Na edição deste mês, lançamos a primeira de uma série de duas partes que enfoca o impacto da violência nos negócios no Brasil. Iniciamos destacando o caso crítico da distribuidora de energia do Rio, que pediu concordata após prejuízos bilionários impulsionados pelo crime organizado. Nós também discutimos o cenário de violência no país que afeta diretamente sua atratividade para os negócios; os riscos de trabalhar com serviços públicos; o fato de as micro e até multinacionais serem prejudicadas; e a fuga de empresas.
No próximo mês, abordaremos o despesas extras e perdas comumente causadas pela violência; a alienação de investimentos e profissionais qualificados; os custos da violência na América Latina e Caribe e no Brasil – enfocando os custos sociais, privados e públicos -, e encerra com a importância da revisão das políticas e estratégias de segurança e da proteção planejada.
Resumo
O custo dos altos índices de criminalidade no Brasil é significativo, as pessoas mudam de comportamento para evitar crimes, famílias e empresas gastam grandes quantias para proteger se contra o crime, empresas reduzem seus investimentos e incorrem em perdas de produtividade e os governos destinam grande parte de seu orçamento à segurança pública. Compreender o impacto direto e indireto do crime pode permitir que empresas e governo tomem medidas mais eficientes e eficazes para combater a violência, ao mesmo tempo em que permite o crescimento da economia.
Caixa de luz
Em 12 Maio, A Light, empresa de distribuição de energia do Rio de Janeiro, entrou com pedido de falência. Um dos principais motivos foi a interferência das organizações criminosas nos negócios da empresa, o que levou a um descasamento entre despesas e receitas, e consequente aumento da perda de caixa a ponto de, no longo prazo, a empresa não conseguir mais arcar com dívidas que já somam R$ 11 bilhões.
A Light é uma das maiores do gênero no país, fornece energia para 4.5 milhões de clientes e 11.6 milhões de consumidores em 31 cidades do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, 20% de sua área de cobertura está em áreas dominadas pelo narcotráfico e pelo controle de milícias armadas. Em alguns locais, como a Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, onde a milícia controla a maior parte do território e ainda conecta seus empreendimentos imobiliários clandestinos ao sistema da Light e cobra do consumidor final como se tivesse produzido a energia. Em áreas onde os cabos saem da distribuidora, a milícia cobra uma taxa adicional, o que acaba incentivando o cliente a desistir do serviço oficial.

