A Polícia Militar de São Paulo instaurou 928 processos disciplinares administrativos para apurar indícios de uso indevido de câmeras corporais por seus agentes durante o primeiro semestre de 2026. Isso representa mais de cinco casos por dia no período e um aumento de 208% — mais de três vezes o número anterior — em comparação com o segundo semestre de 2025, quando foram instaurados 301 processos. Não há dados públicos disponíveis sobre o número de processos iniciados durante o primeiro semestre de 2025, o que impede uma comparação anual.
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Crescimento
Os dados constam de um relatório semestral elaborado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) sob a administração do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e finalizado em 20 de agosto. O documento também mostra um aumento no número de câmeras corporais em operação, de 11,900 em dezembro para 15,000 em maio e junho, representando uma expansão de 26%. Em comunicado, a SSP afirmou que qualquer comparação envolvendo o número de processos abertos para apurar possíveis infrações deve levar em conta o crescente número de câmeras operacionais portáteis (COPs) em uso, bem como o volume de gravações geradas. Somente em junho, mais de um milhão de vídeos foram produzidos.
Após os disparos
Também têm ocorrido casos recorrentes em que policiais ativaram suas câmeras corporais somente após disparos já terem sido efetuados. Essa prática impede a gravação de supostos confrontos desde o seu início e pode prejudicar as investigações da Polícia Civil sobre incidentes fatais envolvendo policiais. A ativação tardia viola as diretrizes emitidas pelo comando geral da Polícia Militar, que exigem que as câmeras estejam ativas durante 16 tipos específicos de situações, incluindo operações policiais, abordagens e inspeções.
investigações
Dos 928 processos abertos entre janeiro e junho de 2026, 175 foram concluídos, resultando em 107 sanções disciplinares: 81 advertências, 25 detenções disciplinares, nas quais os oficiais são confinados aos seus batalhões, e uma advertência formal. Entre os problemas identificados por meio de auditorias, 7.6% envolviam suposta obstrução da câmera, enquanto o descumprimento das normas aplicáveis representou 29.67% dos casos. As regras que regem o uso do equipamento estão detalhadas em uma diretiva de 26 páginas assinada em 2025 pelo então Comandante-Geral José Augusto Coutinho. A maioria dos casos, representando 62.52% dos registros, foi classificada como “categorização incorreta”. O relatório não fornece mais detalhes sobre as supostas violações cometidas nesses casos.
ativação
As gravações das câmeras corporais utilizadas pela Polícia Militar de São Paulo anteriormente funcionavam continuamente durante todo o turno do policial. O equipamento, originalmente fornecido pela Axon, foi substituído no ano passado após um novo processo de licitação iniciado pela administração do governador Tarcísio de Freitas. O modelo da Motorola atualmente em uso exige que os policiais ativem a câmera manualmente, embora a ativação também possa ser feita remotamente pela central de emergência 190 ou via Bluetooth. A mudança nos procedimentos de ativação resultou na perda de imagens relevantes em alguns incidentes, incluindo a morte do empresário Carlos Alves Vieira durante um confronto com policiais de Rota. Nesse caso, a câmera corporal foi ativada somente após os disparos. As circunstâncias do incidente ainda estão sendo investigadas.
Análise:
Os 928 processos disciplinares abertos no primeiro semestre de 2026 não devem ser desconsiderados; eles representam uma parcela significativa (6.2%) das 15,000 câmeras corporais atualmente em operação. Além disso, a importância reside também na natureza dos incidentes investigados, particularmente os casos envolvendo o uso de força letal pela polícia. São precisamente nessas situações que a obtenção de provas audiovisuais confiáveis é crucial para determinar se os policiais agiram dentro dos padrões legais e operacionais. O aumento de 208% nos processos em comparação com os seis meses anteriores pode refletir, em parte, a expansão do programa de câmeras e o maior volume de imagens disponíveis, mas também demonstra que a conformidade continua sendo um sério desafio institucional.
A transição da gravação contínua para um sistema ativado manualmente representa uma mudança significativa no ambiente probatório em torno de confrontos policiais. Quando as câmeras são ativadas apenas pelos policiais ou por meio de gatilhos externos, há uma maior possibilidade de que momentos cruciais imediatamente anteriores a um confronto não sejam documentados, e a ausência de imagens pode enfraquecer as investigações e reduzir a confiança pública, principalmente quando um confronto termina em morte.
Fontes: A Folha de SP.



