RESUMO
O Relatório de Riscos Futuros da AXA, agora em sua 11ª edição, analisa os riscos globais através das perspectivas de mais de 3,000 especialistas de 50 países. No total, 10 principais riscos foram classificados e discutidos no documento de acordo com a opinião dos profissionais. Na edição deste mês, a INTERLIRA analisou os cinco principais riscos no escopo brasileiro e, no mês que vem, os cinco restantes serão apresentados e debatidos.
O relatório categoriza 25 riscos principais em cinco áreas: Saúde, Meio Ambiente, Tecnologia, Economia e Sociedade. Os principais riscos identificados incluem mudanças climáticas, instabilidade geopolítica, ameaças à segurança cibernética, riscos de IA e big data e tensões sociais. As alterações climáticas foram classificadas como o risco global mais significativo, com especialistas enfatizando a necessidade de investimentos substanciais para mitigar seus impactos. No Brasil, eventos climáticos extremos, como secas severas e inundações, já causaram danos significativos, destacando a urgência de abordar esses riscos climáticos. A instabilidade geopolítica, o segundo maior risco, em especial as tensões da guerra Rússia-Ucrânia e os conflitos regionais, também representam desafios para o Brasil, embora sua capacidade de produção de alimentos e energia possa oferecer vantagens estratégicas.
A segurança cibernética, o terceiro maior risco, é uma preocupação crescente no Brasil, onde o país ocupa o segundo lugar global em ataques cibernéticos. Com a crescente dependência digital, as empresas devem reforçar suas medidas de proteção cibernética. A IA e os big data, o quarto maior risco, também trazem novos desafios, como a disseminação da desinformação e o aumento da fraude virtual, agravado pelo uso crescente de smartphones e mídias sociais. As tensões sociais, o quinto maior risco marcado pela polarização política e desigualdade, estão criando instabilidade neste país sul-americano. O país tem visto violência política e protestos, alimentados por desinformação e radicalização, com atividades de gangues criminosas se espalhando por áreas urbanas e rurais. As empresas devem permanecer atentas a esses riscos, avaliando o clima político e social e adaptando suas estratégias para proteger operações e ativos.
A pesquisa
Anualmente, empresas dedicadas à gestão de riscos que podem afetar empresas e instituições buscam entender o contexto global e o cenário de riscos em constante evolução para assumir a melhor posição diante das previsões dos especialistas. O Relatório de Risco Futuro da AXA está entre os mais conceituados da pesquisa.
O documento está na sua 11ª ediçãoth edição e oferece aos leitores uma visão global dos riscos futuros percebidos por um painel de mais de 3,000 especialistas do setor de 50 países. Entre os 25 riscos diferentes apresentados aos entrevistados, cinco tiveram que ser escolhidos e classificados. Eles foram divididos em cinco categorias: Saúde e medicina, Meio ambiente e energia, Tecnologia e dados, Economia, finanças e ambiente de negócios, Sociedade, política e regulamentação. Os participantes eram da Europa, Ásia-Pacífico, Américas e África.
Como exercício de análise, os resultados da pesquisa foram utilizados como guias para verificar como os 10 maiores riscos se manifestam no Brasil. Esse tipo de estudo serve como referência para todos, principalmente para aqueles que se dedicam a gerir negócios para antecipar, prevenir e reduzir riscos.
Mudanças Climáticas
O relatório da AXA revela a percepção consistente das mudanças climáticas como o principal risco global. Especialistas de todas as quatro regiões classificam a questão como o principal problema da sociedade. E está no topo pelo menos desde 2018, exceto em 2020, quando pandemias e doenças infecciosas subiram abruptamente do oitavo lugar devido à COVID-19. O documento também destaca que mitigar as mudanças climáticas exigirá um investimento massivo, mas deixar de investir resultará em custos muito maiores. Estimativas do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático apontam para danos globais anuais que podem variar de 19 trilhões a 59 trilhões de dólares até 2050.

No Brasil, desastres recentes têm chamado a atenção das autoridades para os impactos já visíveis de eventos climáticos extremos, que segundo estudos são impactos das mudanças climáticas que levaram a uma situação extrema El Niño, que causou uma redução significativa nas chuvas no Norte e Nordeste, e um aumento nas chuvas na região Sul.
