Em 13 de outubro deste ano, dois turistas italianos foram baleados dentro de um carro por criminosos ao entrarem por engano no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ). Este é apenas um entre centenas de casos de pessoas de fora do Rio, e até mesmo da cidade, que se perdem porque o motorista entrou por engano em uma área controlada por gangues, muitas vezes por engano do motorista pelo sistema de GPS.
O incidente de outubro aconteceu quando um grupo de cinco turistas italianos voltava para São Paulo (SP), após uma festa na Marina da Glória, na Zona Sul do Rio de Janeiro. em Avenida Brasil., Eles tomou o caminho errado e fui na Favela da Maré, onde acabaram sendo baleados.
Incidentes como o descrito acima são comuns principalmente à noite, devido às dificuldades adicionais para os condutores impostas pelas condições de baixa visibilidade. Porém, na verdade, eles podem ocorrer a qualquer momento considerando o tamanho do Rio e sua intrincada rede de ruas. Em cima disso, há um enorme número de áreas controladas por gangues, muitas vezes localizadas no meio de bairros ricos, de classe média alta e média e perto de atrações turísticas sem muitas indicações óbvias – especialmente para estrangeiros – do perigo iminente.
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NÃO É UM INCIDENTE ISOLADO
Nas últimas décadas, muitos outros incidentes semelhantes foram relatados. Eles já fazem parte da rotina violenta do Rio, e um risco constante. Por exemplo, este ano, o caso dos turistas italianos não foi o primeiro, nem o último.
Em maio, durante um tiroteio entre patrulhas policiais e traficantes de drogas, mãe e filho foram baleados após acessar Vila Aliança favela, no bairro de Bangu, Zona Oeste do Rio. Ao tentar fugir, Joseli Teresinha Hart, de 40 anos, atropelou e matou um pedestre, Eduardo da Silva Guilherme, de 21 anos. Mãe e filho usaram um aplicativo de GPS para chegar ao hotel, mas o aplicativo os conduziu diretamente a um caminho que passa pela favela em conflito.

Em 24 de novembro, ocorreram dois incidentes. Primeiro, o policial militar Luis Carlos da Silva, de 52 anos, foi morto a tiros após entrar por engano na comunidade Cavalo de Aço, em Senador Camará, Zona Norte. Ele estava tentando escapar de um engarrafamento, quando percebeu que havia entrado em uma área controlada por gangues. Nesse momento, cometeu outro erro, ao tentar fugir abruptamente, o que chamou a atenção dos criminosos, que atiraram contra ele.

Não muito longe do primeiro evento, William Lúcio Lourenzo, de 46 anos, foi baleado, na Estrada do Taquaral, no interior da Vila Aliança, Zona Norte. Com um sócio, ele realizava um serviço de frete de Três Pontas, em Minas Gerais, para o Rio. Na Avenida Brasil, o GPS informou uma rota alternativa para sair do trânsito e logo em seguida ele foi baleado. Ele foi levado por outro motorista ao Hospital, onde permanece internado.
DIRIGIR NO RIO EXIGE CUIDADO E ATENÇÃO
Em 2020, foi fundada a relatório da Polícia Civil sobre violência no estado do Rio de Janeiro encaminhado ao Ministério da Justiça e ao Supremo Tribunal Federal (STF) dá uma ideia dos altos riscos que alguém corre dirigindo no Rio sem saber dos riscos da cidade. O relatório revela que o crime organizado atua em 1,413 comunidades no estado, Mais de metade (763) estão na capital, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2010). Outra grande parte está na Região Metropolitana, o último censo registrou a presença de 271 favelas. As quadrilhas do narcotráfico dominam 81% desses territórios, e as milícias, 19%.

