A Polícia Federal e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro lançaram operação Batismo na segunda-feira (18/12). A ação visa investigar a participação e articulação política realizadas pela deputada estadual Lucinha (PSD), que atuaria em conjunto com um assessor para beneficiar uma milícia privada que atua na Zona Oeste do Rio. O tribunal ordenou o afastamento imediato do parlamentar das funções legislativas, proibição de manter contactos com determinados agentes públicos e políticos, bem como proibição de comparecimento à casa legislativa.
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Segundo a investigação, Lucinha é apontada como braço político do miliciano Luis Antônio da Silva Braga, conhecido como Zinho, considerado chefe da maior milícia do Rio. A quadrilha de Zinho atua em bairros da Zona Oeste, como Campo Grande e Santa Cruz.
A investigação sobre Lucinha e sua assessora, Ariane Lima, é conduzida pela Procuradoria-Geral da República (PGJ). O procedimento foi encaminhado à PGJ depois que conversas entre membros de gangues que mencionaram a política foram interceptadas.
Agentes federais estiveram na semana passada no gabinete do parlamentar na Assembleia Legislativa (Alerj) e em endereços a ela vinculados, onde foram apreendidas duas pistolas, R$ 148 mil em dinheiro e documentos.
Quem é Lucinha
Deputada estadual Lúcia Helena Pinto de Barros, a Lucinha, 63 anos, é da Zona Oeste do Rio, iniciou na vida pública como militante do Movimento Popular Organizado, na década de 1980. Atualmente no PSD, ela tem dois filhos —um deles, Junior da Lucinha, é secretário municipal de Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida da cidade do Rio.
Membro da milícia
Segundo fontes da PF e do Ministério Público, A própria Lucinha é integrante da milícia, que em outubro passado organizou um motim com o incêndio de 35 ônibus no Rio, depois que o sobrinho e braço direito do chefe da organização morreu em confronto com a polícia.
A deputada foi chamada de “madrinha” e realizou diversas missões para a organização criminosa. A investigação, que ainda não foi encerrada, investiga se Lucinha usou seu mandato para pressionar operações da Polícia Civil contra um grupo rival de Zinho. Supostamente, a milícia de Zinho pagou delegacias da Polícia Civil para realizar uma megaoperação contra seu grupo rival na Zona Oeste do Rio.
Em uma das missões mais ousadas dentre as mapeadas pela PF, Lucinha trabalhou para afastar o tenente-coronel Claudio Eduardo Lopes de Oliveira do comando do Batalhão PM, em Santa Cruz, área dominada pela milícia.
Paralelamente, Lucinha também trabalhou pela saída do major Elton de Lima Marques da 8ª Delegacia de Polícia Judiciária, que investiga a participação de policiais e ex-policiais em milícias do tráfico.
Em outra ocasião, Lucinha ajudou a libertar quatro milicianos flagrados em flagrante numa operação do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidões da PM.
desenvolvimento
A ação desta segunda-feira é um desdobramento da Operação Dinastia, deflagrada pela PF em agosto de 2022 com o objetivo de desmantelar uma organização criminosa formada por milicianos que atuam na Zona Oeste.
Na terça-feira (19/12), Foi lançada a Operação Dinastia 2, uma nova tentativa de prisão de Luis Antonio da Silva Braga, conhecido como Zinho. A operação terminou com 5 pessoas presas e Zinho continua foragido. Segundo a PF, o foco nesta 2ª fase é desmantelar o núcleo financeiro do grupo.
Os promotores destacam que grandes construtoras foram obrigadas a pagar mensalmente aos paramilitares por cada obra que construíam e até por obras realizadas pela Prefeitura do Rio. Mas quando a obra termina e o projeto é construído, a extorsão não para. Segundo o Ministério Público, os condomínios são obrigados a pagar “taxas de portaria”, sendo os custos repassados aos seus moradores.
Análise:
As milícias são grupos paramilitares que competem com os traficantes de drogas por espaço na subjugação de comunidades e favelas. São compostos majoritariamente por policiais ativos e inativos e demais agentes de segurança pública. Estima-se que as milícias estejam presentes em pelo menos 42 favelas. Após mais de uma década de expansão e fortalecimento, os grupos de milícias dominam e exploram regiões que se espalham por dezenas de bairros do Rio e das cidades vizinhas à capital. Além disso, lutam por novos territórios com arsenal militar. Estes grupos também corrompem, matam e infiltram-se em instituições estatais. Historicamente, têm investido no desenvolvimento de ligações com políticos e muitos foram eleitos para o conselho municipal. Investigações recentes apontam para a participação ativa da deputada estadual Lucinha e de seu assessor na organização criminosa, especialmente na articulação política com órgãos públicos visando atender aos interesses do grupo miliciano.