Em 2024, foram registrados desastres no Norte e no Sul do Brasil, com mortes, desalojamento de famílias, destruição de diversos imóveis, interrupção de atividades econômicas e obstrução de rodovias, ruas, aeroportos, hidrovias e outras rotas logísticas. No Norte, uma seca extrema levou à redução do nível dos rios a níveis historicamente baixos, à obstrução de cursos d’água e ao consequente isolamento das comunidades ribeirinhas.
A seca, que foi a pior desde 1950, também afetou outras regiões do país, atingindo 3,978 municípios (Cemaden), e levou a uma redução generalizada da produção de energia da principal fonte do Brasil, as usinas hidrelétricas, responsável por 53,88% (Aneel). A opção mais cara, as termelétricas, tiveram que ser acionadas, encarecendo ainda mais os preços da energia.
No Sul, observou-se o cenário oposto, com chuvas torrenciais que provocam inundações, deslizamentos de terra e muito mais. Em mais de uma semana, um estado inteiro parou após dias consecutivos de chuvas torrenciais que destruíram todo tipo de instalações e infraestruturas essenciais, como rodovias. Os impactos só agora estão sendo completamente calculados. De acordo com um estudo divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), perdas somam R$ 88.9 bilhões.
Os impactos foram além da evidente destruição física das cidades. A crise humanitária colocou os serviços públicos, como saúde e segurança, sob pressão. Assim, dificuldades adicionais surgiram: o saque de casas e outros edifícios que tiveram de ser evacuados; o roubo de mantimentos doados às vítimas; casos de violência nos abrigos; e o aumento dos conflitos entre gangues.
Mitigar riscos neste cenário exige entender o clima local e como ele pode afetar os negócios quando ocorrem eventos extremos. Quando eventos extremos eventualmente ocorrerem, planejamento, treinamento, equipes de emergência, uma rede de assistência para funcionários afetados e medidas de contingência farão a diferença.
Instabilidade Geopolítica
Nos últimos três anos, o cenário geopolítico sofreu uma grande transformação, após a eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia. Disputas comerciais entre China e EUA, embargos e barreiras comerciais adicionaram mais atrito. As tensões entre as nações mais poderosas aumentaram, atingindo níveis vistos apenas durante a Guerra Fria. Os riscos desenvolvidos têm implicações de longo alcance, afetando tudo, desde mercados financeiros a aspectos regulatórios e capacidade empresarial de operar. A pressão geopolítica continua a dificultar qualquer tentativa de cooperação em nível global.
Neste cenário, o Brasil tem condições de lidar bem com alguns riscos geopolíticos emergentes, como o conflito acima mencionado. Como o país produz alimentos e energia, pode evitar os piores impactos e servir como alternativa para compradores de commodities e investidores. Nesse caso, a crescente relevância dos BRICS poderia ajudar o país. No entanto, com a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA, esse mesmo fator pode apresentar desafios para os países sul-americanos. Trump ameaçou recentemente impor uma tarifa comercial de 100% aos membros do BRICS se tentarem substituir o dólar americano como principal moeda comercial global.

Ainda no âmbito internacional, mas mais localmente, outros riscos representam diversas ameaças ao Brasil. A instabilidade na Venezuela e no Haiti trouxe mais fluxo de migrantes, um evento que gerou conflitos no passado, especialmente nas áreas de fronteiraA Venezuela também está enredada numa recente disputa pelo território de Essequibo, que quase desencadeou um conflito local, em meio ao qual o Brasil poderia potencialmente se tornar um campo de batalha devido a fatores geográficos. Infestado por organizações criminosas, o Brasil e seus arredores agora sofrem com a internacionalização desses grupos. Lucrando com fronteiras longas e porosas, gangues como Tren de Aragua, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando Capital (PCC) estão se infiltrando em países e exigindo que a polícia nacional e as forças de justiça comecem a cooperar cada vez mais. Um exemplo disto foi a crise de violência observada recentemente no Equador, com o assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio e as subsequentes rebeliões prisionais e assassinatos generalizados.
