Na edição deste mês, divulgamos a segunda parte do Panorama da Segurança no Brasil com base em dados divulgados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023 e fontes adicionais. Aqui, continuamos o debate sobre as condições de segurança do Brasil, abordando importantes modificações na dinâmica dos crimes contra o patrimônio, com a queda dos casos de roubos e a ascensão das fraudes e sequestros expressos. Há também uma seção dedicada à discussão da violência política persistente e outras manifestações de violência comuns na sociedade, como crimes de ódio; violência contra mulheres e nas escolas.
É importante lembrar que a primeira parte desta série foi dedicado principalmente a crimes violentos contra a vida e temas relacionados, que é um assunto bastante preocupante na segurança pública do Brasil, apesar das melhorias recentes. Foi apresentado o cenário mais atualizado dos crimes contra a vida, utilizando dados sobre as mortes violentas intencionais (IVD) por região e por estado. Então, abordamos o tema da evolução do mercado de armas de fogo, que tem estado no centro dos debates sobre violência. O papel de o crime organizado no país também foi discutido como o principal causador da violência, seguido pelo descrição de áreas de especial preocupação devido à influência de grupos criminosos, que continuam a expandir-se. Nas áreas urbanas, a questão crítica do consumo de drogas e a proliferação de crimes associados foi explicada, além da perspectiva negativa trazida pelas novas drogas sintéticas. Por último, o foi descrito o estado geral do sistema prisional brasileiro, como forma de alerta para os riscos ele se concentra.
Resumo
Anualmente, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) publica o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que é o retrato mais amplo da segurança pública brasileira. Dados relevantes de crimes perpetrados em todos os estados são coletados, organizados e analisados, produzindo uma descrição única e unificada da situação atual e das tendências em curso no setor. Com base neste documento, recentemente divulgado, e noutros dados adicionais, os investigadores constataram que, em termos de crimes contra o património, os roubos estão a diminuir, devido às mudanças no estilo de vida das pessoas. Em contrapartida, aumentou o número de fraudes e furtos/roubos de celulares, principalmente aqueles realizados no ambiente virtual. A dinâmica da sociedade não só influenciou os crimes contra a propriedade, mas também impulsionou outros tipos de crimes que estão ganhando alcance. É o caso dos crimes políticos, estimulados pela polarização política em curso. Também aqui o mundo digital desempenha um novo papel importante ao dar um espaço anónimo às pessoas afiliadas a ideologias de ódio para se conectarem, discutirem o tema, planearem e estimularem ataques, como os perpetrados recentemente nas escolas.
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Crimes contra a propriedade – Ladrões saem, golpistas entram
De acordo com a pesquisa FBSP 2023, Os dados estatísticos de crimes contra a propriedade indicam uma forte reconfiguração em curso dos crimes cometidos, especialmente desde a pandemia de Covid-19. Para os pesquisadores, criminosos iniciaram uma migração de algumas modalidades para outras devido a fatores impostos pela crise sanitária. Após o fim do cenário pandêmico, algumas transformações foram revertidas, mas algumas permaneceram.
Roubos e Furtos
Como roubos e furtos dependem em grande parte do fluxo de pessoas que circulam pelas cidades, que foi severamente restringido pelas medidas de isolamento social, o o número de casos notificados dessas categorias diminuiu. Crimes envolvendo roubo e invasão de domicílio tornaram-se mais complexos para os criminosos à medida que as famílias começaram a passar mais tempo dentro de suas casas. Além disso, havia menos pedestres, veículos e mercadorias circulando, dando menos chances de ataque.
Até 2022, porém, algumas modalidades criminosas retomaram tendências pré-pandemia, com crescimento de roubos e furtos de celulares e veículos. Outros, porém, continuaram caindo, como é o caso de roubos a instituições financeiras (-21.9%), cargas (-4.4%), estabelecimentos comerciais (-15.6%), pedestres (-4.4%) e residências (-13.3%).







Como consequência da diminuição do número destes subtipos de roubos, o número total de roubos foi reduzido. Em 2022, caiu 5.9%, passando de 979,644 casos para 926,423, o que resultou em 456.2 roubos por 100,000 mil habitantes.

