O ataque ao caixa da Brink's em Confresa, Mato Grosso, no domingo de Páscoa, trouxe à luz um fenômeno chamado “Novo Cangaço". Batizado em alusão ao bando de Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), Lampião, que invadiu e saqueou aldeias do Nordeste na primeira metade dos anos 1900, esse tipo de crime, na opinião de especialistas, mudou de patamar no recentemente.
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Não se trata mais apenas de explodir agências bancárias e caixas eletrônicos em cidades pequenas, quase sem forças policiais. O que surgiu é visto como uma ameaça à segurança nacional. Para os especialistas, o “Novo Cangaço”está ligada ao domínio das cidades, com criminosos que subjugam a população e impõem submissão à polícia, que não possuem armas pesadas do mesmo alcance e em igual quantidade, além de carros potentes e blindados, sem falar nos drones. Estes, combinados com explosivos, são usados por bandidos para investir contra bancos, sociedades de valores mobiliários e cooperativas de crédito. As quadrilhas não procuram um cofre qualquer, mas sim aqueles que, no dia e horário marcados, acumulam uma grande quantia de dinheiro.
Investimentos
Especialistas no assunto dizem que os criminosos investem mais de R$ 1 milhão na infraestrutura de ataques, incluindo armas, locomoção, estadias, mapeamento e vigilância. É uma ação de profissionais que tem como objetivo dissuadir a polícia. No crime de Confresa, município de 30,000 mil habitantes, estima-se que a movimentação e os aparelhos utilizados pelos cerca de 30 homens custaram cerca de R$ 2 milhões.
Spreads de estratégia
Ricardo Matias Rodrigues, professor de Ciência Policial e Segurança Multidimensional da Escola de Magistratura Federal do Paraná, afirma que a dominação das cidades é um fenômeno criminoso brasileiro. Ele avisa que, se esses criminosos não forem combatidos de forma eficiente, as táticas violentas tendem a se espalhar não apenas pelo Brasil, mas também pelos países vizinhos, espalhando-se como uma nova tecnologia criminosa, utilizada para diversos fins.
Números
No Brasil, ataques como o de Confresa não são novidade e não dependem do tamanho das cidades. De janeiro de 2020 a abril deste ano (2023), segundo levantamento baseado em notícias policiais, ocorreram pelo menos 36 casos semelhantes. A maioria em São Paulo e Bahia.
Estudo de Rodrigues aponta que o primeiro controle de cidade realizado no Brasil com essas novas táticas ocorreu em novembro de 2015 em Campinas (SP), quando mais de 20 homens com fuzis, metralhadoras e explosivos controlaram o entorno de uma empresa de transporte e guarda de valores, até então considerada uma fortaleza. O transformador de energia elétrica da região explodiu e houve disparos de tiros contra policiais de plantão. Rodovias e vias de acesso foram bloqueadas com veículos em chamas para permitir a fuga da quadrilha, que levou R$ 27.9 milhões. Nos dois anos seguintes (2016 e 2017), diz o professor, esse tipo de ação se repetiu onze vezes, elevando o prejuízo para R$ 238 milhões.
Redes Flexíveis
Arthur Pinto de Lemos Junior, secretário de políticas criminais do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), afirma que estes grupos reinvestam no poder militar. Eles não estão preocupados com viagens ao exterior, restaurantes famosos. Eles reinvestem no crime em si e não se trata de uma simples investigação.
Pessoas que vão a campo cometer crimes são meros algozes, soldados de grupos criminosos – diz ele, para quem há uma organização por trás deste fenômeno que não foi alcançada. São agrupamentos temporários que não têm a sociabilidade dos antigos bandos de cangaceiros. Os grupos são flexíveis e se reorganizam de acordo com a região e a cena do crime.
Nossa Análise:
Essas redes criadas para dominar as cidades são formadas dentro das prisões, onde bandidos trocam informações sobre suas atividades. A dinâmica destes crimes, fora da norma devido ao tamanho do aparato bélico, também inibe as forças de segurança porque possíveis retaliações podem resultar na morte de pessoas inocentes nas ruas. Pesquisadores afirmam que esse tipo de crime prejudica a imagem das instituições de segurança pública. Mas o enfrentamento violento destes casos só causa insegurança na população. As empresas de valores mobiliários e as instituições financeiras recorreram ao uso da tecnologia. Um deles é um mecanismo de guilhotina que destrói notas assim que os cofres são arrombados. Um desses equipamentos teria sido utilizado pela Brink's em Confresa, frustrando a ação dos bandidos.
Fonte: O Globo