A empresa também enfrenta muitos outros problemas, como clientes inadimplentes, roubo de energia não ligada ao crime organizado. No entanto, os prejuízos impostos à empresa pelo crime organizado são o aspecto mais evidente do extenso endividamento da distribuidora de energia, que levou a holding a entrar com pedido de recuperação judicial.
Todas as soluções que são debatidas devem enfrentar os mesmos problemas. Assim, especialistas do mercado acreditam que será necessário criar um modelo de concessão específico para áreas de criminalidade no Rio de Janeiro. A avaliação dos especialistas é que o modelo padrão de regulação não funciona e os prejuízos são tão altos que são considerados insustentáveis para o investidor privado.
Perdas com furto de energia prejudicam consumidores e empresas. No caso da Light, 70% das perdas financeiras são repassadas para a tarifa do consumidor e os 30% restantes são assumidos pela distribuidora.
O mesmo problema é visto em todo o país. A agência reguladora Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), calculou que, em 2022, o prejuízo com furtos de energia elétrica chegou a R$ 5 bilhões, o que representa cerca de 3%, em média, do valor da tarifa paga pelo consumidor.
Violência – Homicídios, Crime Organizado e Crimes Patrimoniais
Caso da Light é consequência de problemas causados pela violência no Brasil que afeta diretamente a atratividade do país para os investidores; a profissionais qualificados; às empresas e até mesmo sua capacidade de aumentar os investimentos em setores estratégicos carentes, como infraestrutura, educação, saúde. Os crimes também geram custos correlatos ou consequentes – com segurança, saúde, seguros, planejamento extra, prejuízos etc. –, ampliando os riscos financeiros e reduzindo os lucros.
Principais fatores que impulsionam esse cenário de violência inclua o número de homicídios intencionais, a presença generalizada de grupos do crime organizado em todos os estados, e o alto número de crimes contra a propriedade, principalmente aquelas de alto impacto nos negócios, como roubo de cargas.
O número total de homicídios intencionais no Brasil é bastante alto, mesmo para os padrões da América Latina. Em 2022, foram registradas 40,824 mortes, o que representa uma pequena redução de 0.8% em relação a 2021, e uma grande queda de 30,9% em relação ao pico histórico, atingido em 2017 – 59,128 mortes –, em meio a uma guerra de gangues concentrada nas regiões Norte e Nordeste. Segundo a Insight Crime, fundação dedicada ao estudo da principal ameaça à segurança nacional e cidadã na América Latina e no Caribe, os resultados mais recentes representam uma taxa de 19 homicídios por 100.000 habitantes em 2022, quando a população foi estimada em 214 milhões. Depois que o Censo 2022 revelou que o país tem apenas 203 milhões de habitantes, esse índice subiu para 20.1, o sétimo pior número dessa região considerada a mais violenta do mundo. – 76% (38) das 50 cidades mais violentas do mundo estão na América Latina, segundo o Conselho Cidadão de Segurança Pública e Justiça Criminal do México (CCSPJP).
Uma das principais forças motrizes por trás da violência é o crime organizado; está ligada a grande parte dos crimes contra a vida e aos crimes contra o patrimônio. Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP) tem confirmou a presença de pelo menos 53 gangues, no país, em sua maioria, com atividade limitada ao seu estado de origem. No entanto, as principais já se estabeleceram em outros estados. Por exemplo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), tem atividades ilícitas em pelo menos 24 estados e no Distrito Federal.



A influência desses grupos pode ser medida, por exemplo, no número de assassinatos registrados. Pesquisa concluída em 2022 por Stephanie Gimenez Stahlberg, na Universidade de Stanford (EUA), revelou que há um aumento de até 46% na taxa de homicídios de estados onde há disputa de quadrilhas entre pelo menos duas das três maiores facções criminosas do país: PCC, Comando Vermelho (CV) e Família do Norte ( FDN). O estudo reforça o entendimento comum de que grande parte dos homicídios está diretamente ligada ao crime organizado.
Enquanto a taxa de homicídios de um país é o principal índice para medir a criminalidade e a violência, principalmente pela possibilidade de traçar paralelos com outras nações, outros tipos de crimes também são importantes para entender o impacto da violência na economia. Brasil tem altos índices de crimes contra o patrimônio. Por exemplo, a em 2019, segundo a Organização das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, o país teve 561 roubos por 100,000 habitantes (973,219 no total), entre os quatro primeiros resultados da América do Sul, atrás da Argentina (1,069 por 100,000 habitantes), Uruguai (885) e Chile (652), mas bem à frente de nações desenvolvidas, como EUA (81), França (44) ou Japão (2).
NÚMERO TOTAL DE GOLPE NO BRASIL