Lidar com essa condição exigirá que as empresas estejam preparadas para tomar decisões estratégicas com ainda mais agilidade. Ao escolher a localização de fábricas e outras instalações, tenha em mente o alinhamento político. Custo, redes logísticas e proximidade dos mercados terão que dar espaço à estabilidade das relações globais. Isso também deve ser pensado ao adquirir fornecedores e matéria-prima. Certamente, não há sentido em encontrar um bom local, estável em termos de relações internacionais, mas com profunda instabilidade interna devido a fatores de segurança locais.
Riscos de segurança cibernética
Os riscos de segurança cibernética aparecem nas três primeiras posições desde 2018. Por quatro anos veio em 2nd e três anos em 3rd. Ao falar sobre esse assunto muitos pensam em ataques maliciosos. Mas hoje em dia, as infra-estruturas públicas e privadas são tão dependentes de soluções tecnológicas, por vezes fornecidas por alguns fornecedores, que quando uma falha, as consequências podem ser catastróficas.. A título de exemplo, o relatório da AXA menciona a Parada do CrowdStrike, em julho de 2024, que provocou erros fatais em milhões de PCs e uma perda estimada de US$ 5.4 bilhões entre as empresas da Fortune 500 dos EUA.
Além disso, a natureza da tecnologia digital torna os riscos mais rápidos. Os impactos se espalham mais rapidamente por todo o globo e são amplificados. Além disso, Os ataques cibernéticos já não são o produto de indivíduos solitários e especializados, tornaram-se armas patrocinadas por estados para atingir objetivos mais elevados: guerra informacional, roubo de dados e muito mais.

No caso do Brasil, a situação é preocupante. É o segundo país com mais ataques cibernéticos no mundo, segundo o Panorama de Ameaças para a América Latina 2024. Em 12 meses, foram registrados mais de 700 milhões de ataques cibernéticos no país, totalizando 1,379 por minuto. Outra pesquisa, da Trend Micro, mostrou que, pelo décimo ano consecutivo, o país quase liderou a lista de alvos globais. Perdeu apenas para os Estados Unidos. Foi apontado como o segundo país mais vulnerável do mundo a ataques cibernéticos no primeiro semestre de 2023.
Em entrevista ao Repórter Brasileiro, O especialista Geraldo Guazzelli explica que o problema tem várias causas. Primeiro, o tamanho do país e a crescente penetração do acesso à internet: são 249 milhões de smartphones, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O número de domicílios com banda larga também aumentou desde 2016, de 79.2% para 81.2%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A presença de grandes corporações multinacionais e um dos sistemas financeiros mais desenvolvidos torna a nação ainda mais atraente. Por fim, o hábito duradouro da pirataria e o fato de ser um dos primeiros a adotar novas tecnologias.
Neste contexto, implementar políticas de segurança cibernética, firewalls, antivírus e medidas de proteção de dados (criptografia e autenticação de dois fatores) é apenas o começo. Em resposta, as empresas brasileiras devem aumentar o investimento em segurança cibernética. Embora os princípios fundadores da gestão de riscos permaneçam os mesmos, velocidade e preparação ganharam relevância. Além disso, há uma complexidade crescente, que reside na necessidade de constantemente desafiar a abordagem, questionando a maneira como as empresas identificam, avaliam, priorizam, monitoram e mitigam riscos. Assim, alguns fatores devem ganhar atenção extra. O monitoramento e o relato de ameaças devem ser constantes. Não pode haver processos mal estruturados e pessoal mal treinado. A colaboração com fornecedores e prestadores de serviços é essencial, pois eles geralmente são a conexão mais frágil, por meio da qual os ataques podem ocorrer.
IA e Big Data
A tecnologia digital trouxe a humanidade para a era da informação. Agora, a Inteligência artificial e o big data são reconhecidos como um novo estágio desse desenvolvimento. No entanto, isso não aparece sem riscos para a própria informação. Entre algumas das maiores ameaças mencionadas no relatório da AXA estão a questão da desinformação e da informação enganosa. O primeiro é o conteúdo criado deliberadamente para enganar, o segundo inclui informações falsas espalhadas por aqueles que acreditam erroneamente nelas.