Roubos e Furtos de Veículos
Entre os subtipos que reverteram estão roubos e furtos de veículos. Alguns dos tipos de crimes contra o patrimônio mais preocupantes no Brasil, principalmente os roubos, devido ao risco de violência e trauma. Em 2022, foram registrados 373,225 roubos/furtos de veículos no país. Quando as medidas de isolamento social entraram em vigor, elas teve forte redução, mas cresceu 8% no último ano. Apesar do aumento em 2022, os índices de roubos e furtos de veículos vêm diminuindo em vários estados brasileiros há praticamente uma década, movimento atribuído a leis que reprimem a venda ilegal de peças retiradas de veículos roubados. A falta de regulamentação deste comércio online pode dificultar as melhorias observadas nos últimos anos. A maioria dos incidentes são furtos (60.3%) – sem qualquer violência envolvida –, o que representa um factor positivo, mas sublinha a necessidade de proteger adequadamente os veículos – e os pertences que transportam – quando estacionados.

Roubos e furtos de celulares
Outra categoria que reverteu a queda observada no período da pandemia foi o roubo e furto de celulares, cujos registros acumularam 999,223 ocorrências em todo o país em 2022. Isto representa um crescimento de 16.6% em relação ao ano anterior. Além disso, de 2018 e 2021, os números mostram que a maioria dos casos são roubos – em média, 56.5%. Embora em 2022 essa diferença tenha diminuído, o resultado indica como modus operandi, os criminosos usam a violência ou a ameaça de violência como principal método para tirar o dispositivo das suas vítimas.

Para os especialistas, a razão dessa reversão é o papel central que os celulares hoje desempenham na sociedade. Os aparelhos são uma ferramenta multifuncional, com a qual as pessoas se comunicam, trabalham, carregam documentos pessoais, realizam transações financeiras etc. E isso foi agravado pelas limitações impostas pela crise sanitária. Assim, vendo que o as medidas de isolamento social perturbaram o mundo do crime, aumentaram os riscos e limitaram as oportunidades de ganhos com as ofensas habituais, os criminosos perceberam que o roubo de celulares era uma excelente alternativa. Os telefones podem ser vendidos, desmontados para peças e, se desbloqueados, podem dar acesso a perfis, e-mails, dados pessoais, contas bancárias e muito mais.

Uma vez dentro dos aplicativos do banco, os criminosos podem transferir todo o dinheiro. No entanto, as possibilidades são ainda maiores, porque eles são capazes de perpetrar uma série de golpes, passando-se por vítimas, e pedir dinheiro a amigos e se infiltrar em suas contas, obter empréstimos e usar dados pessoais dentro do telefone para muitos outros truques.
Golpes
Em 2021, as fraudes eletrónicas tornaram-se tão populares que as autoridades tiveram de adicioná-las à lei. Em 2022 foram registradas 200,322 ocorrências, aumento de 65.2% em relação a 2021. Mas o quadro real pode ser pior, já que os dados disponíveis excluem cinco das Unidades da Federação mais populosas do país (BA, CE, RJ, RS e SP) e o Rio Grande do Norte.

Os criminosos aproveitaram-se das mudanças sociais. Em 2019, 74% da população tinha acesso à internet, em 2021 passou para 81%. No mesmo período, o número de internautas que adquiriram um produto ou serviço online passou de 39% para 46%.
Ainda, tudo que pudesse contornar o “fator de isolamento” criado pela pandemia também era uma alternativa, assim, todos os tipos de golpes aumentaram. Em 2019, ano pré-pandemia, foram registrados 523,820 casos. Em 2022, esse total chegou a 1,819,409, um aumento de 247%. O número equivale a uma média de 207.7 casos registrados por hora no país. Entre 2021 e 2022, o crescimento dos registros de fraudes ficou em torno de 37.9%.
Sequestros Expressos
Números fornecidos pelas forças policiais de alguns estados do Brasil indicam que os sequestros expressos aumentaram nos últimos anos. Embora o FBSP não mantenha registros nacionais desse tipo de crime, ao utilizar as considerações feitas sobre as forças que aumentam o número de furtos e roubos de celulares, é possível concluir que os mesmos fatores provavelmente influenciaram os casos de sequestros expressos. Além disso, a implementação do PIX, um novo método de transação financeira, mais simples e muito mais rápido, provavelmente desempenhou um papel nisso.
Por exemplo, em São Paulo, o número de sequestros atingiu o nível mais alto em 15 anos. Foram 165 registros de janeiro a setembro de 2022, um aumento de 75% em relação aos três primeiros trimestres do ano anterior (94 notificações). E o número já ultrapassa todo o ano de 2021 (160 casos). No estado do Rio de Janeiro o aumento também foi forte, os casos aumentaram 75% de 2021 para 2022. O total passou de 113 para 198 casos.