A maior facção do tráfico, a Comando Vermelho (CV), controla 828 favelas. A segunda maior quadrilha de drogas, Terceiro Comando Puro (TCP), domina 238 favelas. Enquanto isso, em terceiro, o Amigos de Amigos (ADA) administra 69. O milícia está em 278 favelas. Além disso, segundo a polícia, esses territórios estão sob o controle de uma grande força, cerca de 56,600 criminosos em geral, portando armas de fogo de grosso calibre, como metralhadoras, fuzis automáticos, fuzis .50, granadas e outras.
Temerosos de operações policiais e de ataques promovidos por grupos inimigos, os grupos do crime organizado adquiriram ao longo das últimas décadas uma arsenal muito poderoso com alta capacidade destrutiva. Um sistema de batedores nas entradas dos territórios dos criminosos é usado para avisar imediatamente sobre qualquer invasão e repeli-los. É por isso que motoristas desavisados são baleados com frequência. Nesse clima tenso, quase um cenário de guerra, motoristas não identificados são vistos como uma ameaça, para eles, possivelmente um carro lotado de inimigos tentando uma invasão.
Entre os locais, para evitar esse problema, os criminosos estabelecem muitas regras. Em geral, eles orientam os moradores a desligar os faróis dos carros, acender as luzes internas e o pisca-alerta. Também é essencial dirigir devagar e baixar os vidros. No entanto, tais instruções são disseminadas informalmente, podem mudar de uma área para outra e quase nunca chegam a pessoas de fora.
As gangues impõem sua autoridade fazendo grafites com advertências e instruções, inclusive sobre como dirigir dentro do favela. Quando os motoristas os veem a tempo, isso pode ajudá-los a identificar que entraram em uma zona de gangues e como se comportar para evitar serem baleados. Mas, principalmente à noite, nem sempre é possível vê-los e, na maioria das vezes, eles aparecem quando já é tarde.
Quando se trata da sinalização oficial de trânsito, a cidade também tem seus problemas. A falta ou o mau posicionamento de sinalização indicando aos motoristas a rota correta para um determinado local já causou desastres.
RISCO DE DESTINO - SANTA TERESA, CRISTO REDENTOR, PARATY, BÚZIOS, AEROPORTO DO GALEÃO...
O Rio de Janeiro é um destino turístico, com muitos locais mundialmente famosos, como Santa Teresa, Cristo Redentor, Paraty e Búzios. Não por acaso, todos esses locais se tornaram parte de muitas histórias de viajantes que foram feridos e até mortos ao tentar visitá-los.
Em essência, dois fatores podem explicar isso. Primeiro, o simples fato de que atraem muitos desavisados – estrangeiros, nacionais e até locais. Em segundo lugar, e mais importante, as rotas que levam a eles são cercadas por muitas áreas controladas por gangues. Abaixo, alguns casos para ilustrar as ocorrências relacionadas a esses pontos turísticos e explicar a importância e os riscos das rotas cruciais utilizadas para alcançá-los.
Na madrugada do dia 8 de junho de 2013, o engenheiro Gil Barbosa, residente no Rio, na volta do Aeroporto Internacional do Galeão, acessado por engano Complexo da Maré, Zona Norte do Rio. Isso é muito grande favela, que também é dividido por duas gangues em conflito. Ainda por cima é anexo a três vias extremamente importantes para a cidade: a Via Expressa da Linha Vermelha, a Via Expressa da Linha Amarela e a Avenida Brasil. A primeira liga o centro da cidade à Baixada Fluminense e ao aeroporto. A segunda, liga a Zona Oeste à Zona Norte e ao aeroporto. Por fim, a terceira, estende-se de norte a sul. Quase todo mundo que visita a cidade usa uma dessas estradas. Aquela manhã, após errar na saída da Linha Amarela, Barbosa levou um tiro na cabeça e morreu cinco dias depois.

Santa Teresa é um bairro histórico e artístico in Zona Central do Rio. Conhecida informalmente como “Montmartre Carioca”, possui muitos hotéis, restaurantes de primeira linha e uma vista panorâmica do Rio. Turistas de todo o mundo a visitam anualmente. Dentro Dezembro 2016, Ao visitar Santa Teresa, 52 anos Roberto Bardella, turista italiano, entrou por engano no Morro dos Prazeres, um favelaa controlado pelo Comando Vermelho (CV). Bardella foi baleado na cabeça e morreu. Ele era um viajante experiente, viajando de moto pela América do Sul com um amigo e já havia passado pelo Paraguai e Argentina, além de Curitiba e Foz do Iguaçu.
Alguns meses depois, em Fevereiro de 2017, outro turista foi morto no Morro dos Prazeres. A argentina Natália Cappetti foi baleada após entrar por engano na favela. Natalia estava em um carro com o marido e outro casal espanhol. Além de estar perto de Santa Teresa, este favela também está perto do acesso a outra atração mundialmente famosa, o Cristo Redentor, onde os dois casais queriam ir. Porém, por engano, eles entraram na favela e foram baleados pelo menos seis vezes por traficantes.

