A segunda edição do estudo Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, divulgada na terça-feira (04/08) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta para um aumento de 2.8% no efetivo em comparação com 2023, totalizando 818,521 profissionais ativos em órgãos municipais, estaduais e federais. Uma das principais conclusões do estudo é a rápida expansão da Guarda Municipal, presente em 1,384 municípios e que vem desempenhando cada vez mais funções antes restritas à polícia, apesar da falta de supervisão externa e das estruturas de governança necessárias para garantir operações eficazes e transparentes. Para estimar o tamanho dessas forças, o FBSP cruzou dados de três bancos de dados distintos, identificando aproximadamente 107,457 agentes ativos nas 1,384 Guardas Municipais mapeadas, um aumento de 12.8% em dois anos.
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Falta de Supervisão
Segundo o relatório, a fiscalização insuficiente permitiu o surgimento de graves irregularidades. Em 44 municípios brasileiros, o número de agentes da Guarda Municipal ultrapassa os limites legais estabelecidos pelo Estatuto da Guarda Municipal , com algumas corporações locais empregando até três vezes o número permitido de efetivos. Diante dessa situação, a FBSP alerta para o risco da crescente “policialização” desses órgãos, sem os mecanismos de responsabilização, supervisão e controle exigidos das polícias estaduais.
Crise de gestão: mais chefes do que subordinados
O relatório da Raio-X também identifica uma inversão da hierarquia tradicional na Polícia Militar e no Corpo de Bombeiros Militar, mostrando que ambas as forças agora têm mais sargentos do que soldados rasos. Em todo o país, a Polícia Militar conta com 129,402 sargentos, em comparação com 117,142 soldados. De acordo com o estudo, esse desequilíbrio resulta, em grande parte, do uso de promoções como mecanismo para aumentos salariais. Essa prática reduz a capacidade operacional nas ruas, distorce as estruturas de carreira e aumenta os custos administrativos e de pessoal.
Polícia Penal
Enquanto a Guarda Municipal continua a se expandir, as forças policiais responsáveis por investigações criminais e pela custódia de detentos estão perdendo efetivo e capacidade operacional. A Polícia Penal sofreu uma redução de 3% no seu quadro de funcionários, mesmo com o crescimento da população carcerária. Ao mesmo tempo, a Polícia Civil opera com apenas 55.2% do efetivo considerado necessário para um desempenho adequado. O relatório também aponta para a vulnerabilidade estratégica dos bombeiros. O Brasil possui apenas 0.3 bombeiro para cada 1,000 habitantes, uma carência que se torna particularmente grave diante da crescente frequência e intensidade de desastres relacionados ao clima.
Desigualdade salarial e o ônus fiscal dos aposentados
Segundo o estudo, os gastos com segurança pública somam aproximadamente R$ 230 bilhões por ano, o equivalente a 1.8% do PIB brasileiro. Esses recursos, no entanto, são distribuídos de forma desigual entre os estados e as categorias profissionais. Para efeito de comparação, um delegado de polícia ganha, em média, R$ 41,200 no Ceará e R$ 23,100 em Minas Gerais. No início da carreira, um policial administrativo ganha, em média, R$ 8,600 na Paraíba, enquanto a média nacional é de R$ 12,900. O sistema previdenciário também é identificado como um desafio fiscal complexo a longo prazo. O Brasil possui 424,415 aposentados das forças de segurança pública estaduais, representando um aumento de 6% desde 2023. Embora esses aposentados representem apenas 22% do total de aposentados do Poder Executivo, eles correspondem a 34% da folha de pagamento total desse grupo. Outro dado significativo é que os aposentados do setor de segurança pública recebem, em média, 24% a mais do que os policiais da ativa.
Diversidade de gênero
A representatividade feminina continua sendo um grande desafio em todas as instituições de segurança pública. As mulheres representam apenas 13.3% do efetivo da Polícia Militar e 28.4% da Polícia Civil. Sua presença é ainda mais limitada em cargos de liderança sênior. Na Polícia Militar, as mulheres ocupam apenas 6.9% dos postos de coronel. O estudo identifica diversas barreiras à ascensão na carreira, incluindo infraestrutura básica insuficiente, acesso limitado a creches, políticas de licença inadequadas e uma cultura organizacional predominantemente masculina que restringe o acesso das mulheres a cargos de comando e tomada de decisão.
Banco de dados e metodologia
O estudo baseia-se em uma compilação de informações públicas coletadas nos portais de transparência das 27 unidades federativas e órgãos federais do Brasil, bem como em dados obtidos por meio de pedidos protocolados com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). Para mapear os efetivos da Guarda Municipal, a metodologia cruzou, pela primeira vez, três bases de dados: o Levantamento de Informações Básicas do Município (MUNIC), produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); o Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS), mantido pelo Ministério do Trabalho; e o Censo da Guarda Municipal, conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Análise:
A expansão da força de segurança pública no Brasil reflete o crescente reconhecimento de que o crime se tornou um dos desafios mais urgentes das políticas públicas do país. No entanto, o relatório sugere que o aumento do efetivo por si só dificilmente produzirá melhores resultados em segurança se os desequilíbrios institucionais persistirem. O rápido crescimento da Guarda Municipal ilustra esse dilema. Criadas originalmente para proteger o patrimônio municipal, muitas dessas forças estão gradualmente assumindo funções policiais tradicionalmente exercidas por órgãos de polícia estaduais. Sem treinamento padronizado, diretrizes legais claras e mecanismos robustos de responsabilização, essa expansão pode gerar inconsistências nas práticas de policiamento e aumentar o risco de disputas operacionais e jurídicas, especialmente porque o Supremo Tribunal Federal ampliou o escopo dos poderes de policiamento municipal nos últimos anos.
Os resultados também expõem fragilidades estruturais nas instituições policiais tradicionais do Brasil. A escassez de investigadores da Polícia Civil afeta diretamente a capacidade do Estado de solucionar crimes, desmantelar organizações criminosas e conduzir investigações baseadas em inteligência, enquanto a redução no efetivo da Polícia Penal ocorre em um momento em que facções criminosas continuam a coordenar atividades criminosas de dentro dos presídios. Igualmente significativa é a distorção na estrutura de carreira da Polícia Militar, onde o crescente número de cargos de supervisão em comparação com os policiais da linha de frente pode reduzir gradualmente a disponibilidade de pessoal para patrulhamento preventivo. Esses desafios demonstram que a gestão da força de trabalho e a organização institucional podem ser tão importantes quanto o número total de policiais na avaliação da eficácia da segurança pública.
Fontes: Fonte Segura.