Outros modus operandi para sequestros chamaram a atenção. São uma variação que utiliza aplicativos de namoro para atrair vítimas. É marcada uma data e o local do encontro é onde a pessoa será sequestrada. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, mais de 90% dos sequestros registrados em São Paulo são feitos a partir de aplicativos de relacionamento.
Violência política, crimes de ódio, violência contra as mulheres e muito mais
Além dos crimes contra a propriedade e da violência de gangues, o Brasil sofre com uma série de outras questões que têm aumentado e causando preocupação entre as autoridades, como violência política, crimes de ódio, violência contra mulheres, violência nas escolas e outros.
Violência política
Em 2022, o país teve uma das eleições presidenciais mais disputadas. O choque ideológico intensificou-se e, sob extrema polarização política, explodiram episódios de violência. De acordo com o trabalho Violência Política e Eleitoral no Brasil, Foram notificados 266 casos de violência política no ano passado. Este é o maior resultado reportado desde 2016, quando começou a pesquisa contínua. Do total foram nove assassinatos, 25 tentativas de homicídio, 96 ameaças, 63 agressões, 65 delitos e outros. Os casos relatados mês a mês mostram que os incidentes tendem a aumentar perto das eleições.
Os políticos são o principal alvo dos episódios de violência, especialmente os vereadores. Para controlar este cenário, as autoridades prepararam novas leis contra este tipo de crime. Em 24 de julho, foi enviado à Câmara Federal um projeto de lei para endurecer as penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito, inclusive aumentando a pena para 40 anos de prisão para quem atentar contra a vida de políticos.
Violência nas Escolas
Outro tipo de violência que surgiu e vem ganhando importância devido aos novos ataques consecutivos são os ataques nas escolas. Levantamento realizado pelo Instituto Sou da Paz aponta que em seis meses, 2023 já tem o maior número de ataques em escolas brasileiras pelo menos desde 2002. Desde então, foram registadas 25 ocorrências, sete das quais em 2023. O recorde anterior foi alcançado em 2022, com seis casos. Antes disso, em 2019, ocorreram três ataques dentro de instituições de ensino. Os casos parecem crescer a cada ano.

Além disso, o FBSP destaca que, durante uma pesquisa com diretores de escolas de todo o Brasil, 1,295 teriam tido episódios de tiroteios e balas perdidas em 2021.
O Governo Federal tomou uma série de medidas para conter os casos. Foi criado um grupo de especialistas para começar a desenvolver uma política nacional contra a violência nas escolas. Foram destinados R$ 150 milhões para reforçar o patrulhamento escolar. Foi anunciado que funcionários serão treinados para mediar conflitos. 40 novos oficiais foram adicionados a uma equipe que monitora ambientes online em busca de ameaças.
Ódio e crimes sexuais
As investigações policiais constataram que muitos dos ataques nas escolas são incentivados através de fóruns online e algumas redes sociais, onde é publicado muito conteúdo com discurso de ódio. Por exemplo, em Julho, as investigações grupos no Discord e TikTok que promovem conteúdo envolvendo exploração sexual; pedofilia; automutilação; racismo; abuso de animais; incitação ao assassinato; e violência contra minorias, homossexuais, mulheres etc.
As questões observadas online são uma nova manifestação do que acontece nas ruas na forma de crime. Em 2022, o FBSP constatou que havia aumento de 35% nos casos de racismo e de 29.9% nos crimes de ofensa racial. Os racismos por homofobia ou transfobia aumentaram 53.6% e as agressões violentas contra pessoas LGBTQI+ aumentaram 13.4%.
Apesar de diversas iniciativas para conter a violência contra as mulheres, como a Patrulha Maria da Penha, muitos indicadores pioraram. O número de feminicídios aumentou 6.1%, acumulando um total de 1,437. O assédio sexual teve um aumento de 49.7% e foram notificados 6,114 casos. Ainda, o resultado que se destacou foi o recorde no número de estupros, foram registrados 74,930, o maior resultado já visto, e um aumento de 8.2% em relação a 2021, especialmente porque se sabe que a violência contra as mulheres é largamente subnotificada.