Paraty é uma antiga cidade litorânea colonial na Costa Verde, na região sul do estado, onde existem diversos pontos turísticos famosos por suas belezas naturais. Em 2019, um turista suíço, Michele Angelo Galli, de 69 anos, e seu esposa decidiu visitar o local. Porém, para chegar até lá, eles seguiram pela Avenida Brasil, que faz parte da BR-101, principal rodovia que leva a Paraty. A Avenida Brasil tem dezenas de zonas controladas por gangues em suas margens. Também é freqüentemente afetado por tiroteios e roubos em massa. O suíço acabou sendo baleado no peito depois que o GPS levou ele e sua esposa a um favela nas margens desta avenida. A esposa dele, que também ficou ferida, disse à polícia que o GPS indicava um trajeto pela Cidade Alta, na Zona Norte. Ambos tiveram que ser socorridos por uma patrulha da Polícia Militar.

O processo de incidente mais recente, em 20 de novembro de 2022, envolveu uma família indo para Búzios, uma cidade turística Costa Azul do Rio, outra região de praias e belezas naturais mas no região norte do estado. Neste caso, a família não foi enganada por um GPS. Eles estariam fugindo de um assalto em massa ocorrido em um trecho da BR-101 conhecido como Niterói-Manilha. Isto é um dos locais mais perigosos para motoristas no estado, conhecido por muitos roubos, roubos em massa, roubos de carga e tiroteios. As vítimas eram cariocas e sabiam o caminho para o destino, mas, ao saírem do caminho habitual, acabaram se metendo em confusão..
Além dos riscos na estrada, a cidade ao seu redor, São Gonçalo, é bastante perigosa também. No margens da rodovia há vários favelas controlado por gangues e milícias. A família entrou no Jardim Catarina, bairro notoriamente violento. Assim que acessaram uma via secundária, dois passageiros foram atingidos por balas, Cleicy Aparecida Vieira, de 44 anos, ficou em estado grave.

APLICATIVOS DE TRANSPORTE
Em 27 de outubro de 2022, 56 anos O motorista de aplicativo Paulo Alberto Lara Fernandes foi morto a tiros por bandidos ao entrar por engano na Rua Fernando Lobo, na Ricardo de Albuquerque, no Complexo do Chapadão, Zona Norte do Rio. Um ano depois, em Outubro de 2021, outro motorista de aplicativo foi morto. Flávio Amaral Teixeira, de 29 anos, militar do Exército, foi morto a tiros em Nova Iguaçu, na Região Metropolitana do Rio. O motorista levava duas pessoas para o bairro Dom Bosco na noite de domingo quando entrou em um favela por engano.
As histórias acima são apenas alguns exemplos dos casos mais recentes de motoristas de aplicativo que perderam a vida por não conhecerem as regiões por onde passavam.
Quando um visitante evita dirigir sozinho e contrata um serviço de transporte, com certeza reduz os riscos, incluindo chances de acessar uma zona de gangues. No entanto, não há garantia.
O fato é que O Rio é uma cidade bastante complexa e grande, com um enorme sistema de ruas que conecta centenas de bairros, cada um com características e ameaças específicas. UMA profissional que enfrenta isso diariamente deve ter um certo nível de conhecimento para evitar colocar a si e aos passageiros em risco. Por outro lado, os aplicativos de transporte têm muitos motoristas de meio período ou novos que não conhecem bem a cidade como motoristas de táxi amarelos tradicionais.
Além disso, o os carros utilizados pelos motoristas de aplicativo são veículos comuns, e não possuem nenhum tipo de sinalização que os identifique. Enquanto isso, os táxis são devidamente identificados por um padrão de pintura específico e uma placa na parte superior do carro. Esses fatores reduzem ainda mais as chances de incidentes com gangues.
O RIO NÃO ESTÁ SÓ
Rio de Janeiro não é o único local no Brasil onde a violência de gangues se tornou uma ameaça para os motoristas. Traficantes fortemente armados em constante guerra por território, elementos básicos desse fenômeno, estão presentes em muitas outras localidades, como a Baixada Santista (SP), Vila Velha (ES), entre outras.
Por exemplo, em 20 de novembro de 2017, um GPS instruiu Luiz do Santos, um turista que visitava a Baixada Santista, a dirigir até a favela México 70, em São Vicente, próximo a importante rodovia dos Imigrantes e Santos cidade. Lá, ele foi abordado por criminosos armados que tentaram roubá-lo. No entanto, Santos, que também era policial, conseguiu reagir rapidamente e atirar nos suspeitos.

