Levantamento inédito feito pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e divulgado pela Folha de SP mostrou que as duas maiores facções do país atuam nos sistemas penitenciários de 24 estados e do Distrito Federal e que hoje existem 70 quadrilhas ativas nos presídios do país. Entre todos eles, os dois grandes grupos estão crescendo rapidamente, mas em 2022, o Comando Vermelho (CV) teve uma expansão mais forte. Os dados também indicaram que, em más condições de vida, os reclusos tendem a juntar-se aos bandos para protecção e até para terem acesso a coisas essenciais, como banhos de sol e tratamento médico, que por vezes são controlados pelos grupos criminosos.
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Crescimento
A contaminação do sistema penitenciário brasileiro por facções criminosas cresceu e hoje estão presentes em todas as unidades da federação. Entre essas quadrilhas destacam-se o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), nascidos respectivamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Segundo o levantamento, o CV está presente nos presídios de 21 unidades da federação, seis a mais que no ano anterior. O PCC está com 23, dois a mais que em 2022.
Crescimento do Comando Vermelho (CV)
CV teve crescimento significativo após sua expansão para Norte e Nordeste do Brasil. Esse processo começou no sul da Bahia até chegar a Salvador, onde estabeleceu aliança com a facção Comando da Paz (Comando da Paz). No Norte, o CV assumiu o controle do tráfico de drogas no Amazonas após o desmantelamento da facção Família do Norte (Família do Norte), que dominava o estado.
Operações dentro e fora do sistema prisional
Incidentes de 2023 mostram como os grupos criminosos atuam dentro e fora do sistema prisional. Em junho, funcionários do sistema penitenciário do Amazonas foram ameaçados de morte pelos membros do CV. Os internos filiados ao CV recusaram-se a retornar às suas celas. Além disso, R$ 50,000 mil foram oferecidos pela morte de um dos funcionários. O conflito tomou as ruas de Manaus e um guarda penitenciário foi atacado nas ruas. Em julho, um membro do PCC foi assassinado no bairro Compensa. Esses casos mostram o poder de CV na disputa pelo território amazônico e como a dinâmica envolve o sistema prisional.
Número de facções dentro do sistema prisional
O tamanho do CV, do PCC e de outras facções foi mapeado pela Secretaria Nacional de Política Penal (Senappen) com base em dados da Rede Nacional de Inteligência Penitenciária. Senappen revela existência de 70 facções criminosas que atuam nos presídios.
Alcance e poder
Das 70 facções atuantes no sistema prisional, apenas CV e PCC têm alcance nacional. Outros 13 têm atuação regional, enquanto 55 têm influência restrita ao nível local.As autoridades também mapearam o poder das facções. Do total, 21 são considerados de alto impacto, segundo cálculo que considera atuação dos advogados, solidez financeira, estrutura hierárquica, número de aliados e também inimigos no sistema prisional.
Análise:
Segundo especialistas, há falta de controle do poder público sobre os presídios, o que fortalece o crime organizado. O sistema tenta isolar lideranças – que, mesmo na prisão, comandam crimes nas ruas – e oferecer prisões em péssimas condições, impulsionando o recrutamento de presos pelas facções.
Os prisioneiros procuram a protecção dos gangues, os recursos, o acesso a alguns benefícios e muitas vezes o acesso a serviços básicos, como assistência médica e banhos de sol. Cerca de 17 mil pessoas morreram nas prisões brasileiras nos últimos dez anos. O elevado número de mortes e suas causas ampliam o conhecimento sobre as más condições nas prisões. Muitos morreram de cancro gástrico ou da próstata e de pneumonia, que, segundo as autoridades, são tratáveis e evitáveis. No entanto, a existência de condições insalubres, a baixa qualidade dos alimentos e a falta de acesso à água potável e a cuidados médicos mantêm o problema.
Outro fator são as prisões superlotadas. No país, há um déficit de mais de 162,000 mil vagas nas prisões estaduais, que abrigam 644,000 mil presos. Sétimo país em número de habitantes, o Brasil tem a 3ª maior população carcerária do mundo. Por conta disso, não existe uma estrutura de separação dos presos, que acabam tendo contato com as facções.
Assim, os grupos criminosos surgiram com demandas por melhorias nas condições prisionais. Com o tempo, eles se fortaleceram devido às suas atividades ilegais, principalmente o tráfico de drogas. Isto foi acompanhado de disputas territoriais, que têm impactos profundos na vida da população e na segurança pública.
Hoje, presos filiados a gangues utilizam ondas de violência generalizada para pressionar as autoridades a atenderem às suas demandas, muitas vezes ligadas a restrições dentro das prisões ou à transferência de um líder importante para uma prisão federal mais isolada. Por exemplo, no primeiro semestre de 2023, uma série de ataques a prédios e ônibus atingiu 14 cidades do Rio Grande do Norte e foi coordenada pela facção Sindicato do Crime. O objetivo era garantir ventiladores nas celas e alimentação fornecida pela família, o que havia sido vetado pelo Ministério Público.



