Na quarta-feira, 13 de julho, a disputa pelo avanço na Copa do Brasil entre Atlético-MG e Flamengo deve acontecer apenas em campo. No entanto, ao longo do dia, brigas e tumultos entre torcedores foram sendo registrados. Às 15h30 Rodovia BR-040 próximo à cidade de Petrópolis, distante 60 km do estádio onde seria disputado o jogo, dois grupos organizados de torcedores do Atlético-MG lutaram entre si. O incidente forçou Polícia Federal interdita a rodovia. Um facão foi apreendido, quatro pessoas foram presas e quatro ficaram feridas.
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Perto do início do jogo, a situação ficou ainda mais tensa. Torcedores dos dois times tentaram invadir o Estádio do Maracanã forçando as barreiras. O som das bombas assustou quem estava na região e um segurança ficou ferido.
O Brasil sofreu este ano uma escalada de casos de violência relacionados ao futebol com feridos. Desde brigas entre torcedores, dentro e fora dos estádios, até ataques diretos a jogadores e árbitros. Pesquisa realizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) indica que, para 68% dos torcedores, a violência é o principal motivo para não ir aos estádios.

ORIGEM DA VIOLÊNCIA NOS ESTÁDIOS DE FUTEBOL
Historicamente, a violência nos estádios acontecia apenas na Europa, onde hooligans protagonizaram imagens aterrorizantes. A tragédia do Estádio Heysel, em Bruxelas, Bélgica, em 29 de maio de 1985, quando torcedores da Juventus fugindo de torcedores do Liverpool, que haviam rompido a barreira que separava os grupos de torcedores adversários, foram pressionados contra um muro que desmoronou e 39 pessoas—principalmente italianos e torcedores da Juventus—foram mortos e 600 ficaram feridos no confronto.
No Brasil, os grupos de torcedores, que existiam desde a década de 1940, eram apenas bando de torcedores com bandeiras e camisas personalizadas, que viajavam por conta própria para torcer por seu clube onde quer que jogasse. No entanto, em no início da década de 1990, as coisas mudaram. Em 23 de janeiro de 1992, em jogo entre Corinthians e São Paulo pela Copa São Paulo de Futebol Júnior, Rodrigo de Gasperi, de 13 anos, foi morto por uma bomba caseira lançada por torcedores paulistas. enquanto assiste ao jogo. Em 20 de agosto de 1995, Marcio Gasparin, de 16 anos, foi morto a pauladas durante um confronto entre torcedores de São Paulo e Palmeiras, no estádio do Pacaembu, em São Paulo – a batalha deixou 102 feridos.
Desde então, a violência se tornou um lugar-comum. Na partida válida pela série B do campeonato brasileiro. As equipes de Grêmio e Cruzeiro se enfrentaram em agosto deste ano e, aos 27 minutos do primeiro tempo, o árbitro teve que interromper o jogo devido a uma briga nas arquibancadas. A polícia teve que intervir para separar a multidão. Minutos depois, o clima ficou ainda mais tenso. A luta foi generalizada e os torcedores que não quiseram participar tiveram que pular uma cerca de proteção para escapar. Ao todo, o jogo ficou parado por quase dez minutos. Vale lembrar que em 2021, foi neste mesmo local do estádio que um grupo de invasores depredou a cabine do VAR e atacou seguranças após a partida entre Grêmio e Palmeiras no Brasileirão, a competição de futebol da série A.
VIOLÊNCIA FORA DOS ESTÁDIOS
A partir do final de março de 2022, o Brasil presenciou um caso de violência no futebol a cada quatro dias durante 2022 e, segundo a Secretaria de Segurança Pública, os casos de violência entre torcedores e entre torcedores e jogadores “aumentaram consideravelmente” após o retorno do público aos estádios após o bloqueio do Covid 19.
Em junho deste ano, torcida organizada de Corinthians e Goiás lutou na Marginal Pinheiros, uma das principais avenidas de São Paulo, e paralisou o trânsito por cerca de duas horas. A Polícia Militar de São Paulo costuma escoltar torcedores dos times visitantes ao chegar na capital, mas brigas podem acontecer antes da chegada da polícia.

