Vinte anos após os ataques coordenados contra as forças de segurança paulistas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) continua seguindo uma estratégia focada em evitar confrontos diretos e prolongados com a polícia. De acordo com investigadores e especialistas em segurança, a facção opera com uma lógica empresarial, na qual confrontos violentos são vistos como prejudiciais às suas operações de narcotráfico altamente lucrativas. Essa abordagem prevalece em grande parte do estado de São Paulo, onde a organização busca preservar a estabilidade nos territórios sob sua influência. A principal exceção é a região da Baixada Santista, onde os moradores vivenciam, há anos, a versão mais violenta e ostensivamente armada das atividades da facção. Em cidades como Santos, Cubatão e Guarujá, criminosos exibem abertamente fuzis nas ruas e nas redes sociais, erguem barricadas e frequentemente repelem patrulhas policiais a tiros. Em diversos bairros, o policiamento preventivo de rotina praticamente cessou, com as forças de segurança entrando apenas em operações de grande escala ou em comboios fortemente armados.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Para desbloquear este conteúdo, assine Relatórios INTERLIRA.
A polícia não entra.
Policiais militares e moradores entrevistados anonimamente identificaram pelo menos dez favelas na região onde o patrulhamento regular deixou de ser realizado devido ao nível de risco. Segundo os entrevistados, Guarujá é considerada uma das áreas mais críticas da Baixada Santista. Uma policial que trabalha na região há mais de uma década resumiu a situação afirmando que “Guarujá é o Rio de Janeiro 2”, uma comparação que faz referência à intensa presença armada e às disputas territoriais comuns nas favelas do Rio. Moradores descrevem uma realidade diária marcada pelo medo, patrulhas armadas de criminosos e restrições impostas por traficantes, enquanto policiais reconhecem que entrar em certas comunidades sem apoio tático é considerado muito perigoso.
Dados
Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo mostram que 28 pessoas foram mortas em intervenções policiais nos nove municípios da Baixada Santista durante o primeiro trimestre deste ano. O número já representa 57% de todas as mortes causadas por ações policiais registradas na região até 2025, quando foram contabilizadas 49 fatalidades. Desde 2013, início da série histórica oficial, 920 pessoas foram mortas em operações policiais na Baixada. Desse total, 896 mortes resultaram de ações da Polícia Militar e 24 de operações da Polícia Civil. A região também se tornou uma das áreas mais perigosas para agentes da lei no estado. Nos últimos 20 anos, pelo menos 44 policiais foram mortos no território abrangido pelo Deinter 6, o departamento de polícia responsável pela Baixada Santista e municípios vizinhos. Entre as vítimas, estavam 33 policiais militares e 11 policiais civis.
Pior período
Os anos de 2023 e 2024 marcaram um dos períodos mais violentos da história recente da Baixada Santista. A escalada da violência começou em 28 de julho de 2023, após o assassinato do policial da ROTA Patrick Bastos Reis, de 30 anos, em Guarujá. Em resposta, a Polícia Militar de São Paulo lançou as Operações Escudo e Verão em diversas comunidades da região. Em conjunto, as operações resultaram na morte de 84 pessoas durante supostos confrontos com a polícia. Organizações de direitos humanos e investigadores independentes apontaram posteriormente indícios de execuções extrajudiciais, alegando que algumas vítimas foram encurraladas e baleadas pelas costas. As operações contribuíram significativamente para o aumento de mortes relacionadas à atuação policial na região, que chegou a 132 óbitos em 2024. Embora a Baixada Santista represente apenas cerca de 4% da população do estado, foi responsável por aproximadamente 16% de todas as mortes causadas por intervenção policial em São Paulo naquele ano.
Porta
Segundo as autoridades, comunidades carentes da Baixada Santista tornaram-se bases logísticas estratégicas para as operações internacionais de narcotráfico do PCC através do Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina. Diversas dessas comunidades estão localizadas próximas a terminais de carga, facilitando a movimentação e o ocultamento de entorpecentes antes da exportação. O delegado da Polícia Federal Rodrigo Perin Nardi, que trabalha em Santos, afirmou que a facção aproveita a proximidade entre as comunidades e a infraestrutura portuária para transportar drogas com mais eficiência. Grandes apreensões de cocaína no porto podem gerar prejuízos de milhões de dólares para a organização, o que, segundo investigadores, explica o investimento do PCC em equipes de segurança fortemente armadas, encarregadas de proteger os estoques e as rotas de tráfico. Policiais que atuam na região relatam que as tentativas de aproximação a essas áreas são frequentemente recebidas com resistência armada e troca de tiros.
Análise:
A situação na Baixada Santista demonstra como o PCC adapta seu modelo operacional de acordo com a importância estratégica de cada território. Embora a facção geralmente evite confrontos prolongados com a polícia para preservar a estabilidade de seu negócio de narcotráfico, a região portuária tornou-se uma exceção devido à sua conexão direta com as rotas internacionais de exportação de cocaína pelo Porto de Santos. Nesse contexto, a exibição ostensiva de fuzis e pistolas serve não apenas a uma função defensiva, mas também simbólica. Segundo especialistas em segurança, essas demonstrações de armamento visam mostrar aos moradores e grupos rivais quem efetivamente controla o território.
Baixada Santista expõe as limitações de se depender exclusivamente da força policial para retomar territórios dominados pelo crime organizado. Especialistas argumentam que operações táticas podem reduzir temporariamente a atividade criminosa ou interromper a logística do tráfico, mas são insuficientes para desmantelar as estruturas mais amplas que sustentam o controle das facções.
Fontes: A Folha de SP; O Globo.