No dia 6 de maio de 2020, na cidade de Vila Velha, Espírito Santo, dois vendedores foram agredidos quando voltavam de um dia de trabalho. eles estavam dirigindo do bairro Primeiro de Maio ao Jardim Marilândia. Porém, como ambos eram mineiros, eles usaram um GPS para chegar ao seu destino. O dispositivo os conduziu diretamente a um beco sem saída em uma área conhecida como “Faixa de Gaza”, devido à violência causada pelo narcotráfico. Os vendedores foram cercados e baleados, mas conseguiram fugir.
ESFORÇOS PARA EVITAR INCIDENTES
Empresas e poder público vêm tentando implementar ações para evitar que tais incidentes continuem acontecendo.
Um projeto foi realizado pelo Waze, um aplicativo que oferece um serviço de GPS com informações de trânsito atualizadas por sua comunidade de usuários. Pouco antes das Olimpíadas do Rio, em agosto de 2016, devido aos inúmeros casos envolvendo motoristas que entraram em favelas por engano, O Waze mapeou 25 áreas que expunham usuários a riscos. Assim, os motoristas passaram a receber um alerta quando a rota traçada incluía trechos nessas regiões.
Em 2019, o prefeito Marcelo Crivella sancionou Lei nº 6,469, que exige que dispositivos e aplicativos de geolocalização ofereçam alertas sonoros e notificações aos usuários em caso de proximidade de áreas de risco na cidade carioca. De acordo com o texto, as áreas de risco são aquelas com conflitos armados, regiões com incursões policiais permanentes, com muitos roubos e furtos, considerando informações coletadas junto ao Instituto de Segurança Pública (ISP) ou órgãos públicos e entidades públicas e privadas que estudam o assunto.
Apesar do esforço para acabar com os ataques aos motoristas, os muitos casos recentes descritos acima mostram que ainda não foi encontrada uma solução confiável.
Portanto, a fim de reduzir os riscos e mitigar possíveis perdas, as recomendações abaixo devem ser seguidas:
- Prefira sempre os roteiros que você já conhece
- Quando você é completamente novo em uma região, nunca dirija sozinho. Prefira usar os serviços de transporte local. No Rio e em São Paulo, táxis cooperados e serviços de transfer são boas opções
- Tenha um Plano de Gestão de Viagens preparado antes das viagens. Especialmente se eles são uma rotina
- Permaneça nas ruas principais, evite as secundárias
- Use apenas GPSs com bancos de dados atualizados, mudanças nas características das estradas, como novas faixas, acessos fechados ou novos viadutos podem jogar o motorista em um local indesejado
- Ao usar um aplicativo ou dispositivo GPS, verifique se a empresa responsável costuma atualizar os mapas com frequência
- Digitar o endereço no GPS antes de iniciar a viagem também ajuda, pois assim é possível pesquisar sobre o destino, calcular o tempo estimado de viagem e obter mais detalhes que podem ajudar as pessoas a não errar na rota
- Nos grandes centros urbanos podem existir dois endereços com o mesmo nome, por isso, ao digitar o endereço de destino, é importante ficar atento a todos os elementos. Dessa forma, é possível evitar alguns erros de trajeto devido a ruas homônimas
- Use a opção “caminho mais curto” apenas se conhecer o percurso
- Quando o GPS leva o motorista para um lugar errado, ele deve se acalmar, parar e buscar orientação. Os equipamentos públicos são considerados pontos mais seguros para isso. Se não for possível, o comércio local é sempre uma boa opção
- Caso você vá parar em uma favela, não existe um procedimento 100% seguro, mas algumas medidas, como desligar os faróis, acender a luz interna, abrir todos os vidros e virar o veículo devagar sem movimentos bruscos