No Rio de Janeiro, durante o mês de agosto, dois casos de violência foram registrados apenas fora dos estádios do bairro de Copacabana. No dia 18, torcedores do Flamengo e do Fluminense brigaram em um bar. Imagens de câmeras de segurança mostram um grupo de torcedores do Flamengo chegando a um bar onde os tricolores estavam reunidos. As agressões só cessaram após a chegada da polícia. Em agosto 24, torcedores de Fluminense e Corinthians brigaram na orla de Copacabana horas antes do jogo entre suas equipes pela Copa do Brasil. Em imagens que circulam na internet, é possível ver que os grupos se enfrentam ao lado de um quiosque bem próximo ao Posto 4. Mais uma vez, a confusão só terminou quando os policiais militares, que patrulhavam a área, dispersaram a multidão.
RECEITA DE SUCESSO
Nos últimos 30 anos, britânicos, italianos, franceses e espanhóis começaram a combater com sucesso a violência nos estádios através da implementação de várias medidas. No livro Futebol e Violência, a professora da Unicamp Heloisa Helena Baldy dos Reis lista 21 ações sugeridas na década de 1980 pela União das Associações Europeias de Futebol (UEFA). Entre elas, proibição de venda de bebidas alcoólicas, policiamento ostensivo dentro e fora do estádio, incluindo agentes à paisana nas ruas e arquibancadas, revista rigorosa de torcedores, restrição de circulação do público a setores específicos do estádio e instalação de câmeras para permitir a identificação dos agressores. Além disso, a punição dos clubes cujos torcedores se envolveram em ações violentas foi muito mais rigorosa. Após o incidente de 1985, por exemplo, todos os clubes ingleses foram banidos das competições europeias por cinco anos.
Por outro lado, enquanto a Europa Ocidental abordou com sucesso o problema, o Brasil não é o único país onde o futebol muitas vezes se tornou sinônimo de violência nas arquibancadas. Nos últimos anos, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, além de Rússia e países do Leste Europeu e também países com menor tradição futebolística, como Israel e Indonésia, testemunham incidentes de violência. Nesses países, as torcidas organizadas se profissionalizaram e enriqueceram.
A RESPOSTA DAS AUTORIDADES BRASILEIRAS
Em 2003, foi criado um Estatuto do Torcedor para garantir direitos e deveres aos torcedores. Algumas das leis e proibições que vigoram hoje estão presentes no Estatuto desde a sua criação. Os membros da torcida organizada só podem entrar com seus uniformes, instrumentos musicais e bandeiras em uma parte exclusiva do estádio.
Desde 2013, quando torcedores do Vasco e do Athletico Paranaense se enfrentaram durante um jogo em Joinville (SC), que terminou com quatro pessoas feridas, muitos estados implementaram novas medidas contra a violência no futebol. Uma delas é manter um banco de dados sobre os participantes das torcidas organizadas, compartilhado com a polícia.
Em 2016, durante uma briga entre Palmeiras e Corinthians no Estádio do Pacaembu, um torcedor foi morto e 57 foram detidos. Este novo caso motivou o Ministério Público a solicitar à FPF (Federação Paulista de Futebol) que o as partidas do estado de São Paulo sejam disputadas com apenas um torcedor no estádio. A FPF acatou o pedido e determinou que apenas os adeptos da equipa da casa estariam no estádio nos derbies.
No entanto, casos de violência entre grupos organizados continuaram a ser relatados. Mas agora, torcedores lutam principalmente longe dos estádios. Para o delegado da Drade (Delegacia de Repressão aos Crimes Esportivos) – Delegacia da Polícia Civil de São Paulo -, Cesar Antônio Saad, a permissão de apenas torcedores de um time reduziu a violência nos estádios, mas transferiu as lutas para a periferia e outros locais públicos, como estações de trem e metrô. Para fugir das investigações, e por causa das regras restritivas, acabam montando emboscadas longe de onde a polícia concentra suas ações.
De acordo com os especialistas, a falta de punição efetiva é a principal causa de reincidência entre torcedores. Uma mudança legislativa seria o caminho para que as autoridades pudessem aplicar com mais rigor as leis referentes ao Estatuto do Torcedor e ao Código Penal.



