A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou nesta sexta-feira (08/08) a Operação Rota das Sombras, que visa um esquema de transporte ilegal do Comando Vermelho (CV) na Vila Kennedy, em Bangu, na Zona Oeste da cidade. As investigações revelaram que pelo menos 300 motociclistas taxistas foram coagidos a instalar um aplicativo desenvolvido pela facção. Estimativas indicam que o aplicativo controlado pela CV gerava R$ 1 milhão por mês. Durante esse período, plataformas oficiais como Uber e 99 foram proibidas de operar na região, deixando os moradores sem alternativa a não ser baixar o aplicativo controlado pela quadrilha.
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Slogan
O serviço, chamado Rotax Mobili, operou por três meses e foi removido das lojas Google Play e Apple Store há um mês. Enquanto estava ativo, impedia o funcionamento de aplicativos comuns de transporte por aplicativo nas áreas controladas, forçando os moradores a usar a plataforma gerenciada pelo Comando Vermelho (CV) e pela facção rival Amigos dos Amigos (ADA). Mototaxistas cadastrados podiam aceitar caronas de dentro da comunidade para qualquer destino na cidade, enquanto todas as rotas e dados pessoais dos trabalhadores eram monitorados pelos traficantes. Informalmente, o aplicativo era apresentado pelas gangues como "o único que passa pela barricada e te deixa na porta".
Motoristas Compelidos
Segundo o delegado Alexandre Cardoso, chefe da 34ª Delegacia (Bangu), a quadrilha tinha como objetivo cadastrar mais de mil profissionais. Os mototaxistas eram obrigados a participar, pagar uma taxa para instalar o aplicativo e contribuir com parte da renda da corrida para financiar o tráfico de drogas da quadrilha. Motoristas que tentassem usar outros aplicativos de transporte eram proibidos de operar na região, reforçando o controle exclusivo da quadrilha.
Grupos Organizados
As investigações mostraram que a operação criminosa era altamente estruturada, com dois grupos distintos: um responsável por intimidar e controlar os motoristas por meio de ameaças e extorsão, e outro encarregado de receber e administrar os recursos., que foram então integralmente transferidos para o traficante local. Para ocultar a origem ilícita do dinheiro, a facção utilizou empresas de fachada, dando ao aplicativo uma aparência de legalidade.
O dobro do preço
As corridas de mototáxi pelo aplicativo criado pela CV na Vila Kennedy podem custar até o dobro do preço das plataformas tradicionais. Uma simulação da Polícia Civil de um trajeto entre a Avenida Rio Branco e a Rua da Assembleia, no centro da cidade, mostrou um custo de R$ 35.90 no "aplicativo do crime", em comparação com R$ 15.96 em uma plataforma convencional. Para cada viagem, de 20% a 30% do valor era repassado diretamente para a quadrilha, além de uma mensalidade obrigatória paga pelos motoristas da comunidade.
Acordo amplo
A “Rotax Mobili” foi criada na sequência de uma reunião estratégica no início deste ano entre Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, líder da CV, e Celso Luís Rodrigues, conhecido como Celsinho da Vila Vintém, chefe da ADA. A autorização final veio de Jorge Alexandre Cândido Maria, conhecido como Sombra, líder do CV na Vila Kennedy. Empresas de fachada eram usadas para operar o aplicativo e criar uma aparência de legalidade. Segundo a polícia, a plataforma fazia parte de um acordo mais amplo entre as duas gangues para expandir as atividades criminosas, incluindo o controle sobre o transporte alternativo, principalmente na Zona Oeste, com planos de estender as operações para a Rocinha, na Zona Sul.
Análise:
O caso da Rotax Mobili ilustra como grupos criminosos organizados no Rio de Janeiro estão diversificando cada vez mais suas fontes de receita para além do tráfico tradicional de drogas, explorando ferramentas tecnológicas e o controle monopolista sobre serviços locais. Ao coagir mototaxistas a usar um aplicativo controlado por gangues, o Comando Vermelho (CV) e seus aliados conseguiram gerar uma renda substancial e recorrente, ao mesmo tempo em que restringiam o acesso a plataformas legítimas como Uber e 99.
As tarifas inflacionadas cobradas pelo aplicativo, somadas aos pagamentos obrigatórios dos motoristas, revelam o impacto econômico tanto sobre os consumidores quanto sobre os prestadores de serviços, além de reforçar a influência da quadrilha na comunidade. Além disso, a coordenação entre facções rivais, CV e ADA, sinaliza uma abordagem pragmática ao controle territorial e à geração de receita, sugerindo que as alianças criminosas são flexíveis e oportunistas, priorizando o lucro em detrimento das rivalidades tradicionais.
Fontes: Extra [1], [2], [3]; G1; A Folha de SP.



