 ocorreram após março de 2022. O aumento de incidentes foi particularmente acentuado: 10 casos em 2022, 12 em 2023 e cinco em 2024. Embora o número de ataques concluídos tenha diminuído em 2024, muitas ameaças foram evitadas.

Ainda de acordo com o estudo, a maioria dos ataques (79%) foram de natureza “ativa”, o que significa que tiveram como alvo o maior número possível de vítimas. Os 21% restantes foram direcionados a indivíduos específicos. São Paulo registrou o maior número de ocorrências (10), seguido por Rio de Janeiro e Bahia (cinco cada), com um total de 17 estados afetados em todo o Brasil.
Quase 95% das 38 mortes registradas, excluindo suicídios de perpetradores, envolveram armas de fogo. A maioria dos ataques foi perpetrada por alunos atuais ou antigos, e quase 80% dos agressores tinham menos de 18 anos. Apenas um dos 45 perpetradores identificados era mulher. Notavelmente, mais de 80% desses ataques ocorreram em escolas que atendiam alunos de origens socioeconômicas médias ou altas.
Estes crimes são frequentemente motivados, no todo ou em parte, pela hostilidade ou preconceito em relação à pertença real ou percebida de uma pessoa a um determinado grupo social ou característica. e são frequentemente classificados como crimes de ódio ou vingança.
Um desenvolvimento importante é o papel das plataformas online no incentivo e na organização da violência. O tiroteio de Sapopemba em São Paulo em 2023 foi planejado via Discord, mostrando como comunidades virtuais podem ajudar a facilitar ataques no mundo real — destacando como a internet se tornou uma ameaça crítica à segurança escolar.
O Ambiente Online como Vetor de Propagação de Risco
Embora o Brasil tenha visto uma redução nos ataques às escolas, o espaço digital se tornou uma arena cada vez mais volátil para ameaças, discurso de ódio e incitação à violência. Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Timelens “Aspectos da violência nas escolas analisados a partir do mundo digital” revela um aumento de 360% nas postagens que ameaçam escolas entre 2021 e 2025. Apesar da queda nos comportamentos de atuação — de 15 incidentes em 2023 para cinco em 2024 —, o conteúdo online relacionado à violência escolar continua a aumentar, impulsionado pela radicalização e pela normalização do ódio.
Essa tendência não se limita às escolas. Plataformas online agora servem como incubadoras globais para grupos extremistas e disseminação de ódio. No Rio Grande do Sul, a Polícia Federal indiciou um homem por promover o terrorismo após compartilhar conteúdo de apoio à Al-Qaeda e ao ISIS e pesquisar dispositivos explosivos. Em São Paulo, adolescentes foram presos por planejarem agressões a moradores de rua e animais. No Paraná, forças de segurança apreenderam uma adolescente de 14 anos ligada a um grupo que transmitiu ao vivo a agressão a um morador de rua. O grupo, liderado por um jovem de 25 anos, envolvia milhares de menores, organizava "eventos" pagos e recompensava comportamentos violentos.
Os desafios online também representam uma séria ameaça às crianças, às vezes com consequências fatais. Em abril, uma menina em Ceilândia (Distrito Federal) morreu após participar de um desafio do Kwai por inalar desodorante aerossol.

O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mencionado acima, também analisou mais de 1.2 milhão de postagens, 50 comunidades do Discord e mais de 46 milhões de buscas no Google. Notavelmente, o conteúdo de ódio está migrando da deep web para as plataformas tradicionais: em 2023, 90% do conteúdo relacionado ao ódio estava hospedado na deep web; em 2025, esse número caiu para 78%. A pesquisadora Manoela Miklos aponta como a reação contra desafios sociais, como a igualdade de gênero, intensificou a radicalização nas câmaras de eco digitais.
Um exemplo recente dessa ameaça em evolução ocorreu no Rio de Janeiro. Em maio de 2025, a polícia frustrou um atentado com bomba contra a comunidade LGBTQIA+ durante o show de Lady Gaga na praia de Copacabana. O plano, como outros anteriores, foi organizado no Discord — a plataforma que se tornou central para muitas dessas ameaças. Para entender melhor como as plataformas digitais contribuem para essa tendência, é importante analisar por que o Discord, em particular, se tornou uma ferramenta tão poderosa para grupos extremistas.
O que torna o Discord um problema
Conteúdo extremista online não é exclusivo do Discord, nem se originou lá. Plataformas como Orkut, TikTok e outras são usadas há muito tempo para disseminar ideologias radicais. No entanto, O Discord — lançado em 2015 como uma ferramenta de comunicação para jogadores — tem recursos específicos que o tornam particularmente atraente para grupos extremistas.
Uma característica fundamental é sua ênfase em comunidades fechadas, conhecidas como “servidores”. Ao contrário de plataformas abertas projetadas para ampla visibilidade, o Discord incentiva a interação em grupo privado. Segundo João Victor Ferreira, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), O recrutamento extremista geralmente começa em plataformas públicas e depois transita para o Discord, onde sua estrutura de servidor fechado permite que conteúdo radical circule livremente e sem controle.
Outro problema é a supervisão limitada de conteúdo. A plataforma permite que os usuários criem seus próprios servidores e convidem outros para participar. A moderação é descentralizada e muitas vezes realizada pelos mesmos indivíduos que espalham conteúdo prejudicial. Como observa a pesquisadora Tatiana Azevedo, isso se torna uma grande vulnerabilidade, tornando quase impossível conter comportamentos perigosos.