Nos últimos anos, os roubos têm caído, mas outros tipos de crimes contra o patrimônio têm aumentado. Em 2021, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022, demonstram que o índice de furtos caiu 18.7% (456.2). Por outro lado, os golpes atingiram níveis nunca antes vistos, com uma taxa de 593 por 100,000 habitantes, o que representa um aumento de 129.9%, quando comparado ao índice de 2019.
Trabalhando para governos
A Light é uma empresa de grande porte com relacionamento específico com prefeituras para prestação de serviço público à população local. Assim, lida com desafios ligados à sua natureza: ampla área de atuação, amplo público, diversos cenários de segurança. Nessas circunstâncias, os problemas proliferam, portanto, muitas outras empresas do setor sofrem com os mesmos problemas. distribuição de energia empresas do Amapá e do Amazonas enfrentam condições ainda piores, com prejuízos financeiros maiores. Em 2021, as perdas não técnicas – ligações clandestinas às redes de abastecimento –, popularmente conhecidas como “gatos” no Brasil, representaram 122% da energia distribuída pela Amazonas Energia ao consumidor regular.
Ainda no segmento de serviços públicos, as empresas de transporte também são bastante sensíveis ao nível de violência. Uma pesquisa divulgada pela Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU), em dezembro de 2019, mostrou que de 1987 a 2019, 4,488 ônibus foram incendiados por criminosos em diversas situações e durante protestos. Somente em 2019, isso representou prejuízo de R$ 49.9 milhões a empresas de todo o país que tiveram que substituir veículos, não conseguiram transportar milhares de passageiros e permaneceram improdutivas por dias. No entanto, o dano vai além desse valor. Desde 1987, 20 vidas foram perdidas, 77 pessoas ficaram feridas e milhões permanecem traumatizadas, e muitas pararam de usar o serviço devido à sua má reputação.
De empresas locais a multinacionais
A extorsão é outra expressão recorrente da violência que atinge pequenas e grandes empresas no Brasil. Esta categoria de crime é normalmente perpetrada por gangues e membros corruptos das forças de segurança. Um caso muito interessante foi revelado em junho passado, na região central de São Paulo. Há pouco mais de um ano, centenas de dependentes químicos que formam o “Cracolândia” deixou os arredores da estação Júlio Prestes e mudou para um comportamento itinerante. Desde então, moradores e comerciantes da área central começaram a reclamar do aumento dos problemas de segurança. Indivíduos que se identificaram como traficantes passaram a cobrar para retirar a multidão de viciados da frente das lojas.


Mais tarde, foi noticiado que policiais civis, policiais militares e guardas municipais teriam cobrado taxa de proteção aos comerciantes.
Em 2022, segundo levantamento do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares, 40 restaurantes fechados no centro de São Paulo devido ao aumento da violência na região. Uma escola de 137 anos, o Liceu Coração de Jesus, também fechou. Temendo o mesmo destino, muitos empresários decidiram pagar pelos serviços de proteção, agora as autoridades acreditam que isso pode levar à formação de uma milícia na área.
As milícias são temidas por suas conexões com membros das forças policiais locais. O Rio de Janeiro é bastante famoso por ter alguns dos mais violentos e poderosos. Nas áreas sob seu controle, eles se intrometem em quase todas as atividades locais, cobrando das empresas para permitir que eles operem e estabeleçam o monopólio sobre determinados serviços. Também são conhecidos por extorquir empresas contratadas para realizar obras de obras públicas e privadas.

Enquanto os micro, pequenos e médios negócios, como restaurantes e lojas, são atingidos com mais facilidade e profundidade, devido aos seus menores recursos, até mesmo as grandes empresas internacionais são prejudicadas pela violência. Em um caso recentemente relatado na Zona Oeste do Rio, uma empresa multinacional cuja identidade não pode ser revelada nesta reportagem foi vítima de uma milícia.
A empresa adquiriu um terreno por um valor milionário para fazer um projeto, mas as condições de segurança do bairro não foram avaliadas previamente. No final, os empresários tiveram dificuldade em encontrar empreiteiros que aceitassem a obra. Apenas uma ofereceu o serviço, apresentando-se como uma empresa que “fazia obras na região”. Mais tarde, descobriu-se que a empresa era, na verdade, propriedade da milícia local e não permitia que concorrentes operassem ali..
Vôo de Companhias
Entre 2013 e 2017, o número de roubos de cargas aumentou fortemente (+70.7%) e as empresas começaram a deixar um dos bairros mais afetados da cidade do Rio, a Pavuna, onde estavam localizadas diversas indústrias e centros logísticos. Segundo fontes da mídia, 10% das empresas do polo empresarial da região saíram nessa época. No mesmo período, São João de Meriti e Belford Roxo, cidades da Região Metropolitana, também tiveram saídas de empresas.
Em 2022, a região Sudeste do país, onde se encontram os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, acumulou 85.18% dos roubos dos 13,089 casos notificados, segundo dados da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística). Só São Paulo teve 45.23% desses casos, enquanto o Rio teve 31.32%. As empresas atacadas tiveram prejuízo estimado em R$ 1.2 bilhão.



