Os confrontos entre facções criminosas rivais encontraram um novo campo de batalha: os céus do Rio de Janeiro. Desde março, foram registrados pelo menos sete incidentes envolvendo artefatos explosivos lançados por drones, seja durante treinamentos criminosos ou em ataques reais. A maioria ocorreu nos últimos três meses, período marcado pela intensificação das disputas territoriais. O caso mais recente aconteceu no sábado (01/08), quando duas pessoas que preparavam brinquedos para uma festa infantil de rua ficaram feridas após uma bomba lançada por um drone na Favela dos Dourados, no bairro de Cordovil, na Zona Norte do Rio. Entre a noite de segunda-feira (03/08) e a madrugada de terça-feira (04/08), outro confronto envolvendo explosivos lançados por drones foi registrado no Complexo da Penha, também na Zona Norte.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Para desbloquear este conteúdo, assine Relatórios INTERLIRA.
CV vs. TCP
A comunidade, majoritariamente controlada pelo Comando Vermelho (CV), tem sido alvo de traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) ligado a Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como “Peixão”. O líder da facção controla favelas vizinhas, incluindo Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas, área que ele chamou de “Complexo de Israel”.
Wind adia 'sessão de treinamento'
Antes do ataque na Favela dos Dourados, uma granada explodiu e atingiu um prédio no Complexo da Penha na madrugada do dia 31, em um exercício que as autoridades suspeitam ter sido um treinamento com drones para combate ou monitoramento de grupos rivais e da polícia. O tráfico de drogas nesse conjunto de favelas é controlado por Edgar Alves de Andrade, conhecido como “Doca” ou “Urso”. Segundo a polícia, ele é suspeito de fazer parte da direção do CV e de ordenar ataques contra territórios controlados por grupos rivais. As autoridades também investigam relatos de que um “treinamento” para ensinar criminosos a operar os equipamentos estava programado para acontecer no Complexo da Penha. O evento foi anunciado em uma publicação em rede social feita por um indivíduo ligado a um traficante local. No entanto, a aula de operação de drones, marcada para 17 de julho, não aconteceu. O cancelamento teria sido causado por condições climáticas desfavoráveis, principalmente ventos fortes.
Usos múltiplos
Um agente da polícia que investiga o tráfico de drogas na zona do Complexo da Penha afirmou que os criminosos não só utilizam drones para lançar granadas, como também possuem aeronaves não tripuladas capazes de detetar outros dispositivos do mesmo tipo. O equipamento é ainda utilizado para vigilância e reconhecimento. “O sistema funciona como um radar, indicando se outro drone está a operar nas proximidades e identificando a localização aproximada a partir da qual está a ser controlado”, explicou o investigador.
Morro da Caixa D'Água
As pessoas feridas na explosão na Favela dos Dourados não são as únicas vítimas dessa ameaça aérea. Em 29 de maio, um menino de 15 anos sofreu uma fratura exposta na perna enquanto estava no Morro da Caixa d'Água, na Penha, após um drone supostamente ter lançado uma granada na área. Quase dois meses antes, em 30 de março, outro artefato explosivo atingiu um prédio na Vila do Sapê, na Curicica, Zona Sudoeste do Rio. Esse incidente ocorreu durante um ataque de traficantes de CV contra uma área controlada por uma milícia. Outros incidentes foram registrados em junho e julho. Entre os mais notáveis, destacam-se um prédio atingido por um explosivo no Parque Dois Irmãos, na Curicica, e uma granada encontrada no telhado de uma creche na Favela do Dique, no Jardim América, Zona Norte. Neste último caso, o artefato foi encontrado intacto e precisou ser detonado com segurança pelo esquadrão antibombas da polícia.
De fuzis antidrone ao treinamento de traficantes de drogas na Ucrânia
Embora os incidentes envolvendo drones tenham se tornado mais frequentes nos últimos meses, as agências estaduais de segurança pública investigam o uso desses equipamentos por organizações criminosas desde 2017, quando as autoridades descobriram que Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como “Peixão” e identificado como líder do TCP, havia adquirido drones. Como chefe do narcotráfico do Complexo de Israel, Peixão supostamente utilizava as aeronaves para monitorar rivais, principalmente membros do CV em Penha, bem como policiais. Desde então, o uso de drones por grupos criminosos se expandiu. Em 2024, a Polícia Federal prendeu um homem em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, por ter recebido um fuzil antidrone pelos Correios. No mesmo ano, a Polícia Civil investigou um indivíduo que pilotava um drone usado para lançar um explosivo caseiro sobre uma comunidade em Córdovil, na Zona Norte. No ano seguinte, a Divisão de Repressão ao Narcotráfico (DRE) da Capital abriu investigação contra um brasileiro ligado ao CV que havia se voluntariado para lutar na guerra entre Rússia e Ucrânia. Segundo relatos, ele viajou para a Europa Oriental com financiamento da facção para aprimorar seus conhecimentos em táticas de guerrilha e, posteriormente, ensiná-las a associados no Rio de Janeiro. Um caso semelhante envolveu outro membro do grupo que, após retornar da Ucrânia, foi avistado por uma aeronave da Polícia Militar enquanto realizava treinamento com um drone de aproximadamente três metros no Complexo do Alemão.
Drones de grande escala
O desenvolvimento não termina aí. Investigações da Polícia Federal que resultaram na prisão, em 2025, do ex-deputado estadual Tiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como “TH Jóias”, por suposto envolvimento com a CV, revelaram que ele e um auxiliar negociaram a compra ilegal de equipamentos antidrone para a facção. As conversas interceptadas indicaram que parte da transação de R$ 750,000 mil foi liquidada por meio de um pagamento de R$ 55,000 mil em notas de R$ 2. Enquanto isso, investigações conduzidas este ano pela Subsecretaria de Inteligência do Departamento de Segurança Pública do Rio de Janeiro constataram que traficantes no Complexo do Alemão, área controlada pela CV, adquiriram drones de grande porte originalmente projetados para operações agrícolas e transporte de cargas. Essas aeronaves podem transportar cargas de até 80 quilos, aproximadamente o peso combinado de 20 fuzis de assalto, operam em distâncias de até 12 quilômetros e custam mais de R$ 200,000 mil cada.
Análise:
O uso crescente de drones para realizar ataques representa uma escalada significativa nas capacidades operacionais das organizações criminosas do Rio de Janeiro. O que antes era principalmente uma ferramenta de vigilância evoluiu para uma plataforma de armas capaz de projetar violência além das fronteiras territoriais tradicionais. Ao permitir o lançamento remoto de dispositivos explosivos, os drones reduzem a exposição direta dos atacantes, ao mesmo tempo que criam novos riscos para gangues rivais, forças de segurança e civis. Os incidentes recentes também indicam que as organizações criminosas estão investindo em treinamento técnico e adaptando táticas observadas em conflitos modernos, demonstrando uma disposição para incorporar tecnologias disponíveis comercialmente em sua doutrina operacional.
Essa tendência reforça a necessidade de as forças de segurança ampliarem seu foco para além do policiamento convencional. Tecnologias antidrone, sistemas de detecção eletrônica, coleta de informações e treinamento especializado se tornarão componentes cada vez mais importantes das estratégias de segurança pública. Ao mesmo tempo, impedir que organizações criminosas acessem equipamentos avançados por meio de uma supervisão mais rigorosa das importações, das cadeias de suprimentos e dos mercados ilícitos será tão importante quanto responder aos ataques após sua ocorrência.



