O deputado estadual do Rio de Janeiro, Val Ceasa (PRD), foi um dos alvos de uma operação realizada na quinta-feira (18/06) pela Polícia Civil do Rio de Janeiro e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) contra funcionários públicos suspeitos de manterem ligações com o Terceiro Comando Puro (TCP), a segunda maior facção do narcotráfico no estado. O ex-vereador Ulisses Marins (PSD) e um ex-assessor parlamentar também foram alvos de mandados de busca e apreensão. No total, as autoridades cumpriram 14 mandados expedidos pelo Corpo Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, incluindo um na sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo os investigadores, os suspeitos teriam intervido numa tentativa de impedir a demolição de um imóvel de luxo ligado ao líder da facção. Em decorrência dessas ações, a operação policial planejada para demolir o local teria sido adiada.
Este conteúdo é apenas para assinantes
Para desbloquear este conteúdo, assine Relatórios INTERLIRA.
Dois presos
Duas pessoas foram presas em flagrante delito durante a operação. Na residência de Val Ceasa, os investigadores apreenderam aproximadamente R$ 166,000 em dinheiro. As autoridades também recuperaram outros R$ 150,000 em outras propriedades ligadas ao delegado estadual.
Ação para salvar o “resort”
Segundo a força-tarefa, as evidências indicam que os funcionários públicos sob investigação tentaram influenciar a Polícia Militar para impedir a demolição de propriedades de luxo supostamente pertencentes ao TCP. Entre elas estava o “Resort Green”, propriedade associada a Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, líder da facção. Localizada em uma área de preservação ambiental em Parada de Lucas, dentro do Complexo de Israel, a propriedade contava com piscinas, áreas de lazer ajardinadas e um lago artificial utilizado para a criação de carpas. Os promotores alegam que os indivíduos sob investigação tentaram justificar a preservação do local alegando que ele seria utilizado para atividades de assistência social.
Faixa na entrada
As discussões sobre a demolição do resort de Peixão vinham ocorrendo desde 29 de novembro de 2023, envolvendo representantes da Polícia Militar, da Prefeitura do Rio de Janeiro e do MPRJ. A operação foi inicialmente agendada para 14 de dezembro daquele ano. No entanto, segundo um relatório interno da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), os planos vazaram e diversos políticos entraram em contato com o comando da Polícia Militar alegando que os imóveis estavam sendo utilizados para projetos em benefício de crianças e idosos. Investigadores afirmam que Val Ceasa e Ulisses Marins contataram policiais do 16º Batalhão da Polícia Militar (Olaria) para solicitar que o imóvel não fosse demolido, argumentando que ali funcionava uma iniciativa social . Quando as autoridades inspecionaram o local, encontraram uma faixa na entrada promovendo um “projeto social para crianças e idosos” associado ao deputado federal Dani Cunha, Ulisses Marins e Val Ceasa.
Campeão dos Votos
A influência eleitoral de Val Ceasa e Ulisses Marins nas áreas controladas por Peixão reflete-se nos padrões de votação em toda a região. Uma análise realizada pelo GLOBO em seções eleitorais localizadas em Vigário Geral, Cordovil, Parada de Lucas e Brás de Pina — bairros que fazem parte do Complexo de Israel — mostrou que ambos os políticos figuraram consistentemente entre os candidatos mais votados nas eleições locais. Nas eleições municipais de 2024, apesar de não ter conseguido a reeleição como vereador, Marins foi o candidato mais votado em 22 das 32 seções eleitorais analisadas. Dos seus 17,858 votos, aproximadamente 10,000 vieram de zonas eleitorais da região. De forma semelhante, durante as eleições estaduais de 2022, Val Ceasa liderou a votação em 30 das 33 seções eleitorais analisadas. Mesmo nas áreas onde não ficou em primeiro lugar, figurou consistentemente entre os três candidatos mais votados.
Outras Operações
A operação realizada pelo MPRJ contra Val Ceasa e Ulisses Marins colocou novamente a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) no centro das investigações envolvendo suposta influência criminosa sobre instituições públicas. Este, porém, não é o primeiro caso do tipo. Em 2025, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na Alerj durante a Operação Zargun, que resultou na prisão do então deputado estadual T.H. Joias. Segundo os investigadores, ele supostamente atuava como intermediário político e financeiro do Comando Vermelho (CV), mantendo contato com traficantes, policiais e funcionários públicos em apoio aos interesses da organização criminosa.
Análise:
A investigação envolvendo o deputado estadual Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins reflete um desafio recorrente na segurança pública do Rio de Janeiro: a interseção entre o crime organizado e a influência política. Segundo as denúncias, a questão vai além da atividade criminosa direta e envolve tentativas de usar a autoridade política e a legitimidade social para proteger bens ligados a uma grande organização de tráfico de drogas. Se comprovadas, tais ações demonstrariam como os grupos criminosos buscam cada vez mais não apenas o controle territorial, mas também a proteção política capaz de obstruir as operações policiais e preservar recursos estratégicos. Esse tipo de relação pode ser particularmente valioso para as organizações criminosas, pois lhes permite reduzir os riscos operacionais e, ao mesmo tempo, expandir sua influência dentro das instituições formais.
Fontes: O Globo [ 1 ], [ 2 ], [ 3 ], [ 4 ]; G1 ; A Folha de SP.



