Em junho de 2021, o líder da maior milícia do estado do Rio de Janeiro, Wellington da Silva Braga, foi morto durante uma operação da Polícia Civil na favela Três Pontes, em Paciência, na Zona Oeste da capital. A morte do líder , mais conhecido como “ Ecko ”, denominação também dada à sua milícia, levou à fragmentação do grupo criminoso – já abalado por antigas desavenças – e, consequentemente, a novas disputas territoriais.
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A principal rivalidade se dá entre o irmão de Ecko, Luís Antônio da Silva Braga, também conhecido como “ Zinho ”, e o ex-aliado de Ecko, Danilo Dias Lima, vulgo “ Tandera ”. As hostilidades começaram um dia após a morte de Ecko: cerca de 100 criminosos armados com fuzis invadiram a favela do Manguariba, também em Paciência, a mando de Tandera. Os ataques e confrontos não cessaram desde então, e o cenário da guerra tem sido a Zona Oeste do Rio de Janeiro , especialmente nos arredores de Santa Cruz e Praça Seca, bem como a nova fronteira das milícias: a Baixada Fluminense.
A ÁREA SOB CONTROLE
Segundo levantamentos realizados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, milícias atuam em 278 comunidades do estado . Pelo menos 2 milhões de pessoas vivem em áreas sob influência de milícias . À época de sua morte, a antiga milícia de Ecko estava presente em 20 bairros da capital e em pelo menos outras 6 cidades da Baixada Fluminense.

Contudo, as regiões controladas por grupos criminosos têm fronteiras relativamente dinâmicas, dadas as disputas territoriais com outras milícias, narcotraficantes e forças estatais. O núcleo das áreas dominadas por milícias é geralmente mais estático. Nessas áreas, as milícias controlam diversos tipos de atividades econômicas : construção e venda de imóveis, revenda de gás, distribuição ilegal de internet e televisão a cabo, cobrança de taxas de “segurança” e venda de cigarros contrabandeados.
A NARCOMILÍCIA
Uma das atividades criminosas realizadas por milícias merece destaque: o narcotráfico . Isso porque as primeiras milícias surgiram com a prerrogativa de erradicar o tráfico de drogas e restabelecer a ordem em locais “esquecidos” pelas autoridades públicas. Com o passar do tempo, o perfil das milícias mudou radicalmente; os antigos líderes , geralmente oriundos das forças de segurança pública, como policiais, bombeiros e guardas prisionais, foram substituídos por civis que passaram a enxergar as milícias como um veículo para negócios ilícitos, e não como um serviço de “segurança”. Dado o aspecto financeiro, era evidente que o tráfico não seria deixado de lado. Da mesma forma, os traficantes também começaram a adotar práticas típicas das milícias. Surgiu, então, um termo para designar ambos: a “narcomilança ”.
FRANQUIA
Vale ressaltar, no entanto, que a milícia de Ecko concedia aos líderes locais de cada região certa autonomia para gerir e explorar atividades criminosas , incluindo o tráfico de drogas. Isso ocorria porque o modelo expansionista de Ecko era algo semelhante a um sistema de franquias ; grupos de milícias locais solicitavam a adesão à associação de Ecko e a atuação em seu nome. Em troca, pagavam taxas e recebiam apoio militar, logístico e de recursos humanos.
Essa autonomia garantiu, por exemplo, que o miliciano conhecido como Macaquinho , que controlava diversas comunidades em Jacarepaguá, aliasse seu grupo ao Terceiro Comando Puro (TCP) , a segunda maior facção do narcotráfico no estado, para confrontar o Comando Vermelho (CV), o maior do RJ. Contudo, Macaquinho rompeu seus laços com Ecko após uma desavença. Logo depois, foi preso, mas ainda mantém sua aliança com Tandera.
EXPECTATIVAS
A guerra não parece ter arrefecido ; vários ataques foram relatados este ano, e o número de assassinatos causados por milícias já ultrapassou o do mesmo período de 2021. A polícia tem agido com vigor contra as milícias, e é comum ver operações quase semanais com dezenas de prisões . O governo estadual também parece ter dado mais atenção ao combate às milícias do que no passado, quando o tráfico de drogas era o principal alvo. As soluções, no entanto, não parecem ser suficientes até o momento. A expansão dos grupos provavelmente continuará.