As raízes do Discord na cultura gamer — onde valores libertários e resistência à autoridade são comuns — também contribuem para um ambiente de rejeição à regulamentação. Essa cultura pode minar ainda mais o apoio às políticas de moderação.
O Discord oferece um ambiente onde o comportamento antissocial pode crescer além de qualquer controle. Isso levanta um debate mais amplo: até que ponto as plataformas digitais devem ser responsabilizadas pelo conteúdo que permitem? No Brasil, esse debate ganhou força jurídica, à medida que os tribunais começam a reavaliar as responsabilidades das plataformas online.
Responsabilidade das Redes Sociais
O Supremo Tribunal Federal (STF) recentemente obteve maioria no voto favorável à responsabilização das plataformas de mídia social por conteúdo nocivo publicado por seus usuários. Embora os detalhes finais ainda estejam em discussão, a decisão pode marcar uma mudança significativa na forma como as plataformas digitais devem controlar e responder a postagens abusivas ou ilegais.
No centro do debate estão dois casos judiciais que questionam se as redes sociais podem ser condenadas a pagar indenização por danos morais causados por conteúdo gerado por usuários — mesmo na ausência de uma ordem judicial anterior exigindo a remoção desse conteúdo. Esses casos envolvem a interpretação do Marco Civil da Internet, uma lei histórica de 2014 que define os direitos dos usuários e as responsabilidades das plataformas no Brasil.

Atualmente, a lei determina que as plataformas só são responsáveis caso não removam material prejudicial após receberem uma ordem judicial específica, portanto, elas não são obrigadas a moderar o conteúdo gerado pelos usuários. A decisão do Supremo Tribunal desafia esse padrão, sugerindo que as plataformas podem ser responsabilizadas mesmo antes da notificação judicial, especialmente em casos que envolvam discurso de ódio, desinformação ou violações de direitos individuais.
Este desenvolvimento legal no Brasil reflete discussões globais mais amplas sobre como as plataformas digitais devem ser regulamentadas, especialmente quando o conteúdo online prejudicial tem consequências no mundo real.
Casos Internacionais
A violência escolar e a radicalização online não se limitam ao Brasil. Casos internacionais recentes ilustram a natureza global da ameaça e o papel crescente das plataformas digitais na facilitação de ações extremistas.
Em 17 de junho de 2025, a polícia de Hamburgo, na Alemanha, prendeu um homem de 20 anos “fortemente suspeito” de ter cometido mais de 120 crimes entre 2021 e 2023, “particularmente aqueles dirigidos contra a vida, a integridade física e a autodeterminação sexual”. em detrimento de um total de oito vítimas, crianças ou adolescentes”. Ele foi identificado como líder do “764”, um grupo de ódio online transnacional com membros na Alemanha, Estados Unidos e CanadáDe acordo com o Centro de Observação e Análise Digital (Noad), em São Paulo, o grupo influencia pelo menos duas comunidades de ódio ativas no Brasil. Autoridades brasileiras investigam grupos relacionados por planejarem ataques a moradores de rua e promoverem exploração sexual infantil, crueldade contra animais e a ideologia nazista.
Outro caso ocorreu em Áustria, em 10 de junho de 2025, quando um tiroteio em massa em uma escola de ensino médio em Graz deixou 11 mortos e 11 feridos. O assassino austríaco de 21 anos passava grande parte do seu tempo livre jogando o que foi descrito pela polícia como videogames online de "tiro ao ego"., em que os participantes normalmente usam armas de fogo virtuais para matar inimigos. A polícia disse acreditar que a comunidade online de jogadores formou seus principais contatos sociais e que, de resto, ele era um indivíduo solitário e reservado. Esses incidentes refletem um padrão mais amplo: atos violentos cada vez mais enraizados no extremismo online e envolvendo jovens perpetradoresA estrutura transnacional de algumas redes também complica o monitoramento e a aplicação da lei, exigindo maior cooperação internacional. Como mostram esses exemplos, o cenário de ameaças está evoluindo rapidamente e lidar com isso requer prevenção especificamente por meio de educação, soluções robustas de monitoramento de rede e responsabilização de plataformas digitais.



