Em maio deste ano, um estudante de 27 anos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi esfaqueado após um assalto no centro do Rio. Ele não reagiu, mas foi esfaqueado mesmo assim. Dois meses depois, um advogado de 30 anos foi morto em um local próximo, na Praça Tiradentes. Casos como esses refletem a situação da segurança pública na região central do Rio.
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De acordo com o relatório Central do brasil região, por exemplo, somado ao alto fluxo de pessoas, há desordem urbana. No interior da estação e no entorno, o tráfico de drogas, a exploração de menores e o furto são frequentes. Problemas antigos que só pioram com o tempo, apesar de ter sido alvo, nas últimas duas décadas, de vários projetos que prometiam uma solução para revitalizar e modernizar um dos lugares mais importantes da cidade.
Há alguns anos, as condições de segurança na região central eram precárias. A pandemia de COVID-19; trouxe maiores desafios para as autoridades. O agravamento da economia pós-pandemia e o abandono da região centro, da tradicional área de escritórios e comércio, fizeram com que a situação se agravasse ainda mais. Este não é um problema exclusivo do Rio de Janeiro, e São Paulo também enfrenta problemas semelhantes.
JÁ ERA RUIM ANTES
Em 2019, foi fundada a um homem de negócios, que trabalhava no centro do Rio, ficou famoso após filmando uma série de pequenos crimes das janelas de seu escritório. As imagens mostraram os crimes mais recorrentes: furtos e roubos. Geralmente em grupos, os jovens roubavam joias e celulares de quem passava. Tentando alertar as pessoas, o empresário chegou a criar um panfleto em português e inglês falando sobre os furtos e o que deve ser feito para se proteger.
De acordo com o eBook da Digibee Instituto de Segurança Pública, em 2018, foram registrados 4,921 assaltos nas ruas. Isso significa um aumento de 9,3% em relação ao ano anterior (2017). Esses números fizeram do Centro o bairro com maior incidência desse tipo de crime. Em um ano em que o estado do Rio de Janeiro passou por uma intervenção federal na área de segurança pública.
350 metros do Comando Militar do Leste, onde ficava o escritório federal de intervenção do Exército Brasileiro, no centro do Rio, um prédio foi transformado em uma casa de drogas. Moradores do prédio foram ameaçados de aceitar as regras dos traficantes.
Em fevereiro de 2018, durante o Carnaval, um grande grupo de bate-bolas – tradicional fantasia carnavalesca do subúrbio carioca – foram presos enquanto promoviam um assalto em massa na Avenida Presidente Wilson, no centro do Rio. Segundo a polícia, havia 110 homens mascarados entre o grupo preso, além de uma granada e uma pistola. O grupo foi levado para a Delegacia da Lapa, porém como não havia infraestrutura suficiente para tanta gente, foram necessários três ônibus para transportar todo o grupo até a Polícia Civil, Zona Norte.

PIOR COM A PANDEMIA
A pandemia colocou quase o mundo inteiro em quarentena. As ruas do centro do Rio estão desertas e as poucas pessoas que passaram pela região a descreveram como uma cidade fantasma. O número de o número de sem-teto aumentou, e incidentes violentos foram relatados contra pedestres, alguns deles envolvendo facões e facas.
“Sensação de total insegurança. Além de estar praticamente deserta, não havia polícia. Não pode correr o risco de andar por aí”, descreveu uma mulher que trabalha em um prédio comercial próximo o Teatro Municipal. Um colega de trabalho dela disse que morava a cerca de 10 minutos de distância e que o trajeto que sempre fazia a pé agora se tornou inviável, devido à grande possibilidade de roubos.

RETORNO PÓS-PANDEMIA AO CENTRO
Com o fim das medidas de restrição, algumas empresas e lojas localizadas no centro começaram a reabrir, mas a área central ainda não voltou à atividade pré-pandemia, especialmente durante a noite. Em relação ao trabalho de escritório, algumas empresas adotaram definitivamente o trabalho em casa. Isso contribuiu para Região central do Rio sendo menos movimentada, principalmente ao longo do eixo e transversais da Avenida Rio Branco.
Abandono do centro do Rio de Janeiro deixa pedestres vulneráveis a furtos ao cair da noite ou ao amanhecer. Um dos pontos mais movimentados do Centro – a Praça da República, próximo à Faculdade Nacional de Direito (FND) – é um dos mais perigosos. A rua onde fica o FND ganhou até apelido entre os universitários: “Rua do Perdeu” ou literalmente “Rua da Perda”. O nome é uma referência a uma frase que os ladrões dizem para suas vítimas quando atacam: “Você perdeu, me dê tudo!”.
A insegurança é evidenciada por números do Instituto de Segurança Pública (ISP): segundo a agência, o número de roubos cresceu 40% nos primeiros sete meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. O número total saltou de 1,828 a 2,555. Os roubos de celulares também cresceram consideravelmente. De acordo com o ISP Foram registrados 323 roubos de celular de janeiro a julho de 2021 e no mesmo período deste ano, o número total chegou a 554, ou seja, um aumento de 72%. Um caso simbólico de violência que descreve a violência na região ocorreu no dia 18 de julho, quando todos os acessos ao Largo da Lapa – um local conhecido da vida noturna – foram fechados devido a um incidente policial. Moradores protestaram e colocaram barricadas em chamas feitas com lixo nas ruas. Um ônibus foi atacado com pedras por uma multidão enfurecida, e as forças policiais que pareciam controlar a situação também foram alvejadas. Segundo a Polícia Civil, os tumultos começaram após a morte de um suspeito por policiais que estavam em uma operação para cumprir um mandado de prisão contra um ladrão. Eles teriam sido atacados por dois homens armados e reagiram. No entanto, testemunhas afirmam que não houve tiroteio.
