Mulheres negras, assassinadas dentro de suas próprias casas e, na maioria das vezes, por um parceiro atual ou antigo: esse é o perfil mais comum das vítimas de feminicídio no Brasil, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (04/03) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os resultados reforçam que o feminicídio no país é predominantemente uma expressão de violência doméstica e entre parceiros íntimos, ocorrendo em espaços que deveriam oferecer proteção, mas que, em vez disso, se tornam palco de agressões letais. Em 2025, o Brasil registrou 1,568 vítimas de feminicídio — um aumento de 4.7% em relação ao ano anterior.—mostrando que a tendência permanece arraigada apesar da existência de proteções legais e canais formais de denúncia. O relatório também relaciona esse padrão a desigualdades sociais e raciais mais amplas, sugerindo que a vulnerabilidade, o acesso limitado a redes de apoio e a resposta institucional tardia podem agravar os riscos enfrentados por mulheres em relacionamentos abusivos.
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A maioria era negra.
Uma análise de 5,729 casos de feminicídio registrados entre 2021 e 2024 mostra que 62.6% das vítimas eram negras (3,587 mulheres), enquanto 36.8% eram brancas (2,107). Considerando que os dados do IBGE indicam que as mulheres negras representam cerca de 55% da população feminina do Brasil, os números apontam para um impacto desproporcional. O relatório argumenta que a violência de gênero letal está intimamente ligada à desigualdade racial e social: as mulheres negras, em média, estão mais expostas à vulnerabilidade socioeconômica, enfrentam maiores barreiras para sair de relacionamentos abusivos e têm menos acesso a redes de proteção eficazes e serviços públicos. Os dados sugerem que a desigualdade estrutural contribui para moldar tanto o risco quanto a capacidade de obter assistência oportuna.
Fase da idade adulta
Os registros indicam que o feminicídio afeta diferentes fases da vida, mas concentra-se principalmente na idade adulta. Entre os casos analisados, 1,685 vítimas tinham entre 18 e 29 anos (29.4%), enquanto 2,864 mulheres tinham entre 30 e 49 anos (50%), o maior grupo. Outras 887 vítimas tinham mais de 50 anos (15.5%). A distribuição sugere que o maior risco coincide com os anos em que muitas mulheres têm maior probabilidade de estar em relacionamentos de longo prazo, criando filhos e administrando responsabilidades financeiras — fatores que podem aumentar a exposição à coerção, dependência e ciclos repetidos de abuso. O relatório também indica que a violência não se limita a uma única faixa etária e que as mulheres mais velhas também permanecem vulneráveis.
Relação direta
Na maioria dos casos, o agressor tinha um relacionamento direto com a vítima. A pesquisa constatou que 59.4% das mulheres foram mortas por um parceiro íntimo e 21.3% por um ex-parceiro. Entre os casos em que o agressor foi identificado, 97.3% foram cometidos por homens. Apenas 4.9% envolveram estranhos, reforçando a ideia de que o feminicídio é predominantemente motivado por violência em relacionamentos íntimos, e não por agressões aleatórias. Os dados apontam para padrões recorrentes: controle, ciúme, conflitos de separação e escalada da violência após episódios anteriores de agressão — frequentemente ocorrendo em ambientes onde a vítima está isolada e onde a intervenção pode ser tardia.
Casos Recentes
Os casos recentes registrados em São Paulo ilustram esse padrão. Tainara Souza Santos, de 31 anos, morreu após quase um mês internada no Hospital das Clínicas, depois de ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um carro dirigido por Douglas Alves da Silva, com quem ela tinha um relacionamento anterior. Meses depois, sua amiga Priscila Versão, de 22 anos, também foi assassinada. O suspeito é Deivit Bezerra Pereira, com quem ela tinha um relacionamento e dois filhos. Familiares relataram que Priscila chegou a participar de um protesto exigindo justiça pelo ataque contra Tainara, o que demonstra como a violência pode se alastrar pelos círculos sociais e como mulheres próximas às vítimas também podem estar expostas a relacionamentos abusivos.
armas
Quanto aos meios utilizados, 2,790 feminicídios foram cometidos com armas brancas (48.7%), como facas ou machados, enquanto 1,443 envolveram armas de fogo (25.2%). De acordo com Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados indicam que o feminicídio frequentemente envolve objetos comuns, facilmente acessíveis no cotidiano — muitas vezes dentro da própria casa —, reforçando a natureza doméstica da violência. O domicílio surge como o principal cenário desses crimes: 3,797 feminicídios ocorreram dentro da residência (66.3%), enquanto 1,099 ocorreram em espaços públicos (19.2%). A prevalência de ambientes domésticos e a facilidade de acesso a armas sugerem que a prevenção depende não apenas do policiamento, mas também da detecção precoce de abusos, de medidas de proteção eficazes e de intervenção rápida quando as ameaças aumentam.
Análise:
Os dados reforçam um padrão bem documentado no Brasil: o feminicídio é predominantemente uma extensão da violência doméstica e da violência entre parceiros íntimos, e não um ato criminoso aleatório. O fato de a maioria das vítimas ser morta dentro de suas próprias casas por parceiros atuais ou antigos indica que a violência letal frequentemente representa o estágio final de um ciclo prolongado de abuso. Apesar de marcos legais como leis específicas sobre violência doméstica e medidas de proteção, a persistência e o aumento dos casos sugerem que as respostas institucionais frequentemente ocorrem tarde demais, depois que as ameaças já se intensificaram.
O impacto desproporcional sobre as mulheres negras também ilustra como a violência de gênero se cruza com desigualdades socioeconômicas e raciais mais amplas. Vulnerabilidades estruturais, como níveis de renda mais baixos, acesso reduzido à assistência jurídica e redes de apoio mais frágeis, podem limitar a capacidade de sair de relacionamentos abusivos ou buscar proteção das autoridades.



