Em meio à renovada diplomacia internacional e à turbulência política interna, o cenário político do Brasil entrou em uma semana de fortes contrastes. A conversa direta do presidente Lula com o presidente dos EUA, Donald Trump, marcou uma reaproximação geopolítica inesperada, mesmo com seu governo enfrentando um revés no Congresso sobre medidas tributárias. Em casa, Aprovação de Lula melhora, enquanto tensões com o Centrão ressurgem com demissões e derrotas legislativas. A semana também encerrou com um momento simbólico no Judiciário: a aposentadoria do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, encerrando uma década marcada pelo confronto institucional e pela defesa democrática.
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Conversa com Trump
O café mais caro dos Estados Unidos foi um dos principais assuntos da conversa de segunda-feira (06/10) entre o presidente Lula (PT) e o presidente americano Donald Trump. O diálogo marcou um passo significativo na reaproximação entre os dois líderes, que começou em setembro com uma troca informal na Assembleia Geral da ONU em Nova York. Segundo a BBC News Brasil, Trump reconheceu que os EUA estão “perdendo” vários produtos brasileiros afetados pela tarifa de 50% imposta por seu governo sobre muitas exportações brasileiras — citando especificamente o café como exemplo.
Golpe no bolsonarismo
A ligação entre Lula e Trump representou um revés político para a oposição de direita no Brasil, já abalada pelas perspectivas incertas para as eleições de 2026. Enquanto o governo Lula recupera a aprovação e impulsiona medidas populares como a ampliação da faixa de isenção do imposto de renda, o A oposição permanece dividida, já que o nome para substituir o ex-presidente Jair Bolsonaro ainda não foi confirmado. O tom cordial entre Lula e Trump, incluindo as discussões sobre um futuro encontro presencial, foi visto como politicamente prejudicial à campanha de Bolsonaro, particularmente ao seu filho Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Aliados do governo aproveitaram o episódio para enfraquecer a narrativa bolsonarista, enquanto os apoiadores de Bolsonaro tentaram minimizar sua importância.
Melhoria na Aprovação
Uma nova pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira (08/10) mostra que a aprovação de Lula está se recuperando e quase igualando a desaprovação dentro da margem de erro: 48% dos entrevistados aprovam seu governo, enquanto 49% desaprovam. É a primeira vez desde janeiro que ambos os indicadores convergem. No início do ano, 49% desaprovavam Lula e 47% aprovavam. A diferença entre avaliações positivas e negativas atingiu o pico em maio, quando a desaprovação atingiu 57% e a aprovação caiu para 40%. A pesquisa, encomendada pela Genial Investimentos, entrevistou 2,004 pessoas com 16 anos ou mais entre 2 e 5 de outubro. A margem de erro é de dois pontos, com nível de confiança de 95%.
Derrota do Governo
Na quarta-feira (08/10), a Câmara dos Deputados impôs uma derrota significativa ao governo Lula ao deixar caducar uma medida provisória que visava aumentar a arrecadação tributária. O texto, apresentado em julho para substituir um decreto polêmico que aumentava o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), foi retirado da pauta antes mesmo de ser votado. A medida precisa da aprovação de ambas as casas do Congresso antes de expirar no dia seguinte. Partidos de oposição, liderados pelo Centrão, coordenaram a ação que impediu a votação, marcando um raro revés legislativo para o governo em uma área central para sua estratégia fiscal.
Demissões
Após a derrota no Congresso, o governo demitiu diversos indicados políticos ligados a parlamentares do Centrão. Entre os removidos estão figuras ligadas ao PP e ao PL na Caixa Econômica Federal, indicados do PSD no Ministério da Agricultura e membros do MDB no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Autoridades do Palácio do Planalto apontaram o envolvimento do presidente do PP, Ciro Nogueira, e do líder do PSD, Gilberto Kassab, nas negociações que levaram à caducidade da medida. A medida sinalizou uma reafirmação de controle do Executivo sobre sua coalizão após uma semana de turbulência política.
Aposentadoria
O ministro Luís Roberto Barroso anunciou sua aposentadoria do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira (09/10), ao final da sessão da Corte. Aos 67 anos, Barroso poderia ter permanecido no banco até 2033, quando atingiria a idade de aposentadoria compulsória de 75 anos. Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2013 para substituir o ministro Ayres Britto, Barroso assumiu a presidência do STF em 2023. Sua presidência foi marcada por decisões históricas, incluindo a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado— a primeira condenação de um ex-presidente na história do Brasil. O mandato de Barroso também coincidiu com um período de tensão institucional entre o Judiciário e os apoiadores de Bolsonaro, que persistiu mesmo antes de ele assumir a presidência do Tribunal. Ele passou oficialmente a função para o Ministro Edson Fachin na semana passada.
Análise:
Eventos políticos recentes no Brasil revelam o delicado equilíbrio do país entre diplomacia, governança e gestão de coalizões. A conversa direta do presidente Lula com o presidente dos EUA, Donald Trump, representa uma mudança pragmática, demonstrando sua disposição de se envolver até mesmo com líderes ideologicamente distantes para garantir ganhos comerciais e econômicos. A medida pode abrir novos canais de negociação sobre tarifas e exportações, ao mesmo tempo em que reforça a imagem de Lula no país como um líder capaz de superar divisões políticas.
No âmbito interno, a combinação de aumento nos índices de aprovação e derrota no Congresso reflete tanto a força quanto a vulnerabilidade da estratégia de Lula. A melhora no apoio público decorre de medidas econômicas populares, como a redução de impostos, mas o revés legislativo expõe atritos persistentes com o Centrão, cuja cooperação continua crucial para o avanço da agenda do governo.
A aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal marca o fim de um período marcado por confrontos institucionais e esforços judiciais para salvaguardar a democracia. Sua saída agora coloca sobre Lula a tarefa de nomear um sucessor que possa preservar a independência judicial e, ao mesmo tempo, lidar com as expectativas políticas de aliados e críticos.
Fonte: G1 [1] [2] [3], O Globo [1] [2] [3], Folha de S.Paulo