IA e big data podem ser usados para espalhar notícias falsas e alterar intencionalmente o curso das eleições, prejudicando o processo democrático e minando a democracia. Esse processo foi visto em duas das maiores democracias globais, nos EUA e no Brasil. Em ambos os países, estudos indicaram que as divisões políticas, a desconfiança e, finalmente, a violência aumentaram muito devido ao uso generalizado de smartphones e mídias sociais trabalhando em parceria com a IA para criar imagens, vídeos, textos e conteúdo falso muito mais elaborado e massivo sobre o mundo político.
Esses novos recursos estão criando um impacto negativo por meio de crimes tradicionais, especialmente golpes. Desde 2020, o Brasil tem testemunhado um aumento nesta categoria de atividade ilegal. Por exemplo, no estado do Rio de Janeiro, número de golpes registrados aumentou 191% de 2019 a 2023. Anteriormente, os números nacionais não eram computados, mas depois que o crime se tornou um problema sério, o governo começou a monitorar o fenômeno e divulgou que entre 2022 e 2023, os golpes tradicionais aumentaram 8.2% e as fraudes virtuais aumentaram 13.6%. Criminosos já descobriram que podem usar IA para criar códigos maliciosos a partir de comandos simples, permitindo que hackers novatos – e até mesmo pessoas sem conhecimento de programação – criem armadilhas virtuais para atacar empresas e usuários. Alguns As IAs podem imitar a voz de alguém e replicar a imagem de alguém importante em uma teleconferência, enganando quem está do outro lado. Criminosos no Brasil usam isso para convencer pessoas a transferir dinheiro.
Ações preventivas e mitigadoras no Brasil devem partir dos setores público e privado. Isso exige colaboração, a criação de regulamentos, e poderia até incluir uma agência. Ao mesmo tempo, o A própria IA pode ser usada para identificar e combater notícias falsas. Campanhas e procedimentos de conscientização também deve ajudar as empresas a combater esse problema.
Tensões e movimentos sociais

Em 2024, as tensões e os movimentos sociais subiram para o 5º lugar entre os riscos globais, refletindo preocupações acrescidas. Apenas 13% dos entrevistados acreditam que as autoridades estão preparadas para abordar essas questões. As principais preocupações que impulsionam esta percepção incluem o fracasso institucional, o declínio da democracia, o aumento das desigualdades, a crise do custo de vida e a violência social. O papel de as redes sociais, a IA generativa e as tecnologias deepfake na disseminação de desinformação amplificaram ainda mais a escala e a complexidade dessas ameaças.
O Brasil fornece um estudo de caso vívido dessas dinâmicas. Divisões políticas profundas, alimentadas por notícias falsas e discurso radical nas mídias sociais, levaram à violência política e ao terrorismo. O rescaldo das eleições presidenciais de 2022 viu protestos generalizados, com apoiadores do lado perdedor acampando do lado de fora das bases militares para exigir a saída do presidente Lula. A escalada incluiu um atentado com bomba no Aeroporto Internacional de Brasília em dezembro de 2022, com o objetivo de incitar o caos para justificar uma intervenção militar. Mais recentemente, em Novembro de 2024, um indivíduo descontente detonou explosivos perto do Supremo Tribunal Federal do Brasil, matando-se.
Além da instabilidade política, o Brasil enfrenta pobreza e desigualdade persistentes, principalmente nas favelas urbanas controladas por gangues criminosas. Estas organizações, nomeadamente a Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), dominam territórios, orquestram a violência e expandem sua influência nacional e internacionalmente. As atividades de gangues, incluindo tiroteios e perturbações da vida pública, são agora galopantes nas regiões Norte e Nordeste.

INas áreas rurais, as disputas por terras agravam as tensões. Grupos indígenas, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e quilombolas enfrentam invasões de agricultores, mineiros ilegais e madeireiros. A fraca aplicação da lei, a corrupção e os altos lucros dessas atividades garantem que os conflitos persistam apesar das intervenções governamentais.
Neste contexto volátil, as empresas devem permanecer vigilantes, avaliando as tendências sociais para informar as decisões. A instabilidade política pode levar a protestos, mudanças regulatórias ou decisões radicais. A violência urbana e rural requer medidas de segurança personalizadas. O envolvimento com as partes interessadas políticas e a monitorização dos desenvolvimentos são essenciais para estratégias preventivas e mitigadoras, ajudando organizações a se adaptarem a um cenário em rápida mudança.



