Um estoque de munição adquirido pela Polícia Militar Paulista (PM-SP) há mais de uma década continua a surgir em investigações criminais, expondo fragilidades persistentes no controle e na rastreabilidade das munições fornecidas às forças de segurança. Segundo levantamento do Instituto Sou da Paz, munição de dois lotes da PM-SP adquiridos em 2005 e 2007 foi identificada em diversos incidentes violentos desde 2012, incluindo massacres na Grande São Paulo, Londrina (PR) e São Gonçalo (RJ). O caso mais recente citado pelo relatório envolve a morte, em novembro de 2025, do advogado Carlos Alves Vieira, conhecido como Ferrugem, baleado por policiais da Rota em Itaquaquecetuba.
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Lotes irregulares de munição
A investigação identificou os lotes AAE67 e BAY18 como tendo sido adquiridos em quantidades muito acima do limite estabelecido por um regulamento do Exército destinado a facilitar a rastreabilidade. O lote AAE67 continha 438,000 cartuchos de 9 mm, enquanto o BAY18 incluía 320,000 cartuchos de 9 mm e 1.4 milhão de cartuchos de calibre .40, apesar do regulamento estabelecer um limite de 10,000 cartuchos para cada código de identificação.
Uso em crimes graves
Munições desses lotes foram identificadas em locais de crimes ao longo de mais de 14 anos. O levantamento relaciona os projéteis a homicídios em Osasco e Carapicuíba em 2012, ao massacre de Osasco-Barueri em 2015, que deixou 17 mortos, a um ataque em São Gonçalo que matou duas pessoas e ao massacre de Londrina em 2016, no qual 11 pessoas foram mortas. A recorrência dos mesmos códigos de munição indica que estoques desviados permaneceram disponíveis para uso criminoso por um longo período.
Falhas de rastreabilidade
O caso evidencia lacunas significativas na capacidade das autoridades de rastrear munições desde a aquisição até o uso final. O Brasil exige que as munições vendidas à polícia e às forças armadas possuam códigos de identificação alfanuméricos, mas não existe um banco de dados público unificado que contenha todos os lotes de munição adquiridos pelas instituições de segurança. O Instituto Sou da Paz argumenta que a ausência de tal banco de dados dificulta a identificação de desvios, a investigação de crimes e o estabelecimento da responsabilização institucional.
O caso Ferrugem
O caso mais recente também levanta questões sobre a preservação de provas e a confiabilidade dos registros operacionais. Os investigadores encontraram munição PM em uma pistola Glock 9mm atribuída a Ferrugem, mas a arma não apareceu nas imagens disponíveis das câmeras corporais. A gravação começou mais de seis minutos após o tiroteio, enquanto outras evidências indicaram que os policiais manusearam o veículo envolvido no incidente durante o período não coberto pelas câmeras. A Glock e outra pistola encontradas no veículo também tiveram seus números de identificação originais removidos ou alterados, impedindo o rastreamento de sua origem.
Análise:
O desvio de munição fornecida pelo governo representa um risco significativo à segurança, pois cria um canal de abastecimento ilícito de longo prazo que pode apoiar diretamente o crime organizado e criminosos violentos. O fato de munição dos mesmos lotes da polícia ter aparecido em incidentes criminais não relacionados ao longo de mais de uma década sugere que o desvio não é necessariamente uma perda isolada de estoque, mas pode se tornar uma vulnerabilidade persistente quando o controle de estoque, a responsabilização e a rastreabilidade forense são inadequados.
Do ponto de vista da segurança corporativa, o caso reforça a importância de considerar o desvio ilícito de armas e munições controladas pelo Estado como parte do contexto mais amplo do crime organizado. A rastreabilidade deficiente pode complicar as investigações após tiroteios, aumentar a incerteza quanto à procedência das armas e munições e, potencialmente, minar a confiança nas operações de segurança oficiais. Para empresas que operam em ambientes expostos à criminalidade armada, isso reforça a importância de monitorar a disponibilidade de armas de fogo e munições ilícitas, avaliar a qualidade dos controles das forças policiais locais e incorporar os riscos relacionados a munições em avaliações mais abrangentes de violência criminal e segurança de pessoal.
Fontes: A Folha de SP.



