Indivíduos negros e mestiços — particularmente homens jovens — representaram sete em cada dez mortes resultantes de intervenções policiais no ano passado em nove estados brasileiros, de acordo com um relatório divulgado na quarta-feira (01/07) pela Rede de Observatórios de Segurança. O estudo define a população negra como a soma de indivíduos negros e mestiços. Embora essa proporção tenha diminuído ligeiramente de 75% em 2024 para 70% em 2025, ela permanece significativamente maior do que a participação de pessoas negras na população total dos estados analisados. O relatório registrou 4,330 mortes resultantes de intervenções policiais no Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, em comparação com 4,069 no ano anterior, representando um aumento de 6.4% na letalidade policial.
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Indo contra a tendência
O aumento da letalidade policial contrasta com a queda mais ampla da criminalidade violenta observada em todo o país. Segundo o Ministério da Justiça, o Brasil registrou 31,481 vítimas de homicídio no ano passado, uma redução de 10.4% em comparação com 2024. Nos nove estados incluídos no relatório, a queda foi menor, de 8.5%. A população negra continua desproporcionalmente representada entre as vítimas de homicídio. De acordo com o último Anuário de Segurança Pública do Brasil, ela representa 79% de todas as vítimas de homicídio no país, apesar de corresponder a 55.5% da população brasileira, segundo o último censo do IBGE. Ao mesmo tempo, sete dos nove estados monitorados registraram aumento nas mortes resultantes de intervenções policiais entre 2024 e 2025. Apenas Piauí e Bahia registraram quedas, com as fatalidades relacionadas à polícia diminuindo 16.7% e 7.7%, respectivamente.
Bahia: Maior número de mortes
Apesar da queda, a Bahia manteve-se como o estado com o maior número absoluto de mortes causadas por intervenção policial e a maior taxa por 100 mil habitantes. Após atingir o recorde de 1,702 mortes relacionadas à polícia em 2024, o estado registrou 1,570 casos em 2025. Embora a população negra represente 79.7% da população baiana, ela corresponde a 93.9% das vítimas fatais, totalizando 1,243 pessoas. Segundo o relatório, o estado permanece sob constante pressão devido a disputas envolvendo mais de 20 facções criminosas que competem pelo controle de rotas de tráfico de drogas e mercados varejistas. As mortes relacionadas à polícia concentraram-se geograficamente em apenas 12 dos 417 municípios da Bahia, respondendo por metade de todos os casos registrados. Incidentes fatais ocorreram em 346 dos 365 dias do ano, e mais de mil vítimas tinham entre 18 e 29 anos. Nos últimos sete anos, as forças policiais da Bahia mataram 8,743 pessoas, número superior à soma dos registrados por todos os outros estados monitorados.
Rio de Janeiro
Segundo o relatório, a persistência da narrativa do “narcoterrorismo” reforçou uma estratégia de segurança pública centrada no confronto armado. O Rio de Janeiro registrou 800 mortes resultantes de intervenções policiais em 2025, incluindo duas crianças de até 11 anos, representando um aumento de 13.8% em comparação com o ano anterior. Mais da metade dessas mortes (56.3%) ocorreram na capital do estado. Embora a população negra represente 57.8% do total, ela corresponde a 89.5% das pessoas mortas pela polícia. O relatório estima uma taxa de letalidade policial de 6.3 mortes por 100,000 mil habitantes negros, em comparação com 1.1 por 100,000 mil entre os brancos, indicando que pessoas negras têm quase seis vezes mais chances de serem mortas durante intervenções policiais.
São Paulo
São Paulo registrou um recorde histórico de 834 mortes resultantes de intervenções policiais em 2025, representando um aumento de 2.7% em comparação com o ano anterior. O relatório observa que esse aumento ocorreu apesar da contínua queda em crimes graves como furto, roubo e roubo seguido de homicídio, sugerindo que o aumento da letalidade policial não pode ser explicado apenas pelas tendências da criminalidade, mas também pode refletir decisões operacionais e políticas. A cidade de São Paulo foi responsável por 30.5% de todas as mortes relacionadas à polícia no estado. Embora a população negra represente 40.9% da população do estado, ela corresponde a 64.6% das pessoas mortas durante operações policiais.
Crianças mortas
O relatório também constatou um aumento no número de crianças e adolescentes mortos durante intervenções policiais nos nove estados monitorados. Um total de 312 vítimas com 17 anos ou menos foram registradas em 2025, 15 a mais que no ano anterior. A Bahia registrou o maior número de vítimas juvenis, com 152 adolescentes entre 12 e 17 anos mortos durante operações policiais. O Rio de Janeiro ficou em segundo lugar, com 44 vítimas entre 12 e 17 anos, além de duas crianças com 11 anos ou menos.
Análise:
O relatório ilustra um desafio persistente na segurança pública brasileira: a coexistência da queda nas taxas de homicídio com o aumento de mortes resultantes de intervenções policiais. Essa divergência sugere que a redução da violência em geral não se traduz automaticamente em um policiamento menos letal. Em vez disso, estratégias operacionais, incentivos institucionais e o ambiente de segurança em regiões específicas parecem desempenhar um papel decisivo na configuração do uso da força policial. Em estados onde as organizações criminosas permanecem fortemente armadas e entrincheiradas territorialmente, as forças de segurança frequentemente realizam operações de alto risco que aumentam a probabilidade de confrontos fatais.
As disparidades raciais identificadas no relatório também merecem atenção cuidadosa. A sobrerrepresentação consistente de vítimas negras em vários estados indica que o problema vai além de incidentes isolados e reflete padrões estruturais mais amplos. Essas disparidades são influenciadas por uma combinação de desigualdades socioeconômicas, pela concentração geográfica das operações policiais em comunidades vulneráveis e pela composição demográfica dos bairros onde o crime organizado é mais ativo.
Fontes: G1 [ 1 ], [ 2 ]; O Globo ; A Folha de SP.



