As quadrilhas de narcotráfico continuam sua expansão em direção a cidades de pequeno e médio porte do estado do Rio de Janeiro. Episódios recentes de violência entre gangues têm chamado a atenção para Paraty, que sofre com os efeitos de conflitos locais por pontos de venda de drogas. Em Paraty, ironicamente, a Praça da Paz tornou-se gradualmente, nos últimos 15 anos, o ponto central de uma disputa entre o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP). O conflito transformou o cenário de segurança desta cidade turística e a rotina de dois bairros tradicionais de pescadores, expostos à violência e à marginalização em uma cidade reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial.
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Ilha das Cobras e Mangueira
A 13 minutos a pé do Centro Histórico de Paraty, as comunidades da Ilha das Cobras e da Mangueira — também próximas do aeroporto — são separadas apenas pela Rua Central. Para os moradores, um ponto de referência comum é uma banca de açaí montada em frente à praça. Ambas as áreas começaram a ser dominadas por facções criminosas entre 2010 e 2011, período em que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) foram implantadas nas favelas do Rio de Janeiro, regiões dominadas pelo tráfico de drogas. Na época, o Comando Vermelho (CV) atuava na Ilha do Governador, enquanto o Terceiro Comando Puro (TPC) controlava a Mangueira.
Tomada de Controle
Em 2021, o Comando Vermelho assumiu o controle de Mangueira após o assassinato de líderes rivais. Essa mudança desencadeou uma onda de expulsões forçadas. Criminosos armados chegaram e deram a uma família 24 horas para sair. Essas expulsões continuam em Paraty, que agora é amplamente dominada pelo CV. A 167ª Delegacia de Polícia (DP) está investigando um caso ocorrido no final do ano passado em Morro do Ditão, na Rodovia Rio-Santos, a cerca de oito quilômetros do centro de Paraty. Traficantes ameaçaram uma moradora com armas em punho, acusando-a de ser informante.
Venda de drogas
Um morador de Mangueira disse que o bairro se deteriorou drasticamente nos últimos anos, principalmente devido ao aumento do tráfico de drogas nas ruas laterais. Ele descreve os traficantes, observando que a maioria são adolescentes. No ano passado, 48 menores foram detidos na cidade; em 2024, foram 28, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP).
Falta de serviços básicos
Falando anonimamente, um policial civil da região disse que a CV, agora estabelecida em Paraty, expandiu o controle sobre as atividades econômicas locais de maneira semelhante às suas operações na capital. A presença da facção também afeta serviços básicos em algumas áreas, como Condado, a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade. Uma professora da rede pública afirmou que, nessa comunidade, os ônibus municipais não circulam mais pelas ruas internas, operando apenas na via principal.
Área turística
Mais recentemente, as atividades da facção teriam se estendido para além das comunidades, atingindo áreas turísticas como Praia do Sono e Trindade, conhecidas por sua cultura "hippie". Segundo relatos locais, os traficantes estavam extorquindo barqueiros e operadores de estacionamentos, além de cobrarem indevidamente dos turistas pelo acesso. Moradores afirmam que a situação foi resolvida pelos próprios pescadores locais, que confrontaram os criminosos — alguns dos quais eram seus parentes.
Seis investigações
Na 167ª Delegacia de Polícia, há pelo menos seis investigações em andamento sobre a exploração territorial do Comando Vermelho na região. Os investigadores, contudo, relatam dificuldades em concluir os casos, principalmente devido à falta de depoimentos de testemunhas. As denúncias registadas envolvem Paraty-Mirim — onde se diz que os traficantes exigem uma percentagem das vendas de terrenos e imóveis — juntamente com Costeira, Ponta Negra, Praia de Cajaíba, Juatinga e Calhau. Há também suspeitas de extorsão contra empresas turísticas no Cais de Paraty, de onde partem os barcos de turismo. No Centro Histórico, um importante polo turístico, não houve queixas formais até ao momento.
Análise:
A situação em Paraty reflete uma expansão gradual, porém estratégica, do crime organizado para municípios menores que combinam acesso logístico, receita turística e presença limitada do Estado. A disseminação do controle de facções para comunidades como Ilha das Cobras e Mangueira parece estar ligada a dinâmicas mais amplas de deslocamento após intervenções de segurança na capital do Rio de Janeiro na última década. Com o aumento da pressão nas principais favelas urbanas, os grupos criminosos buscaram territórios secundários onde a capacidade de policiamento é menor e a vulnerabilidade social é alta. Nesse contexto, os bairros de pescadores periféricos de Paraty tornaram-se polos atrativos para consolidação, e não apenas pontos de trânsito.
O padrão relatado de expulsões forçadas, recrutamento de jovens e controle sobre as atividades econômicas locais sugere uma mudança do comércio varejista de drogas para a governança territorial. Quando facções começam a influenciar transações imobiliárias, rotas de transporte e o acesso a serviços públicos, elas transcendem o comércio ilícito e ingressam em estruturas de autoridade paralelas.
A expansão da influência criminosa para zonas turísticas como a Praia do Sono e a Trindade introduz uma camada adicional de risco, uma vez que ameaça um setor central para a economia e a reputação internacional de Paraty. Mesmo casos isolados de extorsão ou cobrança informal de impostos podem prejudicar a confiança dos investidores e a imagem dos visitantes.