RESPOSTA PÚBLICA DA CIDADE E DO ESTADO
A nova gestão do prefeito Eduardo Paes (DEM) tenta resolver o problema. No primeiro dia de seu mandato, em janeiro de 2021, um decreto criou o “Grupo de Trabalho para a Requalificação do Centro do Rio de Janeiro”, com um prazo de 120 dias para apresentar um plano. O grupo envolveu, ao todo, 18 secretarias ou órgãos de administração da cidade.
Uma das soluções retidas é o programa Reviver Centro que visa promover a recuperação urbana, social e econômica de bairros da região central. O objetivo é estabelecer diretrizes para a gestão, qualificação e manutenção do espaço público e do patrimônio histórico. A ideia é repovoar o centro do Rio conversão de propriedades comerciais abandonadas em empreendimentos residenciais.
Outra tentativa de minimizar os problemas do centro partiu do governo estadual Projeto “Centro Presente”. O programa, que visa combater pequenos delitos em locais estratégicos e ocupar o terreno, conta com a participação de policiais militares da ativa e da reserva e agentes de folga das Forças Armadas. No entanto, alguns problemas geram críticas da população.
Uma crítica é em relação ao horário de funcionamento do programa. A base Praça XV encerra suas atividades às 22h. Um jovem de 27 anos, por exemplo, foi assassinado na madrugada de março deste ano na Praça XV. Ele teve o pescoço cortado por um menor com uma garrafa de vidro. O crime aconteceu a poucos metros da base do programa Centro Presente, que estava fechado na época. Já a primeira base do programa, na Lapa, começa a funcionar às 19h e segue durante a madrugada, mas permanece fechada durante o dia, quando há grande circulação de pessoas. Foi durante o dia que um turista americano foi baleado após ser assaltado em abril deste ano. Ele foi abordado por dois homens armados em uma motocicleta. Os criminosos atiraram nele e levaram cerca de R$ 200 que estavam em seus bolsos.
ENQUANTO EM SÃO PAULO
A região central de São Paulo vive algo semelhante. Delegacias da região contabilizaram 10,545 roubos de janeiro a junho deste ano. Em média, eram 58 por dia. Apesar de ser um região menor que outras da cidade, o centro de São Paulo concentra 20% dos furtos registrado na capital. Entre janeiro e maio deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, o número de roubos na região mais que dobrou, passando de 1,295 para 3,048.
Gangues operam em plena luz do dia, de bicicleta ou a pé. Eles escolhem um vítima e ataque em grupo: deixam a pessoa desamparada, perdida. Às vezes, até dez pessoas agem juntas contra uma única vítima. Após o roubo, eles fugiram. Uma testemunha disse que as gangues agem livremente e ninguém pode detê-las. Como resultado, assaltos são mais violentos.
Uma das vítimas da quadrilha conta que foi assaltado e agredido no primeiro dia de trabalho. O homem era apenas mais uma vítima da violência em São Paulo. Em junho, os roubos aumentaram 13%, em relação ao ano passado. Imagens capturadas por um canal de TV local mostram um grupo de três homens fingindo conversar enquanto esperam por suas vítimas. Quando um casal chega perto o suficiente, eles são surpreendidos pelos criminosos. Enquanto um deles soca e chuta um dos alvos na cabeça, outros três pegam o celular e a carteira. Em seguida, o trio foge.
O alvo preferido dos ladrões continua sendo o celular, que representa a maior parte dos roubos de itens. O bairro com os registros mais desastrosos é Campos Elíseos, onde ficava a Cracolândia.
A Cracolândia é outro desafio relevante na região central. Ações governamentais buscam controlar o tráfico e enviar dependentes da área para tratamento, mas isso tem gerado efeitos indesejados pela dispersão de viciados e traficantes. Muitos passaram a ocupar a Praça Princesa Isabel, que depois foi desocupada por mais ações de segurança pública. Um estudo realizado por membros do LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, vinculado à Universidade de São Paulo) identificou pelo menos 16 pontos no centro de São Paulo ocupados por usuários de drogas em decorrência das migrações da Cracolândia. O constante deslocamento de dependentes pelo centro também gerou conflitos com os moradores.
Em 11 de julho deste ano, houve um confronto entre comerciantes da região de Santa Ifigênia e usuários que estavam na Rua Gusmões. Vídeos gravados com câmeras de celulares mostraram funcionários dos estabelecimentos comemorando a dispersão após alguns dependentes serem atingidos por paus e pedras. No dia seguinte, os lojistas organizaram um protesto pedindo mais segurança. Atos semelhantes, porém, sem violência, foram articulados por moradores do bairro Campos Elíseos.
O Sindicato dos Guias de Turismo do Estado de São Paulo recomendou a suspensão dos passeios no centro histórico da capital devido a roubos e furtos. Segundo o presidente do sindicato, o a falta de segurança sempre foi um problema, mas piorou muito nos últimos três meses. Ela acrescenta que a situação é ainda mais complicado quando grupos de estrangeiros são guiados pelo centro.
As Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) diz que ações de policiamento e investigação na região do Largo da Concórdia foram intensificadas para identificar e prender assaltantes na região. o A SSP e a Polícia Militar ressaltam a importância de as vítimas registrarem qualquer ação criminosa na delegacia.,



