A ofensiva expansionista liderada pelo Comando Vermelho (CV) transformou a Baixada de Jacarepaguá em uma zona marcada por conflitos e medo. Nos últimos dois anos, a facção atacou pelo menos dez comunidades na nova Zona Sudoeste do Rio, como parte de uma estratégia para formar um corredor contínuo de controle territorial ligando o Recreio dos Bandeirantes ao Maciço da Tijuca, no Itanhangá. Para resistir ao avanço, favelas controladas por milícias e pelo Terceiro Comando Puro (TCP) reforçaram suas posições com novos recrutas, armas e fortificações. Na segunda-feira (13/10), a Polícia Militar prendeu 14 suspeitos e apreendeu 12 fuzis, 43 carregadores, duas pistolas e um revólver em uma estrutura abandonada dentro da Colônia Juliano Moreira, perto do Morro Dois Irmãos, em Curicica.
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Sem reação
Com o grupo foram apreendidos quase mil cartuchos de munição, e o arsenal apreendido foi avaliado em R$ 1 milhãoOs suspeitos dormiam no segundo andar de uma estrutura inacabada, escondida em uma área florestal. O vigia foi pego de surpresa pela polícia enquanto estava distraído com o celular. Nenhum tiro foi disparado e nenhum dos suspeitos resistiu à prisão. Segundo as autoridades, três deles tinham ligações anteriores com atividades da milícia, enquanto os demais não tinham antecedentes criminais.
Milícia
Atualmente, entre Vargem Grande, Vargem Pequena e Itanhangá, o controle paramilitar está limitado às comunidades de Colônia, Dois Irmãos, Curicica e Rio das Pedras – esta última considerada o berço das milícias no Rio de Janeiro. Apesar das repetidas ofensivas, Rio das Pedras tem resistido a ataques persistentes do Comando Vermelho, que já tomou territórios vizinhos como Muzema, Morro do Banco, Sítio do Pai João e Tijucas—todos localizados ao longo da orla da Floresta da Tijuca.
Ataques repetidos
O Morro Dois Irmãos tem sido alvo recorrente das operações da CV. Em 28 de setembro, traficantes da Cidade de Deus iniciaram uma invasão, o que levou a uma rápida resposta policial no dia seguinte, que resultou na apreensão de três fuzis. A milícia então explorou o estado debilitado dos invasores para retomar o controle da favela. Seis membros do CV foram mortos, e seus corpos foram encontrados dentro de um carro abandonado na Estrada dos Bandeirantes.
Gardenia Azul
O Comando Vermelho também sofreu um grande revés durante uma operação da Polícia Civil em 9 de outubro. Ygor Freitas de Andrade, conhecido como Matuê, identificado como um dos “guerreiros” da facção, foi morto em tiroteio com policiais no Morro da Chacrinha, Praça Seca.Matuê, rotulado como chefe do tráfico de Gardênia Azul e Cidade de Deus, foi acusado do assassinato de uma mulher de 23 anos em 2023. O crime foi aparentemente ordenado por Edgar Alves de Andrade, vulgo Doca, líder sênior do CV. Segundo os investigadores, Matuê também esteve envolvido no assassinato do policial do CORE José Antônio Lourenço, 39 anos, assassinado na Cidade de Deus.
Base na Vila Kennedy
Usando a Vila Kennedy como base para suas incursões, traficantes de drogas travam uma intensa guerra de guerra nas áreas do Jardim Bangu e do Catiri, na Zona Oeste do Rio, há pelo menos dois anos. A guerra, que está espalhando pânico entre os moradores, faz parte do movimento expansionista da facção, que busca formar um "cinturão" ao redor do Complexo de Gericinó, um conglomerado de 22 unidades prisionais também localizado na Zona Oeste da cidade. Catiri se tornou um ponto estratégico para a formação do cinturão devido à sua proximidade com os presídios. Da Vila Kennedy, eles também se deslocam para realizar operações em Guaratiba, Santa Cruz e Campo Grande.
Base de Jacarepaguá
Nas comunidades da região do Itanhangá, na Zona Sudoeste do Rio, o clima não é diferente. Por muito tempo considerados os mais pacíficos da cidade, eles agora sofrem com constantes disputas territoriais. Atualmente, o tráfico de drogas controla completamente o Morro do Banco, a Tijuquinha e a Muzema, antes dominados por grupos paramilitares, bem como uma pequena parte de Rio das Pedras, berço das milícias cariocas. O desejo do CV de controlar a região da Grande Jacarepaguá já dura cerca de uma década. Para a facção, além de ser uma demonstração de força, essa área é estratégica porque permite à organização formar um “cinturão” ao redor da Floresta da Tijuca — o que facilitaria fugas em caso de operações policiais ou invasões de rivais.. O interesse do CV pela região se justifica porque é de Jacarepaguá que partem os ataques para atingir toda a zona sudoeste e oeste da cidade.
Análise:
A recente onda de conflitos territoriais na Baixada de Jacarepaguá revela como o cenário criminal do Rio de Janeiro continua a evoluir para uma rede complexa e volátil de grupos armados concorrentes. A campanha expansionista do Comando Vermelho em direção ao Maciço da Tijuca ilustra uma mudança estratégica: em vez de apenas defender pontos de venda de drogas, a facção busca estabelecer um corredor territorial contínuo conectando zonas urbanas estratégicas. Essa mudança visa garantir rotas de fuga, controle logístico e acesso a áreas econômicas emergentes na Zona Sudoeste da cidade. A escolha dessa região — anteriormente conhecida por seus espaços verdes e potencial de crescimento urbano — demonstra como o crime organizado se adapta para explorar a expansão imobiliária e a fraca presença do Estado.
A resistência das milícias e do Terceiro Comando Puro reflete a natureza multidimensional do conflito. Ao contrário das facções tradicionais do tráfico, as milícias combinam controle territorial com exploração econômica, cobrando dos moradores por serviços como segurança, transporte e energia elétrica. Esse modelo de negócio lhes deu profundas raízes sociais, especialmente em comunidades como Rio das Pedras e Curicica, onde continuam resistindo às ofensivas do CV.



